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Número 877,

Política

Editorial

Tempo de terror

por Mino Carta publicado 19/11/2015 09h04, última modificação 19/11/2015 09h05
Divagações em torno do momento atroz que o mundo vive, não somente por causa dos ataques do Estado Islâmico
Saladino

Saladino era muito mais sábio do que os reis europeus que o agrediam no século XII em nome de Deus

Os meus botões ainda não decidiram se são Paris ou Mariana. Procuro argumentar: dimensões diferentes, é o Ocidente em peso que o terror ameaça. Há um momento de silêncio, logo retomam a iniciativa, a contrariar os hábitos. Perguntam, em tom entre intrigado e irônico: mas quem será que vende as armas ao Estado Islâmico e seus terroristas?

O pessoal da barbárie parece estar muito bem equipado, trata-se de instrumentos de morte sofisticados, de última geração. Pois é, onde fica a fonte? No próprio Ocidente, é do conhecimento até do mundo mineral. Ouço uma voz ao longe, sussurra que seria como se Roma abastecesse os hunos de lanças, gládios, escudos, arcos e flechas. Ora, é bom dizer que os hunos não se confundem com os fanáticos do EI. Como se sabe, a história é sempre escrita pelos vencedores, de sorte que o rei huno, Átila, nos é apresentado como “O Flagelo de Deus”. No entanto, segundo a verdade factual, enfim recuperada, foi grande monarca e guerreiro.

Divago? Divago. Por exemplo. O Brasil dito democrático aceita a chamada lei da anistia imposta pela ditadura. Ao cabo, quem é o vencedor? A eterna turma do golpe, os donos do poder e seus aspirantes, na hora que lhes soava ameaçadora chamam os militares para executar o serviço sujo. Lembram? Primeiro de abril de 1964. Os fardados se foram, os mandantes continuam a postos.

Retomo o fio inicial. O EI é a barbárie na sua acepção mais precisa e seu califa não passa de um facínora, o oposto de Saladino, rei iluminado, que rechaçou a Terceira Cruzada no século XII, bem mais culto, refinado e competente política e militarmente do que os soberanos europeus que o enfrentavam. Papa Francisco, atiro-me a supor, ao dizer blasfemo quem pretende fazer a guerra em nome de Deus, não se refere somente aos terroristas islâmicos, mas também aos cruzados medievais. 

Sabemos, sem chegar tão longe em busca do passado, das prepotências cometidas pelas potências ocidentais no Oriente Médio. Com o fim do Império Otomano, quando a Grã-Bretanha e França atribuíram-se o direito de redesenhar o mapa da região. Faz exatos cem anos. Nesta edição, Antonio Luiz M. C. Costa escreve a respeito. Violências sem conta, imposições insuportáveis, mentiras ferozes caracterizaram um século da história marcado por guerras cruentas, guerrilhas e terrorismo, provocados em nome da ganância dos poderosos do Ocidente. Também ela não seria blasfema?

A esta altura o EI é a pior consequência de uma série interminável de desmandos. Suspiram os botões que a autocrítica não faria mal a quem os cometeu. De todo modo, o exame de consciência não nos livra de um futuro de pavor. Que solução se afigura para enfrentar esse inimigo? As operações bélicas conduzidas até agora parecem ter fortalecido o EI e estimulado os ataques do terror. O destemor dos soldados curdos, que combatem por terra, talvez mostre o caminho de uma guerra dos tanques, dos canhões, da infantaria.

Perguntam os botões: qual foi a guerra, em séculos e séculos, que acabou com outra guerra? Respondo com outra pergunta: e pode o homem livrar-se do seu destino, de único bicho sempre em luta contra os semelhantes? Algo haverá de ser feito para sustar a ameaça monstruosa do terrorismo islâmico. Outra situação me inquieta, contudo, e não é menos assustadora. O desequilíbrio social que se aprofunda no mundo inteiro, não apenas no Brasil: sua razão de ser está clamorosamente exposta a negar a Razão.

Por que impavidamente aceitamos que o neoliberalismo em vigor cuide da felicidade de especuladores e rentistas, enquanto aguça a diferença entre ricos e pobres? Não é blasfêmia espalhar miséria em nome do deus mercado? Não entendi, aliás, a proposta de Lula a favor da substituição de Joaquim Levy por Henrique Meirelles. Diz um dos raros sábios brasileiros: é trocar seis por três. Sacerdotes neoliberais ambos são, e não poderiam deixar de ser, e pela primeira vez nas últimas décadas concordo com José Serra quando define Meirelles como o pior presidente do BC de todos os tempos.

Divago? Divago.