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Número 878,

Cultura

Fotografia

Sonhar a África

por Rosane Pavam publicado 06/12/2015 00h21
Daniela Moreau pesquisa a fotografia pioneira de Fortier
Edmond Fortier
Caçadores de elefantes

Caçadores de elefantes

Edmond Fortier(1862-1928) (Edmond Fortier - Viagem a Timbuktu, até 25 de janeiro de 2016. Instituto Tomie Ohtake, São Paulo) vislumbrava um país. Sua cidadania francesa lhe fora negada nos anos que se seguiram à tomada da Alsácia-Lorena pelos alemães, em 1871, e naquele fim de século a África do Oeste transformara-se no porto ideal. Em Dacar, no Senegal, obteria sustento para a família, a mulher e duas filhas como fotógrafo, uma profissão difícil de ser exercida sem pesados equipamentos. De mala cheia, contudo, em 1906, percorreu 5 mil quilômetros pelo interior e chegou a Timbuktu, naquele que é o Mali atual, disposto a revelar a cidade histórica quase intocada pelo europeu. Suas centenas de fotos pioneiras resultaram em postais, os cartões ilustrados nos quais os viajantes se comunicaram até pelo menos duas décadas atrás.

Mulheres do Sudão
Mullheres do Sudão, um continente pleno de vida. (Edmond Fortier)

A historiadora brasileira Daniela Moreau (Edmond Fortier - Viagem a Timbuktu. Daniela Moreau. Literart, 470 págs., R$235,00), especializada em assuntos africanos, maravilhou-se com sua trajetória. À maneira do fotógrafo, ela conhecia processos industriais têxteis, e no continente havia procurado informar-se sobre a histórica produção artesanal. Fortier era um artesão no sentido pleno, ademais investigativo. Auxiliado por um tradutor, mostrava caçadores de elefantes, crianças ou mulheres seminuas em composições que algo evocavam a pintura impressionista. Ainda que a certa altura tenha retratado de modo pornográfico as africanas, o artista revelara um cotidiano sem pose, à moda do que faria anos depois a fotografia de rua munida de câmeras ágeis. 

Daniela Moreau correu atrás dos negativos de Fortier, mas ainda não os encontrou. E seu trabalho, orientado pelo historiador Paulo Fernando de Moraes Farias, prossegue. Duas centenas daquelas imagens impressas estão presentes no exuberante livro Viagem a Timbuktu e na mostra homônima no Instituto Tomie Ohtake.

Além dos postais originais, a exposição exibe em suspensão 60 reproduções realizadas por Jorge Bastos no sofisticado papel fotográfico de algodão. “Fiz um trabalho de detetive”, diz Moreau. “E procurei realizar um duplo resgate, o de um artista injustiçado e o da história africana do período. São imagens de sonho, em torno de um continente então pleno de vitalidade e potência.”