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Número 880,

Cultura

Brasiliana

Roqueiro de pijama

por Rodrigo Casarin — publicado 07/01/2016 05h21
O vocalista Paulão anuncia a última turnê da Velhas Virgens, a maior banda independente do Brasil
Jonathan Fagundes
Paulo-de-Carvalho

O músico quer pensar na vida, tomar cerveja e curtir a filha de 5 anos

Paulão tá puto com as rádios vendidas que não tocam seu som/ Ele sabe que a culpa é sua, coisa deste seu estranho dom/ De falar do que todos fazem, mas não contam/ De escancarar o que está disfarçado nas novelas/ (…) Paulão é um cara errado e não sabe o que fazer/ Paulão foi pro bar pra beber até morrer.

Paulo de Carvalho é diferente do Paulão apresentado na canção de seu grupo, o Velhas Virgens. Por motivos diferentes do personagem da música, o vocalista que há décadas lidera a maior banda independente do País busca um cantinho, com ou sem um violão. Quer ir ao bar beber e pensar na vida.

Paulão tem 50 anos, mais da metade dedicada à banda que em 2016 completa três décadas de estrada e acaba de lançar uma coletânea com músicas escolhidas pelos fãs. A turnê, que vai durar enquanto tiverem shows agendados, será a última do vocalista.

Paulão vai então dar um tempo, pensar na vida. “Temos um discurso muito adolescente, não sei se quero continuar a fazer isso. Preciso de um tempo artístico para pensar se o que faço não ficou bobo, se não virei cover de mim mesmo.”

Quando fala do discurso adolescente, refere-se principalmente aos maiores sucessos do grupo. São letras como Abre Essas Pernas e De Bar em Bar pela Noite, que tratam principalmente de sexo, festas e bebedeiras. “Há muito sofrimento no mundo, então realmente gosto de fazer com que os fãs se divirtam”, diz Paulão, que vê um lado filosófico em suas composições.

“A maioria acha que falar sério é falar de política ou economia. Mas eu acho que é falar de sexo, de relacionamentos... O Nelson Rodrigues compreendia isso muito bem, sabia mostrar a sociedade na qual todo mundo quer ser bonitinho, mas, na intimidade, tem desejo pela cunhada. Sabia mostrar essa ironia do ser humano e isso é muito mais duradouro que qualquer ideologia.”

Paulo-e-filha
Paulo e sua filha na praia

Além de Nelson Rodrigues, outra grande referência para o artista é o escritor francês Charles Baudelaire, de quem a banda costumava recitar o poema Embriagai-vos nos shows. Ao olhar com atenção para as letras do Velhas Virgens, é possível encontrar outras referências a grandes nomes da literatura, como no título da música Fernando Pessoa Blues ou na balada Não Vale Nada, que termina com a citação de um trecho do poema Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos.

Como todo roqueiro que se preze, Paulão teve uma relação íntima, e conturbada, com o álcool. O vocalista “tomava de tudo” e com frequência subia ao palco completamente embriagado. Os tombos eram tão frequentes que ele passou a usar joelheiras e cotoveleiras em suas performances.

Em algumas ocasiões mal conseguia cantar, a exemplo de uma apresentação em 1996 em Guarulhos, na Grande São Paulo. “Tomei uma geladeira de cerveja antes, caí do palco umas quatro vezes, quebrei o dente, não cantei nada.”

A idade talvez o tenha mudado. Paulão raramente toma outra bebida a não ser cerveja, pela qual nutre enorme devoção, escancarada no título do álbum Todos os Dias a Cerveja Salva Minha Vida.

“É uma cutucada nas religiões. Se em toda esquina tem uma igreja, em toda esquina também tem um bar para nos salvar.” Gosta tanto de cerveja que atualmente a banda tem um rótulo e um bar próprios.

Paulo-Velhas-Virgens
"Temos um discurso muito adolescente", diz Paulão (Newton Medeiros)
Além de ainda tocar com as Velhas Virgens e participar da administração do boteco, Paulão trabalha como chefe de redação no SBT, onde está desde 1991, emprego que lhe garante uma renda importante no período em que os shows rareiam.

Um dos seus sonhos é um dia se apresentar para seus colegas de trabalho. “Queria que lá conhecessem o que eu faço, que o Silvio Santos ouvisse minhas músicas, mas não faço lobby.”

Depois de abandonar a estrada, Paulão quer criar uma mistura de workshop sobre cerveja e pocket show acústico, com músicas que falem sobre a bebida, ao lado do guitarrista Cavalo e do baixista Tuca, parceiros de banda desde os primórdios. Pretende ainda escrever um romance que se passaria no Bexiga, em um universo relacionado ao samba.

O maior desejo do vocalista é, no entanto, estar mais perto de Maria Júlia, sua filha de 5 anos. “Ela é a melhor coisa que já fiz na vida. Quero estar com ela o máximo de tempo que puder. É fantástico”, derrete-se o pai, antes de dar mais um gole na cerveja.

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