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Número 883,

Sociedade

Brasiliana

A multiplicação dos pães da Benjamin Abrahão

por Nirlando Beirão publicado 19/01/2016 05h54
O que dois bilionários pretendem com essa padaria-butique?
Wanezza Soares
Benjamin-Abrahão-Padaria

A Benjamin Abrahão original, em Higienópolis

Dificilmente haverá no mundo uma única padaria que tenha sido brindada, em sua inauguração, com a ilustre presença de um presidente da República.

Até seria compreensível que isso acontecesse em países onde vicejam a tradição artesanal dos fermentos e leveduras e o amor ancestral às façanhas de uma boa farinha.

Mas nunca se soube de um François Mitterrand, ou de um Giorgio Napolitano, ou de um Mario Soares, de nenhum dignitário da França, da Itália, ou de Portugal, ou, que seja, do Líbano, da Síria, da Turquia, que tenha descido do olimpo do poder para descerrar a placa inaugural de um varejo de bisnagas e baguetes.

A Benjamin Abrahão, em São Paulo, ostenta esse privilégio incomum. O evento deu-se – anota a placa – em 2000. Havia a conveniência, para a casa, de o presidente ser um morador da neighborhood, a walking distance ali na própria Rua Maranhão, naquela Higienópolis tão poliglota e tão rempli de soi-même que tem ganas de exigir passaporte dos eventuais forasteiros; e igual conveniência havia para o presidente Fernando Henrique Cardoso, na certeza de que, mesmo em carestia de pães, jamais haveriam de faltar os brioches.

O fato é que FHC foi lá, naquele jeitão de quem tem sempre à disposição uma comitiva de Maria Antonieta, oferecer a Benjamin Abrahão e família como que aquele selo do by appointment da monarquia britânica. 

O patriarca Benjamin – que começou vendendo doces e salgadinhos nas feiras livres de São Paulo, nos anos 40 – foi substituído, em 2001, pelo neto Felipe, na arte de sovar as massas e de justificar tão elevado pedigree.

E, mesmo à falta do fundador, o padrão manteve-se elevado, até que a Benjamin Abrahão de Higienópolis e suas afiliadas – oito, agora se sabe, incluindo os seis stands em universidades particulares, para surpresa de quem ainda supunha que aquilo seria eternamente uma boulangerie de nicho – foram, no segundo semestre do ano passado, adquirida pela fina flor do capitalismo voraz e de menor sutileza – embora de rutilante sucesso. 

O negócio caiu nas mãos do bilionário Jorge Paulo Lemann, cabeça do insaciável triunvirato da ImBev (com Beto Sicupira e Marcel Telles), aliado desta vez ao também bilionário Abilio Diniz, ex-Pão de Açúcar. Os efeitos já se fizeram sentir para a clientela habituada a um trato de butique.

Placa-da-padaria
O selo de um pedigree imperial, aliás, presidencial (Wanezza Soares)

A brigada da casa passou também a sussurrar certa malaise com a nova administração e a melancolia ante um futuro desprovido do glamour do passado. 

A implacável lógica da lucratividade, da sinergia, da economia de escala está fazendo da Benjamin Abrahão do FHC uma padaria igual a outra qualquer – é o que temem os tradicionalistas.

Difícil entender por que monstros sagrados do capitalismo, tão celebrados por seus pares pelo seu estilo de atrevimento sem limite e apetite sem medida, venham a se interessar por uma diminuta grife para, quem sabe, destruí-la – ou pelo menos descaracterizá-la.

Mas taí, gente, é a suspeita generalizada, que não dá a mínima para a qualidade do que produz e só se excita, aí sim, pelo tilintar frenético da caixa registradora.

Assusta a turma local do panesse e croissant que Rita de Cássia Sousa Coutinho, a portuguesa responsável por seduzir os dois big shots para o projeto e entronizada como CEO da Padaria Benjamin (como foi rebatizado o negócio, sem o sobrenome plebeu e levantino), já ande falando em “rede de padarias”, em “novo conceito”, em “franquias”, em “novas lojas” – a primeira das quais já aberta na Rua Joaquim Eugênio de Lima, em área endinheirada dos Jardins – e não muito distante da filial já existente da Rua José Maria Lisboa.

Assim como a matriz de Higienópolis, esta também, a padaria dos Jardins, sofrerá o que a nova administração chama de “revitalização”.

Por ora, o que a freguesia tem experimentado em termos de “revitalização” é o súbito sumiço dos melhores frios no balcão frigorífico (em Higienópolis, o próprio balcão frigorífico desapareceu). Os porta-vozes do novo business atribuem os problemas da virada do ano ao “atropelo da transição”.

Interessante que Abilio Diniz esteja na sociedade. Sua fortuna foi constituída a partir de uma modesta doceria aberta pelo pai, Valentim dos Santos Diniz, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, número 3.138, em setembro de 1948.

O comércio prosperou a ponto de virar uma das maiores redes de supermercados do mundo. Abilio perdeu o controle em 2013 após longa e acirrada disputa com o grupo francês Casino. Tem agora a chance de mostrar que entende mesmo de pão. Seu pai, pelo menos, entendia. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 883 de CartaCapital, com o título "A multiplicação dos pães"