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Número 882,

Cultura

Humor

No Porta dos Fundos, a receita que evita a piada pronta

por Nirlando Beirão publicado 06/01/2016 05h11
Da web para a tevê, grupo é espaço de humor irresistivelmente debochado e radicalmente contemporâneo
Gregorio-Duvivier

Gregório Duvivier em "Dez Mandamentos"

O cartunista Paulo Caruso reclama da classe política: “O que essa gente está fazendo é concorrência desleal com os humoristas”. Tem razão, o Paulo. O picadeiro ocupado pelos histriões eleitos pelo voto e pagos com o dinheiro do povo – e uma propininha, aqui e ali – está em plena efervescência.

Convém lembrar dois episódios recentes capazes de ilustrar como 2015 foi um ano pródigo em bufonarias que nem o mais inspirado dos satíricos, um Sterne, um Swift, um Gregório de Matos, haveria de conceber.

Numa suposta confraternização natalina, a ministra de Estado arremessa contra o senador da República o conteúdo cor de sangue de um copo de vinho (Cabernet? Syrah?) em resposta ao gracejo machista do lúgubre parlamentar. Cena de pastelão em chanchada da Atlântida.

Outra: o vice-presidente escreve uma carta à presidenta anunciando, com arroubos de donzela e em estilo kitsch de jeune fille do século XIX, sua decisão de trair, por se sentir traído. Pindorama fica-lhe para sempre grata por esse repente de hilaridade.

Ante esse cenário burlesco de commedia dell’arte, fazer humor no Brasil passa a ser fácil – e também dificílimo. Além dos renitentes engraçadinhos das redes sociais, há aqueles, como José Simão, experimentado colunista da Folha de S.Paulo, que, condenado ao compromisso do dia a dia, acaba sucumbindo ao varejo mais rasteiro da conjuntura, buscando a caricatura da caricatura em trocadilhos fáceis e trejeitos verbais.

No rádio fica melhor do que no papel. Até mesmo a concorrência interna prejudica: as manchetes da Folha tanto quanto as medições enviesadas do Datafolha e as diatribes feíssimas de Ferreira Gullar são de morrer de rir.

Mas há vida além da indigência mental e se o Brasil – País, diga-se, de maus bofes, resmungão, nada cordial, ao qual, no entanto, para se distrair basta uma cervejinha com gosto de milho e um joguinho mequetrefe de futebol – ainda busca hoje o legítimo direito de transformar o ódio em farsa, acabou encontrando no Porta dos Fundos um espaço de humor irresistivelmente debochado e radicalmente contemporâneo. Não por acaso o Porta nasceu na internet.

Quando cinco amigos se juntaram, três anos atrás, para implantar um coletivo de humor na web, muita gente achou aquilo uma utopia meio delirante. Hoje, o Porta dos Fundos é o quinto maior canal de entretenimento do mundo no YouTube, com mais de 10,8 milhões de assinantes e 2 bilhões de visualizações.

Da rede pularam para a tevê (na Fox Play) e para os palcos, em comédias de stand up (com o título de Portátil). Você pode vê-los até em comerciais como o da C&A. O Natal de parte da trupe seria, em shows onde o improviso predomina, em Portugal.

Casamento
Fábio Porchat em "Casamento", vídeo do canal Porta dos Fundos

Os cinco mosqueteiros originais são o publicitário Antonio Tabet (do site Kibeloco), o roteirista João Vicente de Castro, o diretor Ian SBF (que atua por trás das câmeras), o ator Fábio Porchat e o escritor-roteirista-ator-e-gênio-multimídia Gregório Duvivier.

Depois é que, além de agregar outros craques da pantomima (Luís Lobianco, Rafael Infante, Gabriel Totoro, Rafael Portugal), aconteceu de atrizes como Clarice Falcão, Julia Rabello e Thati Lopes virem arejar aquele ambiente de exclusiva testosterona.

Difícil imaginar origens e personalidades tão diferentes entre si – mas a improvável liga se consolidou no humor rasgado, de uma escatologia tão sem pudor que nem chega a melindrar e de uma iconoclastia tão sem limite que ora e vez um Marco Feliciano tenta brandir contra eles o tacape injuriado da censura.

Humor evidentemente político, embora nem precise usar políticos como escada. Mira a política do cotidiano de uma nação embrutecida – episódios nos quais uma minúcia, uma palavra, uma inflexão rotineira prorrompem numa escalada de destemperos ou, então, num surto de cinismo.

Não fosse por mais nada, o Porta teve o mérito de extravasar a fronteira do canal digital e arrombar o marasmo da tevê aberta com sua revolução – sim, trata-se de uma revolução. A ironia é que a trupe, ao se juntar, achava que não haveria espaço para o humor criativo no broadcasting tipo Globo e SBT. Em desafio aos céticos, o panorama vem mudando.

O caso mais evidente é o do Zorra Total, que preenchia o tédio dos sábados à noite na Globo com suas piadas preconceituosas, seus veadinhos trêfegos e seus machões homofóbicos. Abreviou o nome e se expandiu para esquetes abertamente inspirados no Porta dos Fundos. Por hora, a trupe não está cobrando copyrights

Gregório Duvivier: no humor, ataques pessoais são menos eficazes

CartaCapital: Como é fazer humor político sem falar de política? 

 

Gregório Duvivier: Não se faz humor sem bater em alguém. No entanto, quando se bate em alguém com nome e sobrenome, o humor pode se confundir com agressão. E os ataques pessoais costumam ser menos eficazes. Quando humilham demais o objeto do riso, por exemplo, muitas
vezes o humor pode agregar carisma àquele que sofre o ataque.

Mesmo assim, às vezes não consigo não falar do Cunha, do Temer, mas eles são piadas fáceis. Corre-se o risco de perder o espectador que não gosta de política, ou que acha que não gosta. Para conquistar a atenção do espectador médio sobre política, é preciso fingir que se está falando de outra coisa.

CC:  Por que vocês tomaram essa decisão?

GD: Somos sócios muito discordantes. Cada um acha uma coisa. Alguns sócios torcem até – pasme – pelo impeachment. Tem de tudo. Isso é bom para evitar que o canal bata sempre nas mesmas teclas. Cada um acredita numa coisa. Logo, cada um quer rir de uma coisa.

O grupo costuma censurar quando a opinião está mais forte que a graça, o que acontece com muita frequência. Só aprovamos o que achamos graça, essa continua sendo a regra principal.

CC: Tudo que vocês produzem é criação coletiva, exige longas discussões, ou ainda pode rolar um solo?

GD: O primeiro momento é solo. Cada um escreve sozinho e traz para a roda. A roda pode aprovar de cara, ou pode negar de cara, ou pode (o que é mais comum) sugerir mudanças. Nessas horas, um outro autor pode assumir o comando e fazer uma nova versão. Mas essa nova versão é escrita solo.

Dificilmente escrevemos de fato em grupo – somos dispersos, e a escrita precisa de um pouquinho de silêncio, pelo menos pra mim. No entanto, nada se resolve ou se aprova sem uma reunião – e elas costumam ser intermináveis.