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Número 877,

Sociedade

Questão indígena

Guerra e omissão na Amazônia

A Funai é acusada de ignorar grave conflito entre duas etnias na Amazônia
por Felipe Milanez publicado 19/11/2015 14h09, última modificação 22/11/2015 08h46
Leonencio Nossa/Estadão Conteúdo
Índios-Corubo

Os corubo vivem isolados

Uma “guerra tribal”, após a omissão de agentes do Estado, teria provocado um massacre de índios isolados da etnia corubo. Servidores da Funai souberam do conflito no fim de setembro. As investigações ainda estão em curso.

Estima-se um total de 7 a 15 mortos. O incidente no Vale do Javari, no noroeste da Amazônia, fronteira com o Peru, teve início com o assassinato de dois integrantes da etnia mati em dezembro de 2014 e se desenvolve em meio a uma profunda crise na gestão do setor de indígenas isolados da Funai.

As informações até o momento indicam que os mati, após terem alertado a Funai e solicitado uma audiência com o presidente da fundação para discutir a pacificação da área, revidaram o ataque dos corubo de dezembro.

As duas etnias compartilham uma região na Terra Indígena Vale do Javari e, ultimamente, os encontros entre ambas têm sido marcados pela violência. Após o confronto mais recente, os próprios mati conduziram um contato forçado com os corubo nas proximidades da aldeia Tawaya, em 26 de setembro. Inicialmente eram dez indivíduos.

Mati
Lideranças da etnia Mati dizem ter pedido apoio, mas seus apelos não foram levados em conta (Funai)

Em 10 de outubro chegaram mais 11. Segundo relatos, os corubo contraíram doenças respiratórias contagiosas e alguns têm pelo corpo marcas de tiros. Uma criança recém-nascida morreu na primeira quinzena de outubro. 

Os mati, afirma Marke Turu, da associação indígena da etnia, fizeram vários alertas à Funai sobre a extensão do conflito, pediram apoio à fundação e audiências em Brasília, o que não foi atendido até o momento.

“Se alguma coisa acontecer com os mati de novo, eles podem querer revidar. Precisa resolver a questão dos corubo isolados que estão lá. Se não providenciarem uma pacificação, pode ter mais violência”, alerta. 

O Vale do Javari é a região com a maior densidade de povos indígenas isolados no mundo. Uma área vasta, protegida, cujas principais pressões sobre o território atualmente partem de pescadores, caçadores, madeireiros e traficantes.

O primeiro contato com os corubo ocorreu em 1996, durante uma expedição liderada pelo sertanista Sydney Possuelo. Nenhum indígena perdeu a vida naquela ocasião, mas um funcionário da Funai foi morto pelos índios. Desde então, os encontros passaram a ser ocasionais. O mais comum eram os contatos visuais à beira dos rios.

Recentemente, aumentaram os conflitos entre isolados e outros povos contatados, assim como os relatos de epidemias, sobretudo malária, entre os isolados. No ano passado, um grupo de 16 corubo fez contato com agentes da Funai. Vários tinham malária ou gripe.

Travassos
Travassos: sem apoio dos sertanistas (Paulo Whitaker/Reuters)

Os mati haviam avisado a Funai da presença dos isolados em roças, beira dos rios, em encontros eventuais em caçadas, e estavam preocupados com a possibilidade de confronto. Em 5 dezembro do ano passado, um grupo de seis corubo atacou os mati nas imediações da aldeia Todawak, no Rio Coari.

No embate morreram Ivan e Dame Matis. A União dos Povos Indígenas do Javari pediu formalmente o apoio da Funai na mediação e solicitou uma reunião em Brasília para traçar uma estratégia de pacificação.

Em carta, indígenas afirmam que o “problema deveria ser resolvido entre as etnias na forma tradicional”. Com os apelos ignorados, a associação dos mati atribui as mortes a erros da Funai cometidos no contato com os 16 corubo anteriores ao assassinato dos dois integrantes de sua etnia. 

Há muitas queixas em relação à fundação. Mesmo ciente dos riscos de confrontos sangrentos no Vale do Javari e da necessidade de mais técnicos em campo, Carlos Travassos, coordenador-geral de índios isolados, deslocou funcionários especializados para prestar assistência à filha do ministro Aloizio Mercadante, que produz um documentário sobre índios isolados em Mato Grosso.

Um dos mais experientes sertanistas da Funai, em vez de ser enviado para apoiar os trabalhos emergenciais, foi deslocado para dar suporte às filmagens de Mariana Mercadante, amiga pessoal de Travassos, e da cineasta Renata Terra, que tentava encontrar outro agrupamento indígena de recente contato, os piripkura, um subgrupo tupi-kawahiwa.

[Outro lado: Mariana Oliva, Renata Terra e Jair Candor]

Mapa

 

Segundo apurou CartaCapital, a tentativa de contato, que serviria apenas para preencher cenas do documentário, não se concretizou.

A Coordenadoria de Índios Isolados vive uma crise interna. Sertanistas antigos, alguns aposentados e outros em atividade, formalmente acusaram Travassos de cometer uma série de irregularidades e de má gestão e pediram em agosto a sua saída do cargo.

Entre os problemas apontados estava justamente a falta de atenção para o iminente conflito no Vale do Javari, além de um projeto de cooperação com a organização Centro de Trabalho Indigenista a partir de um contrato com o BNDES por meio do Fundo Amazônia.

“Estão privatizando a área de índios isolados”, acusa Possuelo. O presidente da Funai, João Pedro da Costa, não atendeu ao pedido de entrevista. Travassos também não quis se pronunciar.

Todos os indígenas recém-contatados precisam de assistência especial. No Javari foram 37 corubo ao todo: 21 em setembro, 16 no ano passado. No Acre, dos 38 sapanawa contatados em junho de 2014, ao menos um foi atingido por pneumonia.

Sem alimentação, parte mudou-se para perto de uma comunidade não indígena, o que a deixa mais vulnerável. Também nesse caso antropólogos e indigenistas acusam a Funai de omissão.

O descaso ainda põe em risco os funcionários da fundação que atuam em campo. Um servidor enviado para investigar o massacre chegou a ser mantido refém pelos mati, que estão zangados com o pouco caso do órgão público.

O Ministério da Saúde informou em nota que os casos de contato com indígenas isolados são tratados como emergência sanitária e que estabeleceu um plano de contingência para o caso dos corubo.

O isolamento para evitar epidemias é fundamental em situações de contato, mas politicamente delicado. Por isso a organização deveria ter sido feita pela Funai, que até agora não colocou em campo uma equipe para a segurança dos indígenas e dos funcionários. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 877 de CartaCapital, com o título "Guerra e omissão". Leia aqui uma versão completa da reportagem

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