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Número 880,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr

Mais uma tragédia anunciada

por Thomaz Wood Jr publicado 17/12/2015 05h29
As causas de catástrofes como a da Samarco não são misteriosas
Antonio Cruz/ Agência Brasil
Mariana

Por trás da tragédia de Rio Doce, existe a catástrofe empresarial

história empresarial está cheia de tragédias. De 1938 a 1968, a Chisso Corporation despejou mercúrio na Baía de Minamata, no Japão. Estima-se que mais de 3 mil pessoas foram afetadas e apresentaram sintomas graves de envenenamento e deformidades. Muitos morreram. Em 1976, um acidente na planta da Union Carbide em Bhopal, na Índia, lançou gases venenosos na atmosfera. O número de mortes é estimado entre 4 mil e 20 mil pessoas.

Em 2010, a explosão em uma plataforma operada pela BP no Golfo do México matou 11 trabalhadores e espalhou óleo por toda a área. Em 2012, em Daca, Bangladesh, o incêndio em um prédio que abrigava uma indústria têxtil matou 112 empregados. Neste ano, na cidade portuária chinesa de Tianjin, explosões relacionadas à estocagem de gases tóxicos em uma área de armazenagem de contêineres mataram mais de cem pessoas e provocaram ferimentos em centenas. 

Agora, a Samarco, mineradora controlada pela brasileira Vale e pela anglo-australiana BHP-Billiton, adiciona o seu nome à infame e crescente lista. No dia 5 de novembro, dois reservatórios da empresa com subprodutos de mineração cederam e liberaram uma lama que destruiu o distrito de Bento Rodrigues e poluiu o Rio Doce, fonte de água de muitos municípios.

A catástrofe macula uma história de quase quatro décadas de sucesso. Em 2013, a empresa participou da premiação do anuário Melhores e Maiores, da revista Exame, e foi eleita mais uma vez a melhor mineradora do Brasil. Na ocasião, o diretor-presidente Ricardo Vescovi explicou as razões do sucesso da empresa: qualidade da gestão, prática de valores empresariais, priorização da vida, cultura de planejamento e nível educacional dos empregados. A empresa voltou a ser premiada em 2014 e 2015, por crescer em situação econômica desfavorável. Pouco antes do acidente, foi escolhida uma das 150 melhores empresas para trabalhar no Brasil, em pesquisa promovida pela revista Você S.A.

Manifestantes-protestam-em-escritorio-de-Samarco
As raízes do problema são fincadas na cultura empresarial inconsequente (ANEL – Assembleia Nacional dos Estudantes Livre)

Tragédias desse tipo costumam ser seguidas por notável circo. O drama humano e ambiental é amplamente explorado pela mídia. Promotores, advogados e especialistas em relações públicas ganham o palco. Técnicos e pseudotécnicos trocam impressões. Rareiam os fatos, sobram interpretações. Enquanto as vítimas são socorridas e os efeitos ambientais são tratados, densa neblina encobre a causa da tragédia. Em algum momento, os peritos darão seu veredicto.

O que, afinal, está por detrás de tais catástrofes? Alguns casos são claro fruto de conduta temerária ou criminosa. Outros se relacionam à chamada incompetência sistêmica, a falta crônica de capacidade para gerir com segurança sistemas organizacionais complexos. Nesses casos, os acidentes são anunciados muito tempo antes de ocorrerem, porque faltam processos, controles e boas práticas.

Organizações mais sofisticadas, de gestão profissional, não estão livres desse tipo de problema. Seus controladores sabem muito bem, entretanto, quanto podem perder com acidentes e são espertos o suficiente para investir em sistemas para proteger seus interesses.

Nessas situações, as causas costumam ser outras. A primeira delas refere-se à gestão de riscos. Toda atividade empresarial ou industrial implica riscos, especialmente aquelas de grande impacto sobre o meio ambiente. É inviável evitar totalmente os riscos ou fazer seguros para tudo. Por outro lado, assumir tresloucadamente riscos pode levar à falência. A solução é administrar os riscos e investir em expertise técnica e gerencial. Ocorre que, no limite, se faltar expertise, o cenário para a catástrofe estará montado.

A segunda causa relaciona-se com a busca do crescimento. Empresas em fase de expansão, com metas ambiciosas, frequentemente avançam o sinal, submetendo alguns elos de sua cadeia produtiva ao estresse, o que pode gerar rupturas. Novamente, o abismo estará a um passo.

A terceira causa relaciona-se à cultura empresarial. Muitas organizações bem-sucedidas, obcecadas com o próprio sucesso e inebriadas com prêmios e honrarias, promovem inadvertidamente atitudes inibidoras da veiculação de más notícias. Tal condição faz com que seus funcionários evitem mostrar suas preocupações e indicar problemas que maculem o estado de euforia realizadora. As consequências do culto do sucesso podem ser nefastas.