Você está aqui: Página Inicial / Revista / Lava Jato a toda / Diagnóstico equivocado
Número 878,

Economia

Análise

Diagnóstico equivocado

por Delfim Netto publicado 02/12/2015 04h52
É preciso acordar o “espírito animal” dos empresários para retomar a produção e os investimentos
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Joaquim-Levy

Joaquim Levy confirma o diagnóstico de queda de investimento. Mas é preciso prudência na remediação

Infelizmente para os economistas, o homem é um animal muito mais complicado do que costumava ser: suas reações aos estímulos externos combinam em grau insuspeitado a “razão” e a “emoção”. Isso tornou mais difícil a vida da “ciência econômica”, mas não diminuiu a validade dos ensinamentos, históricos e teóricos, da modesta disciplina a que se dá o nome de economia.

Por que essa advertência? Porque voltam a ganhar força como alternativa receitas formuladas pelo “pensamento mágico”. Este recusa, com um ato de vontade, as restrições institucionais e físicas que determinam o instante que se vive e atribui a indivíduos privilegiados a possibilidade de recorrerem a forças sobrenaturais que lhes dão a capacidade de alterar o mundo. Trata-se do fato descrito por Freud: a onipotência da criança quando ainda não encontrou os claros limites da realidade.

Dentro das restrições institucionais e físicas em que nos encontramos devia ser claro que a atual receita do pensamento mágico, de facilitar o crédito para estimular o setor privado e ampliar a dívida pública federal para estimular os seus gastos, tem todos os ingredientes para produzir um alívio instantâneo e terminar em catástrofe...

Quando a evolução do salário e do emprego faz crescer o poder de compra real do trabalhador e há algum espaço no seu orçamento, a ampliação do crédito antecipa o “gozo” dos serviços dos bens desejados. É a perspectiva da manutenção, ou do aumento, do poder de compra do salário e a folga no orçamento, que dão ao financiador a garantia “colateral”, além da eventual recuperação do próprio bem, da venda a crédito da geladeira (que ele não tinha como pagar à vista), mas que antecipará, por dez meses, a satisfação do consumo da sua cervejinha gelada... O crédito ao trabalhador não lhe aumenta o poder de compra: apenas antecipa a fruição de um desejo que ele paga (e bem!) com o juro na prestação!

E o que dizer da segunda sugestão: estimular os gastos do governo federal com o aumento da dívida pública no momento em que o desequilíbrio fiscal da União é endógeno e ameaça a solidez de todo o sistema econômico? A relação dívida bruta-PIB, que era de 53% em 2013, provavelmente vai chegar no fim de 2015 a 68%. Ameaça atingir 73% em dezembro de 2016. Não vai se estabilizar sem as mudanças constitucionais que nos recusamos a enfrentar.

Protesto
A desconfiança diante dos problemas sindicais impede que se crie expectativa de mudança (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

É evidente o efeito da taxa de juro real elevada sobre esses números, mas o que se tem dito sobre o nível de gastos de juros com relação ao PIB está praguejado de velhos equívocos. Redescobrimos o que a “contabilidade criativa” punha em evidência nos tempos da alta inflação do início dos anos 80 do século passado quando se separava o déficit “nominal” do déficit “operacional”. O fato objetivo é que o custo da dívida pública (a correção do estoque pela inflação somada ao aumento da alta taxa de juro real) não é um problema aritmético. É um problema fiscal gravíssimo.

A única forma de recuperar o crescimento é “criar a expectativa de crescimento”. É preciso acordar o “espírito animal” dos empresários que os leva a retomar a produção e os investimentos porque vêm neles a oportunidade de lucro. Lembremos como funciona o sistema econômico no mundo onde vivemos: o gasto de um é a receita do outro, que será seu gasto e receita de um terceiro, e assim por diante... Quando existem fatores de produção disponíveis, um empresário com ideia inovadora que espera explorar para obter algum lucro pode mobilizá-los com a ajuda do sistema financeiro.

O rendimento dos seus trabalhadores depende do seu dispêndio, que é produto da sua crença de que fará algum lucro. Se desapareceu a confiança entre o governo e o setor privado; se as incertezas afastam os investimentos; se a queda do emprego e do salário assustam os trabalhadores; se a desconfiança entre os agentes impede a livre realimentação das rendas, então de nada adiantarão a expansão do crédito ou aumento da dívida.  

registrado em: , , ,