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Número 881,

Sociedade

Brasiliana

Letras libertárias

por Rodrigo Casarin — publicado 08/01/2016 05h38
Luís Junqueira estimula menores da Fundação Casa a produzir seus próprios livros
Wanezza Soares
Desenho

Os internos preferem histórias mais realistas, quase autobiográficas

"Você quer ajudar crianças a escrever livros de ficção?”, perguntava o anúncio diante de Luís Junqueira, à época estudante do terceiro ano do curso de Letras na Unicamp.

O universitário não pensou duas vezes. Ligou para o número de telefone que acompanhava a pergunta e conheceu a professora Davina Marques, que se tornaria sua mestra em um sentido muito mais amplo.

Davina Marques apostava na literatura como forma de estimular alunos do sexto ano a aprender português. “Ela dava muita liberdade para eles se expressarem. Percebi que gostaria de usar aquela metodologia, incentivar a autonomia das crianças”, diz Junqueira.

Não foi fácil encontrar uma escola interessada no método. Depois de mais de 50 recusas, o então recém-formado viu as portas se abrirem na Castanheiras, estabelecimento de ensino em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. A escola era nova e ainda definia uma grade curricular quando Junqueira foi contratado. Tudo certo? Nem tanto.

No primeiro ano, colegas de trabalho e pais de alunos desconfiaram da metodologia, apesar do entusiasmo dos alunos. “Os estudantes entendem muito bem que não há regras na hora de escrever um livro, que podem começar por onde quiserem, mudar no meio do caminho”, compara. “Com os pais, é sempre um embate. Tem os progressistas e os conservadores.”

Luís-Junqueira
"Se a gente expande a linguagem, expande a visão de mundo", resume o professor (Wanezza Soares)

Alguns pais, diz o professor, tinham dificuldade em lidar com a autonomia criativa dos filhos, a possibilidade de se verem confrontados com a história de um cruel psicopata ou de uma menina que discutia duramente com a mãe.

Restava a Junqueira e à escola mediarem uma reunião entre a família e a criança, para que o contexto das ficções fosse explicado.

Quando a resistência ao método diminuiu na Castanheiras, Junqueira achou que era hora de expandir o projeto. Ele não deveria ficar restrito aos muros da escola.

Precisava se tornar uma ferramenta de autoconhecimento dos jovens e uma maneira de unir famílias em torno da literatura. Em 2013, o professor idealista pediu demissão e foi em busca de parceiros para sua ideia. Encontrou dois, a Fundação Lemann e o Instituto Inspirare.

Em 2015, as primeiras oportunidades apareceram no ensino oferecido pelo poder público. Junqueira passou a dar aulas em duas unidades da Fundação Casa, uma escola em Heliópolis e quatro no estado de Alagoas.

Para dar conta de tantos compromissos, montou uma equipe que reúne 15 professores de português e tem na internet forte aliada. Atualmente, os alunos escrevem seus textos em arquivos, armazenados na “nuvem”, aos quais a equipe tem acesso.

Boa parte do contato entre alunos e professores e do desenvolvimento do trabalho ocorre virtualmente. “Nossa função é perceber as dificuldades e corrigi-las, além de oferecer repertório às narrativas. É um suporte à literatura e à criatividade. Funciona como um ensino a distância que acontece no horário da língua portuguesa.”

Desenho
Um estímulo à literatura e à criatividade (Wanezza Soares)

A experiência permitiu a Junqueira perceber as primeiras diferenças entre os níveis e as diferenças de aprendizado no Brasil. Os alunos de Alagoas, afirma, têm um domínio da narrativa maior que seus colegas de São Paulo.

Em relação ao conteúdo, os jovens da Fundação Casa preferem explorar o realismo e normalmente apresentam personagens que refletem o próprio autor, enquanto os estudantes da escola em Heliópolis preferem o universo fantástico.

Um financiamento coletivo recentemente bem-sucedido (foram arrecadados 56.572 reais) levou à edição dos livros de 300 alunos de Junqueira, entre eles menores da Fundação Casa, que durante algumas horas trocaram o confinamento pela Biblioteca Mário de Andrade, onde se deu o lançamento, na quarta-feira 16. Um momento especial para alunos e para o autor do projeto.

O que motiva Junqueira? “Se a gente expande a linguagem, expande a visão de mundo. Acredito que todo processo de escrever um livro faça uma grande diferença nas escolhas dessas crianças. Estou aqui para auxiliar os alunos a ampliar os limites de sua linguagem para depois ampliar aqueles do próprio mundo.”

E fim, diriam os contos de fadas. 

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