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Número 879,

Cultura

Mercado editorial

CosacNaify: meu mundo caiu

por Rosane Pavam publicado 04/12/2015 17h48, última modificação 05/12/2015 09h31
Charles Cosac fecha a editora, desinteressado de seu atual perfil
Olga Vlahou
Cosac

Cosac, inconformado por ficar à mercê de títulos de domínio público

Mil e seiscentos títulos, 70 milhões de reais em dívidas. Charles Cosac anunciou no dia 1º, ao jornal O Estado de S. Paulo, o fechamento de sua conceituada Cosacnaify.

“Eu vejo a editora se descaracterizando, se afastando daquilo que fez dela tão querida, e prefiro encerrar as atividades a buscar uma solução que possa comprometer seu passado”, justificou naquela entrevista, dizendo-se inconformado em estar à mercê da edição de títulos de domínio público, ademais pouco adquiridos pelos leitores, quando sua real vocação seria a de compor edições ligadas às artes plásticas, à moda e a alguma literatura, com refinado design.

Aos 51 anos, pertencente a rica família de mineradores, os hábitos tidos por excêntricos, das túnicas às paredes vermelhas de seu apartamento no bairro paulistano Higienópolis, Cosac não comunicou aos funcionários, antes de conceder a entrevista, a decisão de encerrar as atividades.

Aqueles que lhe enviassem e-mails na madrugada do dia 1º leriam como resposta automática a letra integral de Meu Mundo Caiu, de Maysa, cantora e compositora que o editor venera (a resposta automática foi apagada pela manhã). Ele não menciona falência na entrevista, antes se diz empenhado em honrar as dívidas com os funcionários e os compromissos com os autores.

O último livro da Cosacnaify será, conforme anunciou, mais um volume sobre a obra de Tunga, cujo título Barroco de Lírios, em 1997, inaugurou a editora. O artista, vítima de câncer, tem sido objeto de seus cuidados, assim como a mãe, incentivadora maior, portadora de Alzheimer.

Estudante de arte em São Petersburgo, tendo abandonado um curso de desenho por se julgar sem o talento necessário, é também colecionador. Mas, no processo de salvar a editora, teria vendido algumas obras que lhe eram caras afetivamente, de nomes conceituados como Farnese de Andrade.

Os amigos creem que, por meio da edição, Cosac exerça a sensibilidade artística. Mas ela não poderia ser aplicada a certos títulos acadêmicos que o antigo diretor Augusto Massi vinculara à imagem da Cosacnaify (e após sua saída, há quatro anos, o proprietário renegociou alguns contratos). Especula-se que volte a editar, desta vez apenas os títulos de sua preferência.