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Número 879,

Cultura

Exposição

A alma terrível das ruas

por Rosane Pavam publicado 11/12/2015 05h37
Centro Cultural Correios traz 120 obras sobre o Rio de Janeiro de Debret
Debret

Debret surge à janela na primeira representação de personagens, em 1816

Avistar o Rio de Janeiro a partir do convés, as ondas regulares a embaralhar o mar, e a detalhada, suave cadeia de montanhas ao fundo, significava iluminar-se de beleza naquele 1816. O pintor francês Jean-Baptiste Debret esboçava esse vislumbre em papéis de rascunho, enquanto sua embarcação circundava a Baía de Guanabara. O artista vinha a trabalho, mas também em fuga íntima, ansioso por se distanciar da trágica morte de seu único filho e do desmantelamento do império napoleônico, para o qual atuara posicionado no mais alto degrau da hierarquia da arte. Pintor de eventos históricos, ele aceitara fazer idêntico serviço para a corte local, mas, principalmente, dentro da Missão Artística Francesa, comprometera-se a atuar pela Academia Imperial de Belas Artes, cuja fundação ocorreria muito tempo depois do combinado, em 1826. 

Debret mal sabia do Brasil. Na chegada, impressionara-se com a casa de estilo colonial que lhe coubera habitar no Catumbi e decidira representá-la em uma primeira cena urbana. Mais que isso, na pequena aquarela, desenhava a si próprio, paleta e pincéis no parapeito da janela, a observar dois escravos e um guarda à porta. Nada mais distante de seu ofício de pintor dos eventos oficiais do que essa descrição da alma das ruas. Os desenhos e as aquarelas, às vezes monocromáticos, às vezes coloridos, feitos na frente e no verso dos caros papéis de serviço, reproduziam em pormenores o que ele via. Uma montanha de aquarelas em um tamanho quase padrão, 16 centímetros por 22, parecia não dar conta do paradoxo diante do artista. O Brasil era urgente, inacreditável. Debret queria ser visto como um historiador de sua estranha beleza e de seu horror social, dos quais os europeus tinham parca notícia. 

Tudo assenta, pois, neste país, no escravo negro”, escreveu em um dos três volumes de sua Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, editados na França em 1846, apenas cinco anos depois de ter deixado o País no qual permaneceria por inacreditáveis 15. Ele julgava as palavras tão essenciais quanto os desenhos e procurava ser direto: “Na roça, o escravo rega com seu suor as plantações do agricultor. Na cidade, o comerciante fá-lo carregar pesados fardos. Se pertence ao capitalista é como operário ou na qualidade de moço de recados que aumenta a renda do senhor. Mas, sempre mediocremente alimentado e maltratado, contrai às vezes os vícios de nossos domésticos, expondo-se a castigos públicos, revoltantes para um europeu”.

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1829: o vendedor de flores e os escravos alinhados

Malgrado a terrível realidade, Debret a descrevia por meio da arte com as tintas da delicadeza, como se pode observar em O Rio de Debret, exposição no Centro Cultural Correios de São Paulo, que exibirá, até 25 de janeiro, 120 obras do artista pertencentes à coleção Castro Maya. Algumas delas não foram produzidas diretamente pelas mãos do artista, antes construídas a partir de seus desenhos, transformados em gravuras por litógrafos impressores da época. Por quase um século, essas obras permaneceram longe dos olhos brasileiros, mas, depois da Semana de Arte Moderna e das discussões sobre a nacionalidade, pareceu urgente que regressassem ao País. Em 1940, o colecionador Raymundo Ottoni de Castro Maya adquiriu 500 originais na França e os repatriou, além de editar um inédito, o quarto volume da Viagem Pitoresca, a partir das gravuras que o artista deixara de publicar.

As representações de Debret contidas nos originais são realistas e complexas. Almejam por descrição de arquiteturas, comportamentos e usos em vários planos da representação, como observa a historiadora Anna Paola Baptista, curadora da exposição e do acervo do artista no Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro: “O sistema que ele usa para essas representações guarda semelhanças com aquele da pintura histórica, mas tem suas particularidades”, diz. “Debret sai à rua com um caderno de rascunho e faz esboços rápidos. Observa muito, mas a cena que vemos, embora nos pareça plausível, não ocorreu necessariamente daquele modo em tempo
real. Ele pode, primeiramente, ter esboçado aquele grupo de vendedores de bolinhos e, em outro dia, a vendedora de angu. Mas, na hora de fazer a aquarela com esses personagens, eventualmente combina as cenas, como se tivessem ocorrido de maneira simultânea.” 

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"Eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser tomado por contínuo. É triste não ser branco."

A historiadora não acredita que o artista visse essas representações como as mais importantes em sua trajetória. “Debret foi criado em ambiente artístico com organização muito rígida e entendia como seu apogeu a pintura histórica”, argumenta. “Ocorre que, passado o tempo dele, nós o valorizamos pelo que produziu longe da corte.” A exposição que ela organiza é dividida em seis núcleos temáticos, em torno das paisagens iniciais, dos marcos arquitetônicos e da pintura histórica. Em Repórter do Cotidiano estão as aquarelas nas quais a escravidão é desvelada em pormenores.

Vendedor de Flores e de Fatias de Coco (1829), por exemplo, ocupa-se em detalhar a hierarquia social a que se submetiam os escravos, divididos segundo uma atribuída importância. Um deles, descalço, mas bem-vestido, está autorizado a vender flores à ama. Mas não é ela quem paga pelo serviço, antes sua primeira escrava, com sapatos e adornos. Alinhados atrás encontram-se os serviçais de menor importância, descalços. E, ao fundo, a cidade descortina-se com personagens protegidos por capuzes, um deles a esmolar sob o sol. Para Debret, o Rio era notável pelo calor, assim como pela tortura dos negros e a quase ausência de mulheres brancas na rua, normalmente figuradas por seus braços que atravessam as janelas, em busca de adquirir produtos dos ambulantes.

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A aclamação de D.João VI, da monocromática aquarela à água-forte colorida por litógrafo, em 1818

Na aquarela Castigo de Escravo Que se Executa nas Praças Públicas (1826), o detalhismo impressiona. Amarrado ao tronco, o supliciado estica os pés em razão de uma contração muscular que eleva sua altura. E em Loja de Rapé (1823), os “tigres”, assim denominados porque sua pele, a evocar aquela do animal, vivia manchada pelos dejetos humanos por eles transportados, compram tabaco enquanto o vigia branco paquera uma escrava, em uma situação aparentada à normalidade da vida europeia. Mestre irônico, Debret não perdoa os brasileiros pela arrogância e desumanidade, embora jamais tenha escrito uma linha contrária à escravidão aqui instituída. E por força de sua arte contundente talvez nem mesmo precisasse.