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Número 881,

Cultura

Papinho Gourmet

O porquê do Papinho

por Márcio Alemão publicado 27/12/2015 03h23
Não me lembro de ter ido a um restaurante e ter saído feliz, compensado
Istockphoto
Papinho

No Mani também me decepcionei. Acho que só eu neste país

Hoje, o Papinho vai ser entre mim e você. Papo sincero, de amigo, franco.

E começo fazendo uma confissão: a ideia do Papinho surgiu por conta do bode geral da cena gastronômica.

A palhaçada saiu do controle. Para citar um exemplo, até hoje não encontrei uma única pessoa que, esfregando as mãos e com a boca cheia d’água, me diga: não vejo a hora de ir lá no D.O.M. comer de novo aquele prato...

A ele, parabéns pelas amazônicas descobertas que na verdade não chegaram a causar a menor comoção no paladar de ninguém. Seu talento é inegável. Tenho dúvidas se para a gastronomia, mas isso sou eu, chato, ignorante, inconformado com a constante insatisfação que tenho sentido ao sentar em mesas consagradas.

Semana passada fui a um restaurante que o guia da Veja deu 4 estrelas. Interessa o nome? Não para o que quero dizer. Quatro estrelas e eu comi de maneira absolutamente medíocre. Ruim? Não! Mas nada, nada, nada que me anime a voltar lá. Ops!, o gim-tônica servido em taça de vinho Bordeaux eu gostei. No mais, a clássica enganação que tem fascinado tolos incautos: a direção de arte. Comer com os olhos é fundamental, mas tem muita, muita gente acreditando que o uso desse sentido basta para estrelar um restaurante.

No Mani também me decepcionei. Acho que só eu neste país. Um dos melhores restaurantes do mundo, segundo gente bem mais especializada que eu. E tinha lá um polvo na tal baixa temperatura que é praga pior que dengue no mundo da alta cozinhança (encheu o saco falar gastronomia toda hora).

Eu estava com uma pessoa amiga dos donos e isso me deixou embaraçado pra dizer: desculpa, não gostei, tá rígido, tá faltando sal, tá faltando sabor... Imagina a gafe. Reclamar de coisas tão banais, tipo sabor, em um dos melhores restaurantes do mundo!

Por isso o Papinho. Porque tudo anda muito meia- -boca. Repare nos grandes cadernos da grande mídia. Começaram a fazer matérias internacionais! A maravilha da quinoa peruana, o sol nos fiordes bronzeando as ovas de verão e por aí afora.

Não me lembro de ter ido a um novo restaurante e ter saído feliz, compensado.

Nunca fomos tão mal servidos.

Melhor lembrança do ano? Tagliolini com trufas brancas no Gero.

Pior? Nem sei. Foram tantas. Mas talvez eu eleja A Casa do Porco, um engodo grosseiro comandado por um dos camaradas que mais admiro nesse mundinho.

Curioso notar: desde que começamos a aparecer com enorme e estranho destaque nas publicações mundiais, ficou muito difícil comer bem por aqui.