Você está aqui: Página Inicial / Revista / O terror contra o Ocidente / A arte esquecida
Número 877,

Cultura

Livro

A arte esquecida

por Rosane Pavam publicado 27/11/2015 19h44, última modificação 29/11/2015 01h28
Rogério de Campos contesta a origem das HQs e reúne raras histórias pioneiras publicadas até o século XIX
Yellow Kid

Yellow Kid em Nova York (1986)

senhor Jabot venceu na vida por suas excelentes maneiras. Frequentou os locais da moda, tomou sorvete no principal café da cidade, opinou sobre a política exterior. Bem-comportado nos lugares certos, foi convidado ao grande baile e enxergou a consagração. Partiu para a contradança de cabelos feitos, mas, sem se dar conta de alguns passos em falso, tropeçou sobre a mesa ao lado da pista, onde convidados jogavam xadrez. Em razão de seu egocentrismo e vaidade, viu-se agredido, não agressor, e passou a convocar os feridos para duelos na manhã seguinte, muito feliz. A estreia social ocorrera a seu contento. Ele impressionara os ilustres com sua coragem. 

A História do Senhor Jabot foi publicada por um suíço, Rodolphe Töpffer, na Genebra de 1833, quando burgueses como o protagonista não mais poderiam se dizer exemplares em civilidade. Eles haviam se tornado, na direção contrária, acumuladores da pior ordem, como os retratara Honoré de Balzac. Mas, Töpffer não era um romancista, como o francês. Nem mesmo imaginava conceber uma história em quadrinhos ao narrar as aventuras do fanfarrão.

A sua era uma anedota seriada, desenhada à moda do trabalho daquele anônimo que, em uma sequência de quadros, descrevera quatro séculos antes As Torturas de Santo Erasmo. A diferença entre o suíço e os outros esteve em haver colado legendas a cada passo fragmentado de seu sarcasmo, compondo assim as famosas tiras que por anos figuraram como sinônimas dos quadrinhos. 

 

memórias postumas.jpg
Winsor McCay desenha memórias póstumas no Sonho do Louco por Rarebit, de 1904.

A partir de pioneiros como Töpffer, a HQ cresceu, sempre à espera de ser posta em um bom lugar. Um formato a necessitar de defensores, como no passado o foram os pesquisadores Álvaro de Moya e Moacy Cyrne. A nona arte, talvez, após o modelismo ferroviário, como ironiza Rogério de Campos, autor de Imageria – O nascimento das histórias em quadrinhos (Editora Veneta, 354 págs., R$ 149,90), no qual promove, em primeira pessoa, uma intensa discussão sobre a mania das origens. Seu livro compila as histórias esquecidas dos inúmeros desenhistas até o século XIX que, sem se atribuírem grande importância, construíram uma nova linguagem a desafiar a literatura. “O entendimento corre atrás dos artistas”, acredita Campos, que mostra, por exemplo, o ítalo-brasileiro Angelo Agostini a evocar gostosamente o burguês de Töpffer em Episódios no Baile, três décadas depois.

Dono da Veneta, que lança no País, entre outras, as obras do norte-americano Robert Crumb e do brasileiro Marcello Quintanilha, o autor trouxe o novo quadrinho europeu ao conhecimento público em 1988, por meio da revista Animal. E na editora Conrad, durante os anos seguintes, lançou romances gráficos como os de Joe Sacco e Daniel Clowes. A certa altura, julgou preciso consolidar esse avanço e “melhorar os fundamentos, como dizem os técnicos de futebol”. Pesquisou em arquivos, livros e revistas, e chamou Paul Gravett, o crítico inglês para quem “o futuro dos quadrinhos se firma e se constrói a partir das obras fundadoras do passado”, para contribuir na finalização do trabalho. A hora é de fazer história, embora Campos não se veja como um historiador. “Não há limites para minha capacidade de despejar opiniões sobre coisas que não entendo”, afirma, na trilha do humor de seus retratados.

O autor crê que os pesquisadores exageram ao cravar um desenho de Yellow Kid, de Richard Outcault, como a primeira HQ, de 1896. Publicada longínquas seis décadas após as aventuras do Senhor Jabot, fora entendida pioneira por conter balões. Na melhor hipótese, por haver fundado mercado para essas histórias em jornais. E os intimidantes americanos, “que julgam ter inventado os quadrinhos e a democracia”, começaram a firmar a reputação de Kid após o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. Para o pesquisador brasileiro, contudo, o valor das histórias do personagem estaria em outra parte. Outcault teria exercido como poucos uma bela arte condensada, a retratar, em ilustrações de página inteira, a caótica vida nos centros urbanos. 

Doré.jpg
Uma pegada atinge o narrador na viagem de Doré, 1851

O importante é que as representações passassem a ser ainda mais ousadas a partir de Outcault, como aquelas promovidas por Winsor McCay. Genial e compulsivo, o desenhista exercera sua arte publicamente, compondo quadro a quadro histórias sensacionalistas precursoras do cinema, à moda do que ocorrera durante o século XVIII, na Alemanha, com as bänkelsängers. Por conta da necessidade de se apresentar ao vivo, ele publicara mal os seus trabalhos em livro. Tornara-se conhecido por Little Nemo, um personagem infantil que sonhava aventuras enquanto dormia. Em Imageria, estão suas raramente vistas histórias adultas, aquelas da série Sonho do Louco por Rarebit. Uma delas, de 1904, mostra o personagem na cova a observar sua viúva, que declara: “Não me deixou nada, a não ser dívidas”.

Em seu estudo, Rogério de Campos busca precedências. Benjamin Rabier, por exemplo, estaria na origem de Hergé, o criador de Tintim. E a arte de Doré teria sido a inspiração de Hal Foster, o pai do Príncipe Valente, no século XX. Não se pode dizer, portanto, que as revoluções tenham sido imediatas. Quando Gustave Doré publica Des(prazeres) de uma Viagem de Prazeres, aos 19 anos, em 1851, sobre o pequeno-burguês que busca a ascensão social nos Alpes, a evocar o tolo Jabot, não tem seguidores imediatos. Talvez porque em uma página de Doré haja muitas revoluções, como aquela pegada que pode facilmente se interpor à história sem prejudicar seu andamento. 

Por vezes, neste livro, destaca-se o manifesto. Um dos maiores editores de quadrinhos do Brasil ressente-se de pouca liberdade para publicar, originada por uma onda moralista a que nem mesmo o século XVIII europeu teria assistido. No livro, não comenta seus percalços, mas eles ocorrem constantemente. Sua editora lança agora uma compilação das histórias escritas por Alice Ruiz e Paulo Leminski nos anos 1970. Afrodite – Quadrinhos eróticos enfrentou dificuldades no Paraná, pela recusa de uma empresa em distribuir o título com tal temática. “É como em toda ditadura”, diz Campos. “Na maior parte das vezes, as vítimas se calam, porque esperam não ser estigmatizadas.”