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Número 881,

Sociedade

Star Wars

A Força é do bem

Como uma fantasia espacial pode explicar certos hábitos e muitos vícios do poder
por Nirlando Beirão publicado 30/12/2015 02h05, última modificação 30/12/2015 02h23
Lucas Film/ 20THCentury Fox/ The Kobal Collection/ AFP
Luke Skywalker

Para Lucas, a política estava subjacente à fantasia. Luke se fez herói da democracia

As naves combatentes da Aliança Rebelde já vinham há algum tempo esquentando os motores para voltar à ação, num enxame de salas de cinema por todo o planeta Terra, na quinta 17. 

É a estreia, em escala mundial, de Star Wars – O Despertar da Força (título no Brasil), após dez anos de, digamos, trégua; período em que os entreveros espaciais, com intensidade operística de uma epopeia encenada sob o céu de estrelas, luas, asteroides, estações orbitais e seres esquisitos, pareciam dissipados, para voltarem agora, selvagemente holográficos, brilhantemente digitalizados, no renitente confronto entre os mercenários sombrios do tirânico Império Galáctico e os que tentam ressuscitar, sob a liderança de Luke Skywalker e da ex-princesa e agora general Leia, os valores democráticos da Velha República.  

Ficções científicas – e esta, concebida por George Lucas e alimentada desde 1977 por seis episódios anteriores, cabe bem no rótulo, por mais que também o extrapole – costumam padecer do viés fatal do didatismo. Transportam-se para um futuro presumido, mas sempre de olho no presente, determinados a oferecer uma lição de moral implacável, muitas vezes um alerta de degradação apocalíptica que os dias de hoje já embutiriam sorrateiramente. Nas narrativas do amanhã, o espelho reflete o hoje. 

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No emarado de referências, o cavaleiro caído cita o gênesis.(LucasFilm/ AFP

O que faz a diferença na obra criada por George Lucas – e que fez de Star Wars o mais envolvente, o mais fascinante, o mais duradouro produto da cultura pop do século XX para cá – é o enciclopédico amontoado de referências que, trafegando da fábula ao realismo, e vice-versa, convidam a plateia a um delicioso exercício de decodificações e interpretações. O maniqueísmo típico do gênero acaba diluído no sedutor jogo de adivinhação. 

As peripécias espaciais de George Lucas, que fazem de cada fã um autodeclarado cavaleiro Jedi ou um devotado stormtrooper, continuam arrebatadoras, ainda mais agora que passaram a contar com os recursos de dinheiro e de tecnologia da maior empresa de produção de mídia do mundo: a Disney. A franquia mudou de mãos por 4 bilhões de dólares. O criador assina o episódio 7, dirigido por J. J. Abrams (da série de TV Felicity), como “consultor criativo”. 

Star Wars mistura Flash Gordon com esoterismo, o Velho Testamento com mitos gregos, a etnografia dos nativos americanos com os fundamentos da robótica, a saga do Rei Artur com a psicanálise de Freud, samurais distópicos com donzelas do romantismo, a selvageria da Segunda Guerra Mundial com os heróis à moda de Joseph Campbell, androides com ditadores. No entanto, em sua origem mais remota, os desafios enigmáticos da trama cabiam numa leitura da realidade política mais imediata. O vilão desse conto de fadas, o Império, foi inspirado nas Forças Armadas americanas no Vietnã; os resistentes Ewoks eram os vietcongues; o imperador Palpatine, a cara do execrado presidente Richard Nixon. Simples assim.

Aquilo, escreveu Chris Taylor, biógrafo da série (no recém-lançado Como Star Wars Conquistou o Universo, edição brasileira da Aleph), era o fruto da imaginação de um aprendiz mal iniciado nos truques da cinematografia, nascido no berço afluente de Marin County, no norte da Califórnia, a maior renda per capita da América, um sujeito firmemente independente, que desprezava Hollywood e que recrutou um bando de cabeludos da contracultura, especialistas em efeitos especiais, para trabalharem num armazém improvisado em estúdio. A narrativa subversiva estava lá, desde o primeiro tratamento do roteiro. “Star Wars é baseado em um contexto político, emocional e social muito, muito elaborado”, reconheceu o próprio Lucas, em 2012. “Mas, é claro, ninguém estava ciente disso.”

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Houve quem visse Golbery na cena representada. Mas a inspiração veio foi dos arautos da Guerra Fria. (LucasFilm/ AFP)

Não por acaso, as alegorias interestelares de George Lucas, um atrevido adversário do status quo, vieram a servir a analogias inversamente fantasiosas. Ao ser lançado o filme no Brasil, quando a ditadura civil-militar, já se esvaindo em suas próprias contradições, ainda regurgitava o truculento confronto entre duas facções fardadas, a propósito da sucessão do presidente Ernesto Geisel, o mais prolífico porta-voz da linha menos autoritária, Heitor Aquino Ferreira, deleitava-se em propagar aquilo que via como sintomáticas semelhanças.

Identificava, por exemplo, o general Golbery do Couto e Silva com o sábio Obi-Wan Kenobi; Sílvio Frota, ministro do Exército, com o sinistro Darth Vader, cavaleiro Jedi caído, agora Lorde Sombrio dos Sith; e o rebelde Luke Skywalker, prestes a ser aquinhoado pela Força, na figura do general João Figueiredo, candidato, dizia-se então moderado, à sucessão do imperador, quer dizer, de Geisel. Não dá para lembrar quem seriam os atrapalhados robôs R2-D2 e C-3PO. Na verdade, a única coisa que de fato fazia sentido é que o bruxo Golbery, assim como Obi-Wan, produzia mandingas do outro mundo.

Assim, a leitura política de Star Wars escapou, é natural, ao controle do criador e se prestava, como se viu na Brasília dos militares, a qualquer serviço. George Lucas divertiu-se em saber que, na França, o primeiro Star Wars foi recebido como uma intriga de extrema-direita. Do outro lado da fronteira, na Itália, a maioria da crítica percebeu nele uma sutil apologia do comunismo. 

As refregas do poder não resumem tudo o que é Star Wars. É também um conto de fadas de tamanho família, com fartura de sentimento e magia, que pega as piruetas tecnológicas e as reverberações siderais como um mero ponto de partida. As leis da diversão prevalecem sobre os rigores da verossimilhança científica. Certa vez, os fanáticos da scifi cobraram de Lucas: não há som no espaço. Ele respondeu: “Eu simplesmente quis esquecer a ciência”. Em Star Wars, as armas de raio fazem barulho, sim, e os combates são ensurdecedores.

Se, por labirintos secretos, Star Wars aproximou-se da tarefa de decifrar o poder, não era a de divulgar um manifesto, jamais foi, a intenção de George Lucas. Nerd assumido, encharcado de tudo o que dizia respeito a histórias em quadrinhos e a ficção barata, a westerns-spaghetti e filmes de James Bond, ele sempre se posicionou dentro do espectro daquela “esquerda de Hollywood” execrada pela Fox News e por Donald Trump, na pior tradição do macarthismo dos anos 50. Mas é um sujeito tímido demais, a quem inibe o holofote do público. Mesmo quando se trata de defender seus princípios e ideais. Isso ele sempre preferiu fazer em imagens desassombradas – em filmes impossíveis de esquecer.