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Número 878,

Internacional

França

A coragem de vencer o medo

por Gianni Carta publicado 27/11/2015 19h44, última modificação 29/11/2015 01h28
Há quem queira sair às ruas ignorando o terror, mas a maioria se confessa apavorada
Loic Venance/AFP
Paris

A consigna do herói grego, difícil de cumprir

A França está em guerra contra o EI. O estado de emergência vai durar mais três meses. A Bélgica, onde viviam alguns dos terroristas que mataram 130 pessoas e deixaram centenas de feridos em Paris na sexta-feira 13, continua em estado de alerta máximo. Nível 4. Exército e blindados nas ruas.

Durante a semana, cinemas, museus, cafés e restaurantes não abriram as portas. Lá ainda se esconde um dos terroristas a ter atuado em Paris, o franco-belga Salah Abdelslam, 26 anos. Abdelslam integra uma rede de cúmplices e terroristas saídos do distrito de Molenbeek, em Bruxelas.

Nesta semana, David Cameron e Angela Merkel estiveram com François Hollande na Place de la République, centro de Paris, onde as pessoas, em luto, depositam flores em homenagem aos mortos na carnificina de sexta 13.

Na mesma praça, está marcada uma manifestação para domingo 29, às 14 horas, contra o estado de emergência: os franceses não querem abandonar as ruas aos policiais e ao Exército.

O governo reage com mão pesada: o premier Manuel Valls proibiu o evento, sob o pretexto de possíveis atentados contra os manifestantes. Valls fez mais: quem participar do protesto poderá pegar seis meses de cadeia.

A despeito da disposição de sair às ruas, o francês está com medo. A própria Place de la République, onde as pessoas se reúnem com cartazes para desafiar os terroristas, testemunhou um momento flagrante em pelo menos uma ocasião.

Alertados sobre um atentado na praça, ela ficou vazia em segundos. E o fato de Valls ter anunciado a possibilidade de ataques químicos e biológicos, não melhora o quadro.

Na semana passada, CartaCapital entrevistou várias pessoas em Paris, a maioria delas tomada pelo medo. Juliette, arquiteta de 29 anos, recebeu um telefonema dos pais quando estava no curso de teatro.

Queriam saber se ela estava bem, visto que frequenta o bar Le Carillon e o restaurante Le Petit Cambodge, ambos no bairro dela. Disse Juliette: “Há uma dinâmica, incluindo no Facebook, como o movimento Todos no Bistrô, para encorajar as pessoas a sair, tomar cerveja, divertir-se, escutar música”.

Juliette emenda: “Mas a longo prazo acho que isso vai ser complicado, essa vontade de sair a qualquer preço é uma reação imediata aos eventos, não passa de uma defesa”. Contudo, “o medo está presente, com as lembranças da tragédia”.

Caroline, artista gráfica de 25 anos, também preferiu não dar seu sobrenome para não ser encontrada na internet. Ela disse “admirar a coragem das amigas e amigos de volta aos bares e restaurantes logo após os atentados, mas eu preferi ficar em casa.Agora me sinto um pouco melhor, mas qualquer ruído me assusta, até um escapamento de automóvel”.

Hollande
Hollande deixou de ser o presidente mais impopular da V República (Carlos Barrial/Reuters)

Diz ainda: “Até que ponto podemos ficar vigilantes: tomar um café ou tomar um ônibus representam riscos”. Conclui: “Ainda teremos de aprender a conviver com o terrorismo”.

O sentimento de medo se expande Ocidente afora. No entanto, no mundo árabe em geral, o medo aflorou antes e o sentimento persiste. No dia anterior aos atentados em Paris na sexta 13, 60 pessoas foram vítimas de ataques perpetrados pelo EI em Beirute.

Atentados como o de Paris ocorrem todos os dias no Afeganistão e no Iraque, sem contar a Turquia, onde, neste mês de novembro, cem pessoas foram chacinadas em Ancara. Esse ataque do EI repercutiu pouco na mídia ocidental. De resto, é o medo de quem foge de guerras civis, como os refugiados sírios.

Na corrida presidencial americana rumo a 2016, o assunto mais importante do que a economia contempla a possibilidade de atentados no país, e, por tabela, a presença dos refugiados muçulmanos. Os deputados republicanos exploram esse medo.

E, como diz Barack Obama, “prestam um favor aos terroristas”. Vem à mente que George W. Bush derrotou o candidato democrata John Kerry porque soube instilar medo nos eleitores. Segundo as pesquisas, 80% dos americanos temem novos ataques como aquele de 11 de setembro de 2001.

Obama é criticado pelos republicanos por não fazer o bastante contra o Estado Islâmico. E por acolher refugiados sírios. “Eles merecem ter segurança, ser alimentados e receber uma educação. Os sírios têm filhos como os nossos”, disse Obama. Segundo o senador Marco Rubio, candidato republicano à Presidência, “estamos diante de um choque de civilizações”.

Rubio simplesmente parafraseia o título do best seller do economista ultraconservador Samuel Huntington. O discurso de Donald Trump, outro candidato republicano, diz que muçulmanos de New Jersey celebram os ataques de 11 de setembro na internet e na televisão.  

Cameron e Merkel ofereceram ajuda a Hollande, enquanto o presidente francês encontra Vladimir Putin. De todo modo, a legenda de extrema-direita Frente Nacional, de Marine Le Pen, sobe nas pesquisas para as regionais de dezembro.

Vitórias de Le Pen logo mais, e quem sabe no pleito presidencial de 2017, dividiriam a França. Por ora, em todo caso, Hollande deixou de ser o presidente mais impopular da V República. Fez discursos emocionados. Calou a direita ao agir como um presidente de direita.

Por exemplo, prometeu tirar o passaporte de qualquer cidadão francês simpatizante dos terroristas. A França, diga-se, é o único país a ter recorrido ao estado de emergência e declarar guerra. Até parece que Hollande pretende o papel de xerife do mundo.