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Número 876,

Internacional

Polônia

Um país cada vez mais reacionário

por Gianni Carta publicado 14/11/2015 07h39
A vitória esmagadora do PiS no pleito legislativo inquieta a União Europeia
Michal Fludra/Demotix
Kukiz

O atípico Kukiz apoia a direita com o peso da sua popularidade e contradiz as tradições dos colegas

Centro de Varsóvia, 6 de novembro. É noite. O restaurante/bar, clima de hangar pós-moderno, está apinhado. Alto-astral. Podemos tomar um drinque ou saborear gastronomias internacionais, como suculentas entradas libanesas.

Caberia estar em qualquer grande capital, visto o décor, as várias línguas a se confundirem no ambiente, garçons e garçonetes bilíngues, às vezes trilíngues. O local abre suas portas no térreo do Pałac Kultury i Nauki (Palácido da Cultura e da Ciência), presente dos soviéticos aos poloneses terminado em 1955.

Kasia Koła-Bielawska, produtora de 37 anos com mestrado na Sorbonne, diz: “Sabe, o clima é de festa, mas no fundo muitos dos presentes aqui estão muito mal”. O motivo? Nas eleições legislativas de domingo 25 de outubro, a legenda conservadora Lei e Justiça (PiS) angariou maioria absoluta no Sejm, a Câmara Baixa do Parlamento.

Uma vitória histórica: desde o fim do comunismo, em 1989, um partido não ganhava eleições sem fazer alianças. E o PiS é a essência do reacionarismo: valores cristãos mesclados ao conservadorismo, principalmente em zonas rurais, mas também, embora em menor escala, nas urbanas. 

O PiS obteve 37,58% das vozes, em um Sejm de 460 cadeiras. A segunda agremiação, há oito anos no poder, a neoliberal Plataforma Cívica, levou 24,09%, ou 138 cadeiras. Vitória de certa forma surpreendente: apesar de centrista, a legenda promoveu no governo um crescimento de quase 4% ao ano, nos últimos oito anos.

O terceiro a galgar o pódio do pleito em 2015 foi Pawel Kukiz, um popular roqueiro, metamorfoseado em direitista “antissistema”. Um espanto, pelo menos para observadores ocidentais: roqueiros de vanguarda costumam ser contra, parece óbvio, o chamado “sistema”. No caso da Polônia, Kukiz apoia o PiS, a agremiação que defende uma Igreja Católica de tempos medievais.

Com o apoio do PiS, a Igreja polonesa quer banir o aborto e a fertilização in vitro. Ao mesmo tempo, roubou o voto da esquerda. Prometeu, entre outros, reduzir a idade da aposentadoria, menos impostos para os mais pobres, estes excluídos do crescimento econômico, e benefícios para as crianças.

Agata Diduzko-Zyglewska, da ONG Political Critique, indaga: “De onde eles vão tirar dinheiro para cumprir todas essas promessas?” E acrescenta: “Em 2005 fizeram tantas outras, mas não cumpriram coisa alguma”. 

As outras duas legendas a adentrar o Sejm foram o pró-mercado e conservador Nowoczesne e o Partido Polonês do Povo (PSL), agremiação cristã-democrática com forte base conservadora rural. O PSL, outrora de esquerda, estará, no novo contexto, disposto a forjar elos com o PiS.

Em suma, mesmo com a vitória absoluta do PiS, desde 1989 a Polônia nunca teve um Parlamento tão uniforme no sentido ideológico. “Aguarde maior controle da televisão pública, mais eventos patrióticos e maior controle de filmes críticos”, resume Koła-Bielawska, entre goles de cerveja.

Jarosław Aleksander Kaczyński é um perfeito exemplo do reacionarismo polonês. À testa do PiS foi premier da Polônia entre 2005 e 2007. É solteiro e perdeu o irmão, gêmeo, então presidente da Polônia, em um acidente aéreo em Smolensk, na Rússia, em abril de 2010.

Kaczynski
Por quanto tempo Kaczynski resistirá à tentação de assumir a chefia do governo? / Pawel Kopczynski/Reuters

Seu irmão iria comemorar o massacre de numerosos poloneses, cometido pelos russos, em 1940, em Katyn, durante a Segunda Guerra Mundial. Até hoje, Kaczyński suspeita que a morte do irmão resultou de um complô russo.

Durante a recente campanha, a Polônia, cujo governo anterior aceitou receber míseros 7 mil refugiados, Kaczyński disse: “Esses refugiados trazem cólera das ilhas gregas, disenteria de Viena e vários outros tipos de parasitas”. Kaczyński, diga-se, não perde a oportunidade de mostrar sua admiração por Viktor Órban, o premier húngaro que impede a passagem de refugiados por seu país. 

Como seu PiS não vencia um pleito há oito anos, Kaczyński teve a sensatez de escolher Beata Szydlo, uma deputada de 52 anos, para ser a próxima premier. Zsydlo fez a campanha de Andrzej Duda, de 43 anos, vencedor da eleição presidencial em maio passado.

Por essas e outras, Kaczyński quis recompensá-la. Mas por quanto tempo ele ficará nos bastidores? Michal Sutowski, porta-voz da Political Critique, que, além de organizar eventos e seminários, publica livros, uma revista acadêmica e divulga um website online, observa: “Kaczyński quer criar um bloco com Órban e os líderes da Europa Central e do Leste”.

De fato, não somente a União Europeia se preocupa com a volta de Kaczyński ao poder, mas também outros países do Ocidente. De saída há contradições. Por exemplo, Órban é amigo de Vladimir Putin. Kaczyński o detesta, por conta da morte de seu irmão.

Kaczyński também não parece tolerar Angela Merkel. Washington, do seu canto, inquieta-se, visto que a Polônia é aliada dos EUA no Oriente Médio e mundo afora. 

 Indago a Sutowski, da Political Critique, por que a Polônia é considerada um sucesso econômico, mas não político. “Veja, em termos de PIB, a Polônia foi o único país a crescer durante a crise. Em parte, porque mantivemos nossa moeda, o zloty.

Houve investimentos em infraestrutura, ferrovias, temos um trem-bala a ligar Varsóvia a Cracóvia, as rodovias melhoraram muito.” O PiS ganhou, continua, “porque a Plataforma Cívica esteve envolvida em diversos casos de corrupção, houve escutas telefônicas e seu governo tornou-se arrogante.

Quem não usufruiu do crescimento, e esse é um segmento não desprezível, votou no PiS”. E se fosse um país tão bem-sucedido, por que, pergunta Sutowski, 2 milhões de poloneses emigraram para outros países da União Europeia e não querem mais voltar?  

 A esquerda, que poderia ter se recomposto depois de 1989 como um partido social-democrata, não o fez. A razão? “Os intelectuais tornaram-se todos neoliberais”, diz Diduzko-Zyglewska. Mais: o Solidariedade é um movimento conservador. Porém, tanto Sutowski como Diduzko-Zyglewska acham que uma nova esquerda pode estar em vias de se formar e ganhar força. 

Indago a Dizko-Zyglewska como fica a história do Tupolev, o avião polonês no qual viajava o irmão de Kaczyński que perdeu a vida. Todas as pessoas no avião morreram. “O quadro é complicado”, responde a interlocutora. “Ademais, Putin pode bancar o durão com o líder polonês.” Seria normal.

Ironia das ironias, a vitória do PiS poderia ser uma boa notícia para Putin: o PiS visa enfraquecer a União Europeia. E, quanto mais possível, dividir a Europa. A vitória do PiS seria também uma inspiração para legendas como a Frente Nacional de Marine Le Pen e para todas as agremiações xenófobas da UE.