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Número 880,

Cultura

Papinho Gourmet

A marvada tá ficando boazinha

por Márcio Alemão publicado 20/12/2015 07h07
– Mas não é meio ladainha de guia de turismo no Recife?
Istockphoto. Ilustração: Milena Branco
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- Tá. Mas já não troco nenhuma boa cachaça por nenhum Poire.

– Você ia falar sobre as cachaças de Paraty.

– Fiquei besta.

– Qualidade?

– E quantidade e mais: conhecimento dos vendedores.

– Mas não é meio ladainha de guia de turismo no Recife?

– Parte acho que sim. Mas tem ali uma conversa que faz sentido e que você entende quando prova.

– Você agora me fez lembrar que esse fenômeno tem rolado também em São Paulo, quando o assunto é álcool.

– Vai falar das cervejas, né?

– Vou falar. Tem esse lado que é bacana, o lado da informação, da curiosidade, mas tem aquele lado chato.

– Inevitável, eu acho. Coisa do ser humano ou trauma de infância. Eu, quando era moleque, odiava chamada oral.

– Explica pro jovem leitor o que era a tal chamada oral.

– A professora sorteava um número e você ia lá na frente, responder às perguntas da mestra. E tinha a modalidade “voluntário”. Vai que você tinha dado uma boa rachada, estava com a matéria na ponta da língua. Erguia a mão e ia lá pra frente, todo pimpão, gabola que só!

– E o trauma a ver com isso?

– Sei lá, até me perdi, mas acho que é meio normal isso: aprendeu um pouco mais que os outros, estudou, decorou? O sujeito levanta a mão e sai falando, ensinando, explicando, aborrecendo quem estiver por perto.

– Sobre a qualidade das cachaças, conta um pouco. Ou você prefere contar por que cada uma virou cada uma?

– Te juro que não me lembro de nenhuma das nobres razões apontadas pelo vendedor/professor. Lembro e repito que é com grande alegria que tenho visto essa bebida evoluir, melhorar, deixar de ser uma rasgada na garganta, um soco no estômago e um gancho no fígado.

– Outra boa descoberta foi a do freezer.

– Sensacional! Uma velha cachaça, de boa qualidade, bem gelada, tem o valor de um cognac.

– Menos, vai.

– Tá. Mas já não troco nenhuma boa cachaça por nenhum Poire.

– Eu também não troco. Eu levo as duas garrafas e mais uma de Aquavit e um Calvados.

– Sério mesmo: olhando o trabalho que tem sido feito com a pinga, o bom tratamento que a velha pinga tem recebido, dá uma vontade louca de estender isso pro feijão, pras farinhas, carnes e laticínios.

– Mas tem de parar com essa história de gourmetizar e colocar o preço lá em cima. 

– Luxo básico para todos. 

– Focar na nossa vocação. Vamos deixar que os franceses cuidem da uva pinot noir e vamos estudar a nossa cana.

– Alguns nomes pra recomendar?

– Santa Isabel, Da Quinta, Paratiana e uma versão branquinha tridestilada da Germana. Todas com muito sabor, com uma presença elegante na boca e com um final feliz. Mas, se o assunto for custo-benefício, caso isso signifique alguma coisa no tema “beber pinga”, eu fico com a boazinha.