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Número 882,

Cultura

Entrevista

Eu sou Jéssica

por Nirlando Beirão publicado 09/01/2016 20h55, última modificação 09/01/2016 20h55
Como uma figura de ficção pôde explicitar tão bem o desassosego na senzala
Agência Ophelia
Camila-Márdila

As patroas se irritaram e certas domésticas se perturbaram com a verdade na tela

O filme Que Horas Ela Volta? só encontrou sua pulsão dramática, reconhece Anna Muylaert, quando aflorou na cabeça da diretora-roteirista a figura de Jéssica, como contraponto de suave e espontânea irreverência diante da pasmaceira do compadrio estabelecido entre os patrões e aquela empregada que, nas palavras da patroa, “é praticamente da família”

O ruído narrativo trazido por Jéssica, a filha vestibulanda da empregada Val (Regina Casé), menina atraente e, pior, dona de um altivo sotaque de nordestina, deve-se não apenas ao texto -– que consegue trafegar com sutileza e ironia no estreito desfiladeiro onde lhe espreitava a tentação do panfleto e do esquematismo – mas, em especial, à extraordinária interpretação da atriz Camila Márdila, que até prêmio ganhou num festival internacional, o de Sundance, onde intérpretes raramente são premiadas.

“Eu também sou Jéssica”, diz Camila, nascida em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, 27 anos de desenraizada irreverência. “Minha mãe até brincou comigo: ‘Você nem precisou ensaiar, né mesmo?’” A mãe sempre a achou “meio prafrentex”, mas está orgulhosa de ver sua filha no papel autobiográfico de romper horizontes não só para ela própria, mas igualmente para a mãe. “Ela se sentiu meio Val”, acha Camila.

A pior coisa que pode acontecer a um ator deve ser confundir-se com seu papel, mas desse perigo Camila, que faz teatro desde os 11 anos, certamente escapou, por mais empatia e até sintonia que ela tenha com aquela Jéssica fora da curva que merece de CartaCapital as honras de personagem do ano no Brasil de 2015. Jéssica é ficção, a gente sabe. O Brasil de 2015 também é.

Jessica
A desaforada Jéssica (Camila Márdila) mergulha no espaço privado da casa-grande

Com Jéssica, a ficção expõe, no desconforto social e na ambiguidade emocional, a realidade muitas vezes dissimulada de um país que de cordial e afetuoso só tem o verniz e a fachada. A Camila atriz acabou pagando o preço de ser a Jéssica personagem. “Nem sempre as pessoas conseguem separar”, diz ela. Não foi uma única vez, foram muitas as ocasiões em que, nas pré-estreias e nas sessões para convidados, Camila se viu trespassada pelos olhares do preconceito e da intolerância. “Tipo ‘eu queria te esganar’.” 

Se a Jéssica aparecesse numa daquelas manifestações pró-impeachment e pró-golpe na Paulista ou no Leblon, “é bem possível que ela fosse hostilizada”. Já a patroa, dona Bárbara, com certeza, seria brindada com selfies risonhas como aquelas que a tigrada da direita-bolsonaro se orgulha de tirar ao lado da PM.   

Desabusada como ela só, Jéssica suscita inquietação mesmo entre quem a princípio deveria estar a seu lado. Camila esteve num preview para a associação de trabalhadoras domésticas no Rio, ao lado de Karine Teles, que exprime no filme o incômodo equívoco da patroa. A cena da piscina, chocantemente simbólica, fez a plateia popular explodir como se fosse gol em final de campeonato. No entanto, deu também para sentir o mal-estar provocado pelo desembaraço meio petulante da menina entre as Vals ainda acomodadas no quarto dos fundos da ordem estabelecida, por injusto e hipócrita que seja o status quo.

“Teve uma senhora que andava pra lá e pra cá”, lembra Camila, “falava sem parar, não parava na cadeira, estava exaltada”. Depois, percebeu-se que o que a deixara tão atormentada eram os repentes de compaixão que Que Horas Ela Volta? alterna com momentos de conflito. “Na história dela”, conta Camila, “manifestações eventuais de afeto são um intolerável artifício para desprofissionalizar a relação. Contou: ‘A única vez que o patrão me chamou para sentar à mesa foi porque não queria me dar o aumento que pedi’.” 

Camila
"Nem sempre as pessoas conseguem separar", diz Camila em relação a sua personagem Jéssica (Diego Bresani)

Surpresa mesmo tem sido a reação ao personagem Fabinho (Michel Joelsas), o sinhozinho inseguro que encontra na doméstica o colo e o carinho que a mãe empavonada lhe sonega. “Uma menina que viu o filme disse: ‘eu sou o Fabinho’ – e começou a chorar”, diz Camila. Lembrou-se da infância, de sua Val que desapareceu no mapa, do sentimento dúbio que experimentava, entre os cafunés da empregada e a arrogância de se ver superior a ela, de não pertenceram ao mesmo mundo e ocuparem o mesmo lugar.   

“Quando o doutor Carlos (o pai de família, interpretado por Lourenço Mutarelli) me diz que tem uma herança, senti que aquilo não fazia sentido algum não só para a Jéssica, para mim também não.” Camila diz que o pai mineiro, homem da roça que foi fazer Brasília com a família, e a mãe piauiense “não herdaram nem uma agulha” – na verdade, nem ao sobrenome de seus ascendentes tiveram acesso. Foram obrigados a construir, sem esse suporte tão natural, sua própria identidade. O pai virou Evangelista; a mãe, Maria dos Remédios. “Ninguém ligava para nome, papel, documento.” Migrantes clássicos, desses que deixam para trás, ao partir, raiz, passado, memória, história.  

Márdila também é pura ficção – o sobrenome, bem entendido. Foi inventado pelos pais. “Mas um pai de santo muito conhecido em Brasília, Raul de Xangô, disse que Márdila é forte, que ia dar sorte e, felizmente, está acontecendo.” Camila está morando em São Paulo e ensaia no Sesc Consolação – que também sedia o lendário CPT de Antunes Filho – uma peça dirigida por Felipe Hirsch. Vai estrelar um filme ano que vem e, quem sabe, um seriado. Mantém, com amigas de Brasília, uma trupe que costuma perambular pelo País com enredos bem distantes do convencional, criados por elas mesmas. Se é para representar texto alheio, seu favorito é Samuel Beckett. 

Que Horas Ela Volta? faz aflorar o tema que continua sendo, em pleno século XXI, a maior vergonha brasileira: a escravidão. É o fantasma que continua pautando nossas relações sociais, e não apenas o convívio de copa e cozinha, ainda que encoberto pelo manto de afabilidade dengosa e do paternalismo insincero. A malaise que o filme causou, nos círculos enfatiotados e entre as dondocas injuriadas, autoriza a suspeita de que boa parte da sociedade nativa ainda sonha em rasgar aquele papel assinado há mais de um século pela Princesa Isabel, se assim fosse possível.