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Número 880,

Cultura

Protagonista

Uma voz sem caráter

por Ana Ferraz publicado 18/12/2015 04h34
”Sinatra: O chefão”, segundo tomo da biografia, expõe as idiossincrasias do cantor que completaria 100 anos
Warner Bros/ The Kobal Collection/ AFP
Sinatra

"Ratos do bando": Peter Lawford, Dean Martin e Sammy Davis Jr. (1960)

Em 1930, um cantor de 23 anos e compleição franzina, magnéticos olhos azuis em destaque no rosto anguloso de boca bem desenhada, e voz com um longo caminho a ser percorrido tinha um plano, destronar Bing Crosby. Dicção perfeita, voz profunda e aveludada, presença masculina marcante sem ser ostensiva, naturalidade na interpretação, jeito de bom moço e bon vivant, o rico e bem-educado Crosby derretia corações. Fosse nos discos ou nas telas de cinema. Estava no topo e ultrapassá-lo era a maior ambição do jovem nascido Francis Albert Sinatra na turbulenta Hoboken, New Jersey.  

Crosby que se preparasse, avisava o novato, num arroubo de arrogância típico de uma personalidade complexa, na qual emotividade exacerbada e autoconfiança ilimitada formavam um temperamento impetuoso de quem desde cedo sentiu-se destinado ao Olimpo. Foi ao ouvir Crosby no rádio, na adolescência, que Sinatra decidiu seu futuro. Era aquilo que queria fazer. E era preciso superar o ídolo. 

“Sinatra é a música e é o estilo”, define o jornalista e pesquisador musical João Máximo, roteirista e apresentador do documentário radiofônico A Voz do Século XX, produzido para a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, a fim de celebrar o centenário de nascimento do intérprete. “Sinatra se fez acompanhar pelos mais criativos, sensíveis e elegantes orquestradores. Ele era o amigo generoso, o pior dos inimigos, o malcomportado chefe de uma gangue de ratos.” 

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Com a vulcânica Ava Gardner, paixão insuperável. (Corbis Corporation Fotoarena)

Na biografia Sinatra: O chefão (Companhia das Letras, 1.216 págs, 99,90 reais), James Kaplan conclui o detalhado perfil iniciado em Frank: A voz (2013). Quem emerge das páginas deste segundo volume é um personagem irascível e inconstante, operário perfeccionista e incansável da música, homem ávido por fama e poder, impaciente, movido a hectolitros de álcool e cigarros, dono de senso de humor oscilante, vaidoso e machista, sedutor irrefreável, amante voluntarioso. Um poço de defeitos no qual se destaca uma qualidade capaz de redimir o artista, não o homem: Sinatra era um intérprete incomparável. 

A era das big bands foi pródiga em grandes canções, frisa Máximo. E havia lindas vozes a apossar-se delas. No que o magrelo de Hoboken se diferenciaria dos grandes Nat King Cole e Perry Como? Até chegar a ser contratado por Harry James, Sinatra passou três anos cantando de graça em bares. Em 1939, na função de crooner da orquestra, grava o primeiro disco e colhe o primeiro sucesso com All Or Nothing At All. A voz ainda não era tão cheia quanto viria a ser, ressalta Kaplan. “Mas seu DNA estava lá, aquela coisa indefinível composta de solidão e necessidade, ambição infinita, inteligência para contar histórias e musicalidade intensa, Hoboken e a própria Dolly, a coisa que o fazia totalmente diferente de qualquer outro cantor.”

Dolly, assim apelidada na infância por ser uma menina bonita, chamava-se Natalina Garaventa. E naquele 12 de dezembro de 1915, aos 19 anos, vivia momentos de desespero no trabalho de parto. Nenhuma das mulheres em volta conseguia fazer a criança vir ao mundo. Até que um médico chega e retira o bebê de 6 quilos a fórceps. O movimento violento rasga o lado esquerdo do rosto da criança, o pescoço e a orelha. Por julgá-lo morto, o obstetra abandona o corpo azulado e ensanguentado na pia da cozinha. As cicatrizes físicas e emocionais jamais desaparecerão. Pelo resto da vida Sinatra aplicará base no rosto e pescoço para disfarçar as marcas que levaram os colegas de escola a chamá-lo de Scarface.   

Numa das poucas vezes em que se permitiu ter uma conversa íntima com uma namorada, verteu com amargura a história trágica de como tinha sido deixado para morrer. “Eles não estavam pensando em mim, só na minha mãe. Meio que me arrancaram para fora e me deixaram de lado.”

Mulher de personalidade “desconfortavelmente semelhante à de Sinatra”, Dolly era espalhafatosa, inteligente, mandona e boca suja. Anthony Martin Sinatra, o pai, boxeador peso-galo e motorista eventual, era um tipo calado e grosseirão. A infância do garoto filho único renderia um tratado de psicanálise. Dolly desejava uma menina e por isso vestiu o bebê de cor-de-rosa. Assim que a criança começou a andar, trocou os frufrus por vestimentas aristocráticas ao estilo Pequeno Lorde. 

Parteira e aborteira, paradoxo aparentemente inexistente para ela, Dolly exercia uma maternidade perversa, entre mimos e maus-tratos. “Ela me deixava apavorado. Eu nunca sabia se odiaria o que eu tinha feito”, confidenciou Sinatra a Shirley MacLaine. Após as surras, a mãe abraçava o menino e estreitava-o contra o peito. Era natural ter aprendido cedo a não confiar em ninguém, conclui Kaplan. Adulto, não suportava o tédio e a solidão e por isso vivia cercado de amigos. O Rat Pack, com Peter Lawford, Sammy Davis Jr. e Dean Martin, na formação mais conhecida, surge com o nome de O Clã, em 1955, com Lauren Bacall, Humphrey Bogart, Irving Lazar e Judy Garland. 

Dotada de vocação política, Dolly comandava diversas ações no bairro, arrumava emprego para amigos e é possível ter dado seu jeito para conseguir lugares para o filho, em início de carreira, cantar. As ligações da família Sinatra com a máfia remontam à época em que o casal abriu um bar e passou a comprar bebida ilegal de lugares-tenentes da organização. 

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Ele era o amigo generoso e ao mesmo tempo o pior dos inimigos. (Bob Coburn/ Columbi/ The Kobal Collection/ AFP)

A relação que o cantor manteve com a Cosa Nostra durou a vida toda. “Os mafiosos gostavam do jeito dele cantar, do desregramento. Ele gostava do poder e da panca dos gângsteres metidos a valentões. Era admiração mútua, não filiação”, explica o escritor. A amizade com chefões mafiosos aproximou Sinatra da Casa Branca. O patriarca do clã Kennedy, Joseph, pediu-lhe o apoio de seus amigos para o filho candidato à Presidência. Sinatra fez a ponte com Sam Giancana, capo em Chicago, gravou jingles e entrou de cabeça na campanha de John F. Kennedy.

Em 1940, com Tommy Dorsey, gravou I’ll Never Smile Again e a tocante Fools Rush In. Sinatra aprimorava a técnica. A Voz amadurecia. Na convivência com o trombonista e líder da orquestra aprendeu um dos segredos fundamentais da profissão. “Eu observava as costas de Tommy, seu paletó, para ver quando ele respiraria.” Ao contrário do mito autocriado, Sinatra jamais teve a disciplina e modo de vida suficientemente saudável para ampliar o fôlego por meio de natação ou corrida. “Em momentos específicos da canção ele abria bem a boca, como se estivesse sorrindo, e puxava o ar”, desvenda o autor.  

O Sinatra que transpira elegância, de dicção perfeita e fraseado impecável atinge o auge com o arranjador Nelson Riddle. O encontro foi tão definitivo quanto o estabelecido com Ava Gardner, a beldade indomável por quem trocou a primeira mulher, a pacata Nancy Barbato. Riddle adentra a cena em momento turbulento. O romance com a vulcânica Ava é uma gangorra de brigas e reatamentos. De todas as mulheres (ainda se casaria com uma adolescente Mia Farrow e, na maturidade, com Barbara Marx), incluídos casos com Kim Novak, Anita Ekberg, Judy Garland, Angie Dickinson e Lana Turner, a única que significou algo foi Ava. Eram parecidos demais. Não conseguiam viver juntos, não aguentavam viver separados. 

Sob efeito da educação sentimental proporcionada por Ava, Sinatra arrancou da alma ferida interpretações devastadoras de clássicos de Cole Porter, como Night and Day, I’ve Got You Under My Skin e Just One of Those Things. Dos primeiros anos aos quase últimos, cantar foi pura magia. “Ninguém tinha a personalidade dentro da voz como aquele garoto”, decretou George B. Evans, criador do epíteto A Voz. Afora talento e aura, Sinatra fazia cada mulher acreditar que cantava só para ela. Então era só ouvir Fly Me To The Moon e rodopiar entre as estrelas.