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Número 880,

Sociedade

Fraude

A falsificação de vinhos vai parar nos tribunais

por Nirlando Beirão publicado 03/01/2016 00h08, última modificação 03/01/2016 00h21
Um pinot noir do Oregon, disfarçado do exclusivíssimo néctar do diminuto domaine de Monsieur de Villaine, na Borgonha, e outros riscos
Jane Rosenberg / US District Court
Rudy Kurniawan

Retrato de Rudy Kurniawan durante seu julgamento nos EUA. Ele tentou infiltrar falsificações do vinho mais caro do mundo nos EUA

É pirataria, sim, igual à dos vídeos, dos CDs, dos relógios de grife, dos tênis Nike, dos iPads, dos presuntos San Danielle, das bolsas da Hermès e das miraculosas pílulas azuis do Viagra; aqui também a bandeira negra é hasteada por conta da – ao pé da letra – sede de consumo de um contingente de pessoas cada vez maior, cada vez mais curioso e cada vez mais disposto a gastar pequenas fortunas pelo ainda que ilusório prazer de se sentar à mesa dos verdadeiros degustadores. 

A diferença, no caso do vinho, é que o desavisado geralmente não é cúmplice da fraude, é apenas e tão somente vítima dela. É capaz de, trapaceado pelo rótulo, sorver um chardonnay chileno do Valle de Casablanca na vã crença de estar levando à boca um Puligny-Montrachet mis en bouteille au château.

O crime nasce da estatística: o mercado global do vinho cresce de ano para ano e, evidentemente, não há como expandir o terroir – tampouco a produção – dos grand crus classés que fascinam os varejistas, os leiloeiros, os compradores clássicos e os insaciáveis emergentes. O mundo bebeu 31,68 bilhões de garrafas de vinho em 2013; um ano antes, o consumo tinha sido de 30,96 bilhões. Uma firma inglesa de pesquisas, a IWSR, avalia que, em 2018, vá chegar a 32,76 bilhões de garrafas vendidas, ou 2,73 bilhões de caixas. Nos interstícios de tais números, opera hoje o minucioso e lucrativo ofício dos contrafatores.  

Vinhos
As "Jefferson Bottles" de William Koch

Tão ousados são eles que, embora o lucro exploda mesmo é quando se consegue vender um genérico sob o rótulo de um DOC, hoje em dia a fraude não escolhe pedigree. Há mais de uma década noticiou-se a existência de lotes de falsos Bordeaux em Xangai, mas os connaisseurs do Ocidente deram de ombros – era problema lá dos chineses, irrecuperavelmente copistas. De repente, nas prateleiras de negociantes do Reino Unido foram flagradas 80 garrafas adulteradas do Jacob’s Creek shiraz-cabernet da Austrália – vinho tinto que mesmo no Brasil não chega a 70 reais. Tinham sido adquiridas de intermediários chineses. 

Como a patrulha do palato nem sempre é capaz por si só de acionar o alarme da adulteração, tem entrado em ação, de uns anos para cá, um sistema coletivo de vigilância que integra produtores, peritos, críticos e, por último, mas não por menos, a polícia. Foi assim que se conseguiu botar a mão, por exemplo, no mais ousado falsificador da América, um próspero consultor de menos de 40 anos, nascido na Indonésia com ancestrais chineses. 

Rudy Kurniawan chegou à Califórnia em 1993 como estudante. Só no ano 2000 é que, no aniversário do seu pai empresário, Rudy saboreou um gole de Opus One 1995, a obra-prima de Robert Mondavi. Foi como uma epifania. A partir daquele dia saiu pelo mundo vestindo o figurino dos frenéticos colecionadores. Comprava Bordeaux e, de preferência, bourgognes. Virou figurinha carimbada nos leilões. 

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Na mansão de Los Angeles, a cozinha virou destilaria.(Ricardo Dearatanha/ Los Angeles Times)

Assim como comprava, percebeu que vender também era ótimo negócio. Em 2006, apogeu de sua carreira de wine dealer, chegou a faturar 24,7 milhões de dólares num único leilão dirigido por John
Kapon, da Acker Merrill & Condit. Continua a ser o recorde para um único vendedor. Naturalmente, virou xodó das rodadas endinheiradas de degustação, às quais chegava a bordo de sua Bugatti Veyron de 2 milhões de dólares. Outro de seu capricho de colecionador eram obras de arte contemporânea.

A ansiedade exibicionista de Rudy logo iria lhe passar uma rasteira. Entusiasmado pelo sucesso prévio, tentou incluir, em 2008, em leilão da mesma casa Acker, 22 lotes de requintados bourgognes do Domaine Ponsot. O mesmo proprietário, Laurent Ponsot, desconfiou de tanta abundância e denunciou os lotes como falsos. Quando o leiloeiro quis saber de Kurniawan a origem do vinho, ele foi tremendamente evasivo.

Azar maior ainda deu ele porque o FBI já andava investigando suspeita de fraude em vinhos por sugestão, melhor ainda, por pressão de um dos bilionários mais influentes dos Estados Unidos: William Koch, que, com seu irmão David, ambos financiadores das mais trevosas figuras do Partido Republicano, configura uma dobradinha fraterna de deixar no chinelo os sinistros Lehman Brothers. 

Bill Koch arrematara, em 1985, quatro garrafas de um Bordeaux do século XVIII apregoadas como procedentes da adega de Thomas Jefferson, quando embaixador dos Estados Unidos na França, antes de virar presidente da República na América. Eram duas garrafas assinadas Lafitte e duas, Château Mouton. O magnata pagou uma fortuna, mas a desconfiança – e não os Bordeaux provavelmente avinagrados – é que lhe corroeu o fígado. Entrou com um processo contra um negociante alemão, Hardy Rodenstock, e contratou ex-agentes do FBI para uma investigação paralela. A Secretaria de Justiça interessou-se e também passou a apurar.

O mercado passou a ficar arisco e, em 2012, quando Kurniawan tentou infiltrar 78 garrafas do incomparável Domaine de la Romanée-Conti, o vinho mais caro do mundo, num leilão em Londres, nem mesmo sua reconhecida reputação (o apelido dele no clubinho era “Dr. Conti”) barraram a suspeita. As garrafas foram recusadas. 

 Poucos dias depois, em março daquele ano, agentes do FBI vestidos com coletes à prova de bala – a revista Wine Spectator nesta sua edição de novembro narra a ação com detalhes de thriller de Hollywood – bateram à porta de sua típica mansão em Arcadia, subúrbio trendy de Los Angeles. Eram 6 da manhã. 

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Romanée-Conti, mais de 5 mil euros. (Thierry Esch/ Paris Match)

Quando os policiais já se preparavam para arrombar a porta, assomou uma frágil figura em elegante pijama de seda. A cozinha e até um dos banheiros do palacete abrigaram uma destilaria clandestina de fino profissionalismo. Rótulos e uma cera especial para envelhecê-los de forma a parecerem antiquíssimos millésimés. O “Dr. Conti” foi algemado, processado e condenado, numa corte de Nova York, a dez anos de prisão. 

Cumpre pena num presídio federal de Taft, na Califórnia, onde só uma vez por ano pode ter acesso a um daqueles vinhos de sonho que ele tanto apreciava: no Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day). Sua vertiginosa trajetória, do prazer ao crime, será documentada em filme coproduzido na França e na Inglaterra, dirigido por Jerry Rothwell (que acompanhou ativistas do Greenpeace no documentário How to Change the World). A produção já negociou com o fraudador seu porcentual no copyright

*Publicado originalmente na edição 880 de CartaCapital, com o título "Falso ou autêntico?"