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Número 879,

Cultura

Biografia

Dom Pedro I, ruim de mídia

Revisão histórica indica que a bancada do atraso sempre foi bem ativa
por Nirlando Beirão publicado 18/01/2016 05h34
Independência ou morte

País nascido de um desarranjo intestinal. Será este o nosso destino caricato? (Museu Paulista da USP)

A caricatura diz: mulherengo, violento, impulsivo, irresponsável (por melhor amigo tinha um fidalguete de sintomático nome: Chalaça), criado ao pé de uma avó louca e a distância por uma progenitora beata e viperina que iria odiar o próprio filho até a morte; português no Brasil, brasileiro em Portugal, aventureiro sem bandeira, que rompeu os vínculos da pátria-mãe com a colônia tropical num gesto impulsivo e gratuito, quando padecia de uma nada glamourosa diarreia às margens do riacho do Ipiranga, o que talvez tenha o dom de explicar para as gerações de hoje por que a nação então proclamada, o Brasil, ainda apresente tantos momentos que lembrem um desarranjo intestinal.

A verdade histórica corrige: ele era uma força da natureza, bom pianista e inspirado compositor, um sujeito de convicções e ideias, ainda que suficientemente astucioso para pressentir as armadilhas do poder, liberal por  inteiro, inimigo da escravidão, que ele combateu por escrito quando no Brasil (a já musculosa bancada ruralista impediu que o desejo do imperador chegasse à Constituição outorgada de 1824) e que ele proscreveu de fato ao assumir o governo de Portugal no exílio, em 1832; um forasteiro que amou o Brasil mesmo a distância e um português que decidiu voltar à terra de origem ao doloroso custo de enfrentar pelas armas, em trágico desenlace freudiano, o seu irmão déspota e usurpador do trono para empossar a filha, Maria da Glória, de apenas 15 anos.

As reviravoltas que a historiografia dá, acentuada por uma nova biografia assinada por Paulo Rezzutti, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, indicam duas aterrorizantes certezas a respeito de dom Pedro I (D.Pedro: A história não contada. Paulo Rezzutti, Editora Leya, 464 páginas, 59,90 reais.) . 

Primeiro, que a incipiente elite nativa, atrasada, reacionária, arraigada aos preconceitos, que só queria saber dos privilégios de casta e dinheiro, e que, por isso mesmo, acabou levando dom Pedro à abdicação, em 7 de abril de 1831, lembra muito o que se assiste hoje nas reuniões da Fiesp, para não falar dos simpósios do Instituto Millenium

Segundo, dom Pedro I, mesmo que ele próprio fosse um infatigável comunicador (assinava manifestos com pseudônimos, tais como Duende, Piolho Viajante, O Espreita ou Derrete-Chumbo-a-Cacete), tinha mídia ruim e, portanto, padeceu dos mal-entendimentos e da má-fé da chamada opinião pública, perseguido que foi pela imprensa de panfletos e pelos jornais conservadores, adeptos da restauração absolutista pós-Congresso de Viena, os quais, aliás, predecessores dos veículos oligárquicos de hoje, não entendiam que o mundo tinha mudado – e, quando entendiam, brigavam ferozmente contra as mudanças. 

Um cenário de turbulência sacudia o Brasil dos Bragança refugiados – e os vizinhos que desafiavam a Coroa espanhola. A volta de dom João VI a Portugal acirrou, na colônia, os rancores entre portugueses imigrados e brasileiros natos. Restauradores e renovadores se engalfinhavam na Europa, após o Congresso de Viena de 1815. A briga chegou aqui. Assim como o pai, dom Pedro I teve de se resignar ao aprendizado da negociação, cercando-se de oligarcas pretensamente esclarecidos, tais como aqueles da família Mesquita, perdão, Andrada, procedente de São Paulo (José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos), a fina flor de um coronelismo travestido em fatiota moderninha que iria desaguar no PSDB.

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A crítica moralista ao imperador garanhão ocultava o ódio político ao governante liberal. (Museu Imperial)

Santo não foi, o filho dileto de dom João VI (outro que anda merecendo reabilitação das intrigas que fizeram dele um oportunista sinuoso, uma espécie de PMDB avant la lettre). Personalidade para lá de complexa e irrequieta, esse dom Pedro I, mas é curioso observar, num inacreditável contraponto com aquele monocórdico filho que deixou como imperador do Brasil aos 5 anos de idade, como ele veio a perder a batalha da respeitabilidade e do apreço público. Comparado com a figuraça que foi o pai, o segundo dos imperadores de nome Pedro era um boboca. Nunca entendeu o Brasil. Além daquelas barbas que foram embranquecendo, criando a moldura de governante paternal e bonzinho, e além da fama bem industrializada de amante das inovações, dom Pedro II conseguiu a cumplicidade da elite tosca mercê da circunstância de não lhes ameaçar as benesses. Na pior das hipóteses, um e outro cartunista ironizava sua balofa alienação.

Dom Pedro I, ao contrário, foi perseguido pelos porta-vozes do status quo e, onde quer que fosse, não apenas no Brasil e em Portugal, não merecia trégua. Travestida em crítica moralista, era no fundo, no fundo, uma perseguição político-ideológica. Não havia internet ou redes sociais, mas o ódio já fermentava em libelos anônimos, até mesmo em peças de vaudeville. Não é de hoje que o Brasil é esse rancor todo. Bem que o próprio dom Pedro facilitou as coisas para as candinhas adversárias. A incontrolável testosterona de garanhão transbordou, é verdade, na escandalosa relação com a concubina paulista Domitila de Castro Canto e Mello, a idolatrada Titília, a quem o primeiro imperador culminou de cartas melosas (assinadas como “Demonão” e “Fogo Foguinho”), poemas obscenos e uma incomum honraria nobiliárquica: nomeou-a viscondessa e, depois, marquesa de Santos. 

Com status de amante oficial, Domitila mudou-se para a Corte, família a reboque (igualmente aquinhoada com vistosos privilégios). Porém, o que atormentou a hipocrisia dos carolas – naquela sociedade na qual, da cavalariça ao trono, dos cortiços aos salons, os homens tratavam as mulheres como um submisso adereço de seu patrimônio – foi o detalhe meio sórdido de o imperador ter feito de sua amante a camareira da imperatriz Lepoldina – de forma a ter sempre por perto, até mesmo em longas viagens, como a que fez à Bahia em 1826, o confortável ménage à trois. À grosseria do marido-garanhão, Leopoldina, née Caroline Josephine Leopoldine von Habsburg-Kothringen, respondia, em público, com aquela superioridade altiva de quem se educou como arquiduquesa e filha de imperador (Francisco I da Áustria), mas, na intimidade, ela sofria (as cartas à irmã desabafavam a humilhação). De mais a mais, a imperatriz amava o marido – e era, ao modo dele, amada pelo marido.  

Leopoldina morreu aos 29 anos, na capital tropical infestada por pestilências e naquele palácio da Quinta da Boa Vista que parecia um cortiço se comparado ao Schönbrunn de Viena, onde ela pela primeira vez viu a luz. Se é que Domitila ainda sonhava em obter ainda mais legitimidade do que aquela que já tinha, ao lado do imperador, a morte da, digamos, rival teve efeito contrário. Premido pela urgência de se casar novamente, no quadro das alianças geopolíticas necessárias ao então regente do reino de Portugal e imperador do Brasil, dom Pedro enviou emissários aos plantéis dinásticos da Europa, mas, antes deles, já haviam chegado as intrigas propagadas pelos diplomatas em função no Rio, dando conta das estripulias extraconjugais do proponente. Foi tal a dificuldade que dom Pedro, para aplacar as futricas, despachou Domitila e prole de volta para São Paulo. Só quem ficou na Corte foi Isabel Maria, filha do imperador com Domitila, a qual, num de seus arrebatamentos típicos, dom Pedro reconheceu como legítima e elevou, ainda criança, à condição de duquesa de Goiás. 

Quase dois anos se passaram até que o marquês de Barbacena conseguisse, enfim, assinar, em Munique, representando o imperador, o tratado de casamento com Amélia de Leuchtenberg, princesa da Baviera e neta de Josephine de Beauharnais, segunda mulher de Napoleão Bonaparte. O “príncipe afogueado” – nas palavras de um de seus inclementes biógrafos, Otávio Tarquínio de Souza – recomendara que, entre três outros atributos apreciáveis (ter berço, ser culta e virtuosa), a candidata apresentasse como requisito sine qua non a beleza. “Ela é bela e esse é o seu menor predicado”, entusiasmou-se o enviado. Dom Pedro aprovou a escolha e se aquietou no novo leito conjugal. Acabaria cabendo a Amélia a dura tarefa de acompanhá-lo de volta a Portugal e na espinhosa missão de arejar o trono português – surrupiado pelo irmão Miguel com apoio dos absolutistas espanhóis e dos saudosos da Santa Aliança – com os ares do liberalismo constitucional. 

O agora duque de Bragança, que havia renunciado ao trono brasileiro, encontrou em Luís Felipe d’Orléans, o rei de uma França enfim liberal, um frère d’intelligence e um parceiro de ideias esclarecidas, tanto que Sua Majestade tratou de alojar dom Pedro e família no suntuoso castelo de Meudon, vizinho a Versalhes. A esfuziante Paris parece ter despertado o mundano adormecido em dom Pedro e logo ele se mudaria para um casarão na cidade, a fim de ter à mão o camarote real da Opéra Comique. Lá conheceu o compositor Gioachino Rossini, que lhe presenteou com partituras autografadas do Barbeiro de Sevilla e, por gentileza protocolar ou por respeito verdadeiro, acabaria por reger uma abertura musical de autoria do brasileiro.  

A imprensa que tanto atormentara dom Pedro no Rio faria o mesmo em Paris. Os jornais que se opunham impiedosamente ao governo de Luís Felipe – num espectro que ia dos restauradores bourbônicos aos republicanos radicais – logo passaram a atacar o protegido dele. Apelidaram-no de Don Perdu (Dom Perdido). Alegavam que a música do ex-imperador fora um dos principais motivos de o povo brasileiro exigir sua abdicação.  E que, para conquistar Portugal, bastava a dom Pedro tocar a sua música, que faria os soldados do irmão Miguel saírem correndo.

Com o apoio mascarado dos ingleses e sem precisar entoar melodia alguma, o duque de Bragança desembarcou com suas tropas no Porto, em 9 de julho de 1932, tomou Lisboa um ano depois e assinou, em 26 de maio, a Convenção de Évora-Monte, que pôs fim à guerra fratricida e selou a vitória dos liberais. Nem teve tempo para festejar. Em setembro, o libertador de dois mundos falecia em Queluz, o palácio onde nascera 35 anos antes. 

A batalha da posteridade continuaria a importuná-lo após a morte, agora com a determinante ajuda dos ideólogos do republicanismo à brasileira. Só para se ter uma ideia, quando os restos mortais de dom Pedro I e dona Leopoldina foram exumados do sarcófago no Museu do Ipiranga, em São Paulo, em 2012, os legistas decidiram checar se estava tudo bem com a ossada da imperatriz. Na crônica peçonhenta dos maledicentes do passado, sussurrava-se que, num dia de destempero, o imperador arremessara a consorte escada abaixo. A tardia autópsia inocentou, porém, o sempre visado vilão. 

*Publicado originalmente na edição 879 de CartaCapital, com o título "Ruim de mídia"