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Número 876,

Internacional

Vaticano

Papa Francisco no contra-ataque

por Claudio Bernabucci, de Roma — publicado 19/11/2015 17h43, última modificação 22/11/2015 08h27
Em duas ocasiões, o pontífice joga duro e avisa: ninguém pode deter a reforma já encaminhada
Fillipo Monteforte/AFP
Papa-Francisco

Ele prefere "uma Igreja ferida e suja por ter saído às ruas"

Desde o pontificado de Paulo VI (1963-1978) vigorou a tradição: quando o papa está em Roma aos domingos, antes da Oração do Angelus, ao meio-dia em ponto, ele se dirige aos fiéis de uma janela do seu escritório, no último andar do Palácio Apostólico, para pronunciar uma breve homilia. Francisco decidiu não morar no suntuoso apartamento ocupado por seus predecessores, mas todo domingo volta lá só para manter essa prática, que lhe permite um contato direto com a multidão de romanos e peregrinos que chegam à Praça de São Pedro mais numerosos do que nunca.

No domingo 8 de novembro, Bergoglio resolveu concluir seu sermão de maneira inédita e estrondosa, referindo-se ao recente episódio do vazamento de informações reservadas, chamado VatiLeaks nº 2: “Difundir esses documentos foi um crime, mas quero ser claro com vocês: quem cometeu esse crime não impedirá minha obra de reforma”. 

Enquanto prosseguem as investigações sobre o escândalo e o monsenhor Vallejo Baldas é submetido a duras sessões de interrogatório na prisão vaticana, chega o combativo posicionamento do papa: “Conhecia muito bem aqueles papéis porque eu mesmo requisitei certos estudos, com base nos quais começamos a fazer reformas que já estão dando seus frutos.  Trata-se de documentos antigos, superados nos fatos (...) Esses acontecimentos deploráveis não ajudam, mas a reforma continua com o suporte dos meus colaboradores e de todos vocês”.

O sinal enviado urbi et orbi por Francisco é de força e consenso popular ao mesmo tempo. A Praça de São Pedro está com ele e, nos últimos dias, foram numerosos os depoimentos de párocos e bispos do mundo inteiro em defesa da sua “limpeza”. 

A vontade de encerrar rapidamente o episódio choca, porém, com as complexas apurações das responsabilidades e com contínuas especulações externas destinadas a prosseguir por muito tempo. Por um lado, o papa deixou a entender claramente que vai aproveitar a situação para acelerar soluções de questões espinhosas, como aluguéis de favor e residências luxuosas aos cardeais. Por outro, seus inimigos continuam a obra de desgaste, difundindo pérfidos rumores sobre a possibilidade de que em breve teremos “três papas”. 

Por ocasião da visita a Florença, para participar do Encontro Eclesial dos bispos italianos, Francisco contra-atacou de novo: “Não devemos ser obcecados pelo poder, também quando este toma o aspecto de um poder útil e funcional à imagem social da Igreja. Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e suja por ter saído às ruas, em vez de uma Igreja doente por ser fechada, e pelo conforto de se agarrar às próprias seguranças”. Para os bispos, não podia chegar sinal mais claro da vontade de mudança em relação à tradicional ingerência da Igreja na política nacional, italiana e não somente.  

O papa contracorrente, como ele mesmo se define, com seus gestos e exemplos está mudando equilíbrios antigos e corrompidos, seja na Igreja, seja na sociedade contemporânea. Inevitável o surgimento de reações para neutralizá-lo. Sua batalha, em aliança com todos os homens de boa vontade, será longa e seu êxito incerto.