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Número 880,

Sociedade

Futebol

O jogo sujo de Del Nero

por Miguel Martins publicado 16/12/2015 05h27, última modificação 16/12/2015 22h38
Na mira do FBI e da Fifa, o cartola manobra para preservar seu poder na CBF
Ricardo Moraes/Reuters
CBF

O dirigente trabalha para o aliado Coronel Nunes assumir a entidade

Na Confederação Brasileira de Futebol, idade avançada é sinônimo de poder. Com a inevitável renúncia de Marco Polo Del Nero, agora alvo formal de uma investigação do FBI, a polícia federal dos EUA, uma manobra ao estilo Eduardo Cunha pode garantir a continuidade de sua influência e a dos antecessores José Maria Marin e Ricardo Teixeira. 

Composta por cinco vices, um para cada região brasileira, a CBF adota o critério etário para a escolha de um novo presidente em caso de renúncia do titular. Assume a braçadeira de capitão o mais velho do time de cartolas. 

Para Del Nero, o critério arcaico deixou de ser um obstáculo e virou uma solução. O mais experiente dos atuais vices é o presidente da Federação Catarinense, Delfim Peixoto, 74 anos, seu opositor e desafeto, mas a prisão de Marin nos Estados Unidos pode ironicamente beneficiar o grupo político responsável por enterrar a credibilidade do futebol brasileiro.

O presidente licenciado da CBF quer empossar no cargo de vice-presidente da Região Sudeste, vago desde a prisão de Marin na Suíça em maio, um dirigente mais velho que Peixoto. Para tanto, conseguiu convencer, na segunda-feira 7, as federações estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais a desistirem de indicar um nome da região.

Série-A
Jogadores de clubes da Série A exigiram a renúncia do atual presidente na última rodada do Brasileirão (Thomas Santos/AGIF/Estadão)

 

Fortemente ligadas a Del Nero, as entidades, com apoio de sete clubes paulistas, aceitaram apoiar a candidatura de Antonio Carlos Nunes Lima, 79 anos, presidente da federação estadual do Pará.

Conhecido como Coronel Nunes, o cartola controla o futebol paraense desde 1982 e está no oitavo mandato. Em suas primeiras declarações à mídia, classificou Del Nero como “uma pessoa correta” e disse considerar Marin “uma lenda no futebol brasileiro”.

Na segunda 7, Peixoto afirmou, por meio de nota, que Del Nero tentava dar um “golpe” na entidade. “No presente momento está em curso mais uma imoral e ilegal operação patrocinada pelo atual presidente da CBF.”

Gustavo Feijó, vice-presidente da entidade no Nordeste, e oito presidentes de federações estaduais da região pediram na quinta-feira 10 a suspensão da eleição do substituto de Marin. “Dado o momento delicado pelo qual passa a confederação, é prudente que todos os atos sejam tomados com a mais absoluta cautela.”

Marcada para esta quarta-feira 16, a eleição do novo vice da CBF foi suspensa pelo juiz Mario Cunha Olinto Filho, da 2ª Vara Cível da Barra da Tijuca, após um pedido de Peixoto. A CBF recorreu, mas o magistrado negou o recurso e estabeleceu uma multa de 100 mil reais caso o pleito seja realizado na data original. Em um novo recurso, a CBF conseguiu cassar a liminar e Nunes foi eleito com 44 votos a favor, três contra, três em branco e cinco abstenções.

Além do obstáculo para emplacar seu aliado, Del Nero teve outra dor de cabeça nesta quarta 16. Ele depôs, enfim, na CPI do Futebol. O deputado federal Marcus Antônio Vicente, do PP, atual presidente interino da Confederação, também seria interrogado pelos parlamentares.

Vicente assumiu o cargo pouco depois de o Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelar que Del Nero e Teixeira foram indiciados pelo FBI por corrupção. A investigação de ambos está longe de ser uma informação nova. 

No documento responsável por embasar a prisão de Marin, divulgado em maio pelas autoridades norte-americanas, constava a informação de que um “coconspirador 12” seria um dos beneficiários de uma propina anual de 2 milhões de reais. A quantia era paga, segundo a investigação, por José Hawilla, dono da Traffic, empresa que detinha os direitos de transmissão da Copa do Brasil.

Embora o nome de Del Nero não tenha sido revelado à época, a combinação entre sua fuga da Suíça durante o Congresso da Fifa em maio e a descrição das autoridades norte-americanas sobre o “coconspirador 12” ser um alto funcionário da CBF e da federação internacional não deixava dúvidas sobre sua participação.

Teixeira é acusado de receber mais de 15 milhões de dólares de Hawilla após a assinatura do contrato que levou a Nike a se tornar a fornecedora de material esportivo da Seleção Brasileira. Seu nome tampouco foi confirmado naquele documento: Teixeira era o “coconspirador 11”.

Com a formalização da investigação sobre Del Nero, os EUA buscam um acordo de cooperação com o Brasil para o presidente licenciado da CBF ser preso ou ao menos interrogado, mas a Justiça nativa tem facilitado sua vida.

Em 13 de outubro, a magistrada Débora Valle de Brito, da 9ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, confirmou uma decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª região e suspendeu o acordo de cooperação bilateral, ao ordenar que os documentos e informações sobre as investigações do FBI fossem devolvidos aos norte-americanos. Por ora, o Ministério Público está impedido de cumprir qualquer solicitação dos Estados Unidos relacionada ao caso.

CBF
Nunes elogia Del Nero e Marín, enquanto Peixoto diz ser vítima de um golpe (Rodolfo Oliveira/Ag Pará e Fábio Motta/Estadão Conteúdo)

Além do FBI, o comitê de ética da Fifa abriu investigações contra Del Nero após o deputado Romário, presidente da CPI do Futebol, enviar em 11 de novembro um dossiê para a entidade. Os documentos remetidos pelo parlamentar incluem detalhes de um barco adquirido em nome do presidente licenciado da CBF e a transferência suspeita de 1,5 milhão de reais para sua namorada.

Na última rodada do Campeonato Brasileiro, realizada no domingo 6, o Bom Senso F.C., movimento de jogadores que pedem a moralização do futebol nacional, organizou um protesto antes do início das partidas. Em defesa da imediata renúncia de Del Nero,  jogadores de 12 times da série A cruzaram os braços em campo.

O Bom Senso defende uma mudança no estatuto da CBF para a realização de novas eleições. O fim da cláusula de barreira, que obriga uma chapa a ter o apoio de ao menos oito federações estaduais, é a principal demanda. Segundo o ex-jogador Alex de Souza, um dos mais ativos do movimento, o Bom Senso pretende lançar um candidato à presidência da entidade no futuro.

Diretor-executivo do movimento, Ricardo Martins acredita que um novo presidente eleito pelo sistema atual “não terá envergadura ética”. “A comunidade do futebol não se sente representada por esse sistema”, afirma. “Por mais que seja lícita a eleição de um novo vice para assumir a CBF, sua escolha nunca será legítima.”

A eleição marcada para 16 de dezembro será a primeira da CBF a ter 67 eleitores: 27 presidentes estaduais de federações e os 40 clubes das séries A e B. Os principais times paulistas aceitaram apoiar a candidatura do Coronel Nunes em troca de mais poder de decisão na entidade, embora Peixoto oferecesse o mesmo.

O presidente da Federação Catarinense defende a criação de uma liga nacional, cuja organização seria assumida pelos times das séries A e B. “Entendo que os grandes clubes de São Paulo não tiveram a coragem para enfrentar o sistema e preferiram conquistar o poder dentro dele. Eles se satisfizeram com muito pouco”, afirma Martins.

Um dos fatores que opõem Peixoto e os clubes paulistas é a realização da Primeira Liga, competição organizada por 15 clubes brasileiros, cuja primeira edição ocorrerá no próximo ano.

O torneio, a ser realizado no primeiro semestre de 2016, conta com a participação dos principais clubes de Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, além de Flamengo e Fluminense, rompidos com a federação do Rio de Janeiro. Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista, e os mandatários de Palmeiras e Santos posicionaram-se contra a criação da liga recentemente.

A CBF não vê com bons olhos a nova competição, que ocorreria simultaneamente à realização dos campeonatos estaduais. Na quinta 10, o Cruzeiro, até então confirmado na Primeira Liga, desistiu de participar do torneio.  

Desastre de público e de renda, os certames regionais são cada vez menos interessantes para os torcedores e os principais clubes do País, mas cumprem um papel político importante para a CBF. Sustentar sua continuidade é garantir o apoio das federações locais ao atual sistema de poder da entidade. 

Mesmo com a oposição da CBF à Primeira Liga, os clubes participantes garantem que a competição ocorrerá com ou sem apoio da entidade e devem priorizar a nova disputa ante os campeonatos estaduais. Embora continue a manobrar, o grupo político de Del Nero, Marin e Teixeira nunca esteve tão desprestigiado. 

*Uma versão desta reportagem foi publicada na edição 880 de CartaCapital

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