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Número 881,

Cultura

DVD

Senhor Cinema

por Rosane Pavam publicado 25/12/2015 09h09
No ano do centenário de nascimento de Orson Welles, a Versátil lança versão de O Processo, entre outras obras capitais
Doug Menuez/ Stockland Martel
Jangadeiros

A saga dos jangadeiros brasileiros que a RKO desprezou

Joseph k sonhava. Ou o que via era a realidade. Ele fora preso em casa, ou talvez se encontrasse livre. Havia sido condenado sem razão, ou as razões eram desnecessárias. Parecia certo, contudo, que se visse submetido às formalidades, aos ritos, aos guardas. E que jamais conseguisse ultrapassar a porta no caminho da justiça. Em 1920, Franz Kafka leu aos amigos os fatos contidos no primeiro capítulo de seu romance O Processo e eles gargalharam. Não uma gargalhada de todo prazerosa, como se recorda Max Brod, presente à leitura. Antes uma partícula de riso em meio às cem outras de desassossego. Brod nunca se conformou com a incompreensão a cercar o amigo. “Preciso assinalar o que se esquece facilmente quando se contempla a obra de Kafka”, disse. “Sua dobra de alegria do mundo e da vida.”

Orson Welles talvez tenha lido o que escreveu Brod. Ou, como se espera de alguém diagnosticado genial antes de completar 2 anos de idade, desenhista, músico e ator aos 10, especialista em Shakespeare aos 14, filho de um inventor e de uma pianista no Wisconsin, Welles apenas tenha compreendido O Processo melhor que os outros. Quando o filmou, em 1962, com Anthony Perkins no papel principal, o diretor norte-americano parecia bem-humorado a ponto de levar à irritação François Truffaut. Aquele Perkins não era quem o cineasta francês desejava para o personagem. Mas, se Welles não respeitara Shakespeare integralmente em suas adaptações cinematográficas, por que manteria intacto o texto do escritor dos escritores? 

O verdadeiro cinema, bem sabia o diretor, escolhe as próprias leituras. Seu Joseph K ousava ser racional. Declinava da ajuda de um advogado ineficiente, corrigia a fala equivocada do policial, proclamava inocência em um tribunal agigantado e desafiava os algozes sob um adágio de Tomaso Albinoni. Como Joseph K poderia ter gargalhado diante da morte? Apenas Welles parecia entender a necessidade desse riso. Ele via tragédia e comédia nas situações inesperadas. E considerava O Processo seu melhor filme, uma produção que só caminhara com independência porque conduzida longe dos Estados Unidos, por franceses, italianos e alemães. 

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Em O Processo, os palacetes burocráticos. (Nicolas Tikhomiroff)

Nesta obra, somam-se atuações tão imensas quanto as de Jeanne Moreau, Romy Schneider, Elsa Martinelli ou Akim Tamiroff. A fotografia brinca com o tamanho dos personagens e evoca os infernos dos palacetes burocráticos. A profundidade de campo que o diretor inventara em seu primeiro filme, Cidadão Kane (1941), responsável por encaminhar o cinema a um assombroso realismo, mostra todos os personagens em foco. As grandes-angulares sufocam as existências laterais na tela. A obra evoca os paradoxos de Magritte, os desertos de Dalí, os contrastes de Alexander Rodtchenko. Histórias demais surgem narradas a cada plano, em um virtuosismo que talvez Jorge Luis Borges detestasse. O escritor detectara “genialidade sem inteligência” em Kane, predizendo seu esquecimento. O Processo talvez estivesse fadado à mesma equivocada profecia se, nos anos 1960, Borges ainda avaliasse filmes para a revista Sur.

O DVD restaurado de O Processo integra a caixa O Cinema de Orson Welles junto a Soberba, A Dama de Shangai, Verdades e Mentiras, Grilhões do Passado e É Tudo Verdade. Em outro pacote de DVDs, Shakespeare por Welles, também lançado pela Versátil como celebração ao centenário de nascimento do diretor, estão suas versões para Macbeth, Othello e Falstaff. Nos extras, críticos mostram como, em meio à duplicação de identidades diante do espelho (Shangai) ou sob um céu tumultuado de nuvens (Othello), o cineasta fez emergir a consciência de seus protagonistas diante da mesquinhez generalizada.

Para Welles, as feiticeiras da razão foram quase sempre as mulheres, todas muito shakespearianas, mesmo que seus filmes não adaptassem Shakespeare. Soberba (1942), protagonizado por Joseph Cotten, descreve, por exemplo, a ascensão ao poder do empreendedor industrial, em oposição ao latifundiário no século XIX americano, mas há bruxas a cercá-lo, como sua cunhada, interpretada por Agnes Moorehead. O filme não pôde ser terminado por Welles porque ele se encontrava no Brasil para realizar É Tudo Verdade, o célebre documentário dentro da política de boa vizinhança. Ao contrário do que lhe prometera, o estúdio RKO não mandou as moviolas ao Rio de Janeiro. Os 45 minutos extraídos à revelia anularam o ritmo e o verdadeiro final.

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As identidades no espelho, em Dama de Shangai. (Nicolas Tikhomiroff)

À época, Welles, que transmitira A Guerra dos Mundos (1938) pelo rádio de modo a convencer que os marcianos pousavam em New Jersey, era uma espécie sofisticada de embaixador americano, a ponto de o presidente Roosevelt haver tentado que concorresse ao Senado contra um “fraco” Joseph McCarthy. “Imaginem se eu tivesse me tornado vitorioso e ele jamais houvesse sido eleito?”, perguntava-se. Ele conheceu o parlamentar-símbolo da caça às bruxas e o entendeu charmoso, embora, claro, irresponsável e vil. “Ele ganhava os inimigos na lábia, ninguém percebia que estava fazendo o mal. Uma criança terrível com fogos de artifício que na verdade eram bombas atômicas.”

Os bombardeios contra Welles, embora de outra natureza, partiram dos executivos. Em seu primeiro filme, Cidadão Kane, por meio de um argumento de Herman Mankiewicz, ele debochara de um dos maiores, William Randolph Hearst (Rosebud era como ele intitulava o clitóris da amante, disse Gore Vidal). Os extras narram a filmagem de É Tudo Verdade. O diretor obstinara-se com os jangadeiros que navegaram em mar aberto até Getúlio Vargas, por direitos trabalhistas. Mas, em meio à ficcionalização de sua epopeia, morreu um deles, Jacaré. E com a troca de comando da RKO, Welles demitido, não havia como terminar o filme. Contudo, compungido, o diretor prosseguiria rodando. Jangadeiros é o resultado de uma edição feita depois da descoberta das latas intactas em um estúdio, nos anos 1990.

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Anne Baxter e Joseph Cotten em Soberba, filme editado à revelia. (Doug Menuez/ Stockland Martel)

De Shakespeare ao cinema noir representado por Grilhões do Passado (1955) ou à discussão sobre a autenticidade da arte, em Verdades e Mentiras (1973), tudo o que passa por Welles tem sua marca, a câmera baixa, o jogo incessante de planos, o banho de atuação dos atores. Ele esperava por interpretações tão boas quanto as teatrais, mas, para obter esse resultado, jamais se desgastava com seus profissionais, talvez porque tivesse sido, ele próprio, um grande ator. Apenas os técnicos conheciam o Welles irascível, que deles exigia a ultrapassagem dos limites.

“A visão que eu tinha de meu futuro era muito sombria”, contou o cineasta à rede ABC em 1964. “Eu era um menino mimado. Todo mundo me elogiava, da hora em que eu acordava até dormir. Tornei-me um ator para sobreviver. Meu pai morreu, eu não tinha dinheiro, queria ser pintor. Consegui me apresentar como uma estrela ao pessoal do teatro aos 16 anos e começar como uma estrela porque assim me via quando criança. Eu não tinha humildade, essa que veio ao longo do tempo. Talvez nem tenha sido humildade, mas exaustão. Comecei como uma estrela e decaí desde então.”

Nele misturavam-se barbárie, astúcia infantil e genialidade poética, como certa vez observou o crítico André Bazin. Ou como sentenciou Richard Wright: “Um Orson Welles é suficiente. Dois dele, sem dúvida, levariam a civilização à extinção”. O diretor sabia ser único. Certa vez, foi convidado a dar uma palestra em Kansas City, mas ao anfiteatro de 50 mil lugares compareceram apenas 25 espectadores. Envergonhados, os organizadores do evento não apareceram para apresentá-lo. O cineasta, então, tomou o palco e dirigiu-se à escuridão: “Meu nome é Orson Welles. Escrevo peças de teatro e também atuo. Faço rádio, pinto e sei truques de mágica. Sinto muito por haver tantos de mim e tão poucos de vocês”.