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Número 877,

Economia

Análise

Desemprego e inflação

por Delfim Netto publicado 25/11/2015 04h47
Pesquisas recentes mostram um declínio do poder da política monetária para promover a estabilidade da economia
USP Imagens
Política-Monetária

A queda no poder da política monetária no Brasil já deu os seus primeiros passos

Os economistas costumam respeitar as evidências empíricas por saberem que elas são a única forma de dar utilidade prática à disciplina que cultivam,  à qual se dá o nome de economia. Ela tenta entender como se acomoda o comportamento do agente econômico individual e as consequências de sua inevitável agregação no nível coletivo, que parecem revelar relações estáveis e, às vezes, mensuráveis. O grande objetivo é descobri-las e medi-las, nem que seja apenas para conhecer o sinal do eventual nexo de causalidade. E a grande esperança é que possam ser manipuladas para melhorar o nível de bem-estar da sociedade.

Um exemplo interessante desse processo é a explicação de um fenômeno tão importante quanto a inflação que acompanha o homem desde o monopólio da emissão da moeda metálica pelo Estado.

Durante décadas, a manipulação da identidade PT = MV: o preço médio de tudo que foi transacionado (P), multiplicado pelo volume unitário das transações (T) é necessariamente igual a tudo o que foi pago em moeda (M), multiplicado pelo número de transações feito por elas (V), foi a grande diversão algébrica dos economistas. E levada ao paroxismo pelos “monetaristas” do século XX, com suas “longas e variáveis defasagens”. Por causa da instabilidade da relação entre a massa monetária e o PIB, a política monetária evoluiu para o controle da taxa de juros de curto prazo.

A evolução foi causada pelas mudanças autônomas dos comportamentos sociais dos agentes e pelas inovações criadas no mercado financeiro. Nos meados dos anos 1990, chegou-se à compreensão de que a política monetária influi na economia por meio de ao menos quatro canais de “transmissão”: 1. O da taxa de juro. 2. O da taxa de câmbio. 3. O do crédito.  4. O dos efeitos sobre os preços dos ativos (riqueza). Na ponta da linha dos seus aperfeiçoamentos estão os modelos dinâmicos estocásticos de equilíbrio geral (DSGE, em inglês).

Alexandre-Tombini
Tombini, presidente do Banco Central do Brasil, em audiência para discutir perspectivas da política monetária (Wilson Dias/ Agência Brasil)

O Banco Central do Brasil tem no seu corpo profissional bem apetrechados economistas e também os seus modelos. Como ele se comunica com o País em bancocentralês, em matematiquês e em inglês, é frequentemente mal-entendido. Tem um DSGE de médio porte que tem sido mantido no “estado da arte”. Recentemente, recebeu modificações substantivas importantes que, na minha opinião, sugerem que os seus economistas continuam “ligados” às profundas incertezas que envolvem a eficácia da política monetária no mundo. Isso é visível desde o começo, em 2011, quando, provavelmente, com alguma ironia, eles deram o nome de “Samba” ao modelo mais completo...

É assunto árido, talvez técnico demais, mas muito revelador. Quais as modificações que foram implementadas? A primeira foi que “a versão log-linearizada do modelo foi substituída pela especificação não linear original, que traz como consequência, a necessidade de definir as curvas de Phillips” (a nebulosa ligação entre variações de salário e desemprego) e a segunda, que “o bloco fiscal foi alterado para tratar a tributação como variável de ajuste para atingir o equilíbrio dinâmico das contas públicas, tornado exógeno o componente dos gastos do governo”. Não há nada de dramático nos novos resultados, mas eles mostram uma resposta mais lenta da inflação e mais aguda do PIB à política monetária.

Suspeito que as incertezas que ainda cercam as decisões do Fed estão ligadas à perplexidade de Alan Greenspan. Quando, em 2004, viu a quebra da relação entre as taxas de juro de curto e longo prazo, chamou-a de enigma (conundrum). As pesquisas empíricas recentes parecem mostrar um importante declínio do poder da política monetária para promover a estabilidade da economia. No Brasil é visível pela segmentação do mercado de crédito. Nos EUA, a elasticidade do emprego com relação à taxa de juro parece ter se reduzido estruturalmente em muitos setores, colocando sérios problemas para a sensibilidade da chamada Curva de Phillips, os mesmos que preocupam os economistas do nosso Banco Central. No mês de dezembro, talvez saibamos se a chairwoman Yellen decifrou o enigma.