Você está aqui: Página Inicial / Revista / O teatro de Cunha / Mar de lama, literalmente
Número 876,

Sociedade

Desastre

Mar de lama, literalmente

por Rodrigo Martins publicado 15/11/2015 07h02, última modificação 15/11/2015 07h02
Os rejeitos da Samarco atingem nove cidades em Minas e no Espírito Santo
Christophe Simon/AFP
Mariana-MG

As buscas por sobreviventes continuam

As imagens aéreas parecem sugerir um desastre natural de grandes proporções. Vilarejos inteiros cobertos por espessas camadas de lama, edificações destruídas, veios d’água barrenta a empurrar para as margens despojos de toda sorte.

A devastação é resultado da passagem de um tsunami, mas não desses que se formam por sismos ou erupções vulcânicas submarinas. Na verdade, o mar está a mais de 400 quilômetros de distância.

O tsunami em questão foi provocado pelo rompimento de duas barragens da Samarco, joint venture formada por duas gigantes da mineração, a brasileira Vale, maior exportadora de minério de ferro do mundo, e a anglo-australiana BHP Billiton, maior companhia do setor.

Após o rompimento das barragens, uma enxurrada de rejeitos de mineração varreu do mapa o vilarejo de Bento Rodrigues, na zona rural do município de Mariana, em Minas Gerais. Pegos de surpresa, dezenas de moradores e trabalhadores da mina acabaram soterrados.

Até a tarde da quinta-feira 12, uma semana após o colapso das estruturas, seis corpos haviam sido reconhecidos e dois aguardavam identificação.

Eram 19 os desaparecidos. A lama potencialmente tóxica avançou por um raio de mais de 100 quilômetros e não tardou a encontrar as artérias da Bacia do Rio Doce e comprometer o abastecimento de água de meio milhão de habitantes de nove cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Ainda não é possível dimensionar a extensão e gravidade dos danos ambientais, mas a recuperação levará anos para ser concluída e deve consumir bilhões de reais, estimam especialistas consultados por CartaCapital. O Ibama calcula que ao menos 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, composto principalmente de óxido de ferro e sílica (areia), foram despejados das barragens.

“Nos locais atingidos pela lama concentrada, um dos impactos esperados é a mortandade de animais, terrestres e aquáticos, por asfixia. Graças à densidade da lama, ainda não foi possível observar o fenômeno, porque os animais mortos não flutuarão. No Rio Doce, onde a pluma chega mais diluída, poderá ocorrer mortandade de peixes devido a impactos no sistema respiratório.”

Tsunami-de-lama
O rompimento das barragens destruiu Bento Rodrigues / Christophe Simon/AFP
O prejuízo estende-se ainda para o patrimônio histórico. Está destruída, entre outros monumentos, a Capela de São Bento, erguida em 1718 e símbolo do surgimento do arraial mineiro de Bento Rodrigues.

Esculpida em madeira e folheada a ouro, uma imagem de 60 centímetros do padroeiro da vila desapareceu no lamaçal. Também ficaram danificadas ao menos outras duas igrejas de vilarejos vizinhos, além de trechos da Estrada Real, casas coloniais e sítios históricos do ciclo do ouro no século XVIII.

“Alguns distritos permanecem isolados e há o risco de furtos de obras de arte sacra”, comenta Marcos Paulo de Souza Miranda, coordenador estadual das Promotorias de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico.

Em um primeiro momento, as empresas que controlam a Samarco tentaram se esquivar das perguntas sobre a tragédia. Ao diário norte-americano The Wall Street Journal, a Vale declarou ser uma “mera acionista” da mineradora responsável pelas barragens destruídas, “sem qualquer interferência operacional na gestão da empresa, direta ou indiretamente, de perto ou a distância”.

A BHP, por sua vez, informou que a joint venture era responsável pela “totalidade” das operações em Minas Gerais. Cada uma das empresas possui 50% de participação na Samarco, que faturou 7,5 bilhões de reais e registrou um lucro líquido de 2,8 bilhões em 2014.

Diante da repercussão negativa, os presidentes das duas companhias se reuniram em Mariana, onde anunciaram a criação de um fundo de assistência destinado às comunidades atingidas, sem explicitar detalhes ou valores. Atualmente, os 637 desabrigados estão em hotéis e pousadas da região.

As ações de mitigação permanecem centralizadas pela Samarco. “Não acreditamos no sucesso de qualquer coisa com comando múltiplo. A Vale e a BHP farão o papel de sócios: apoiar no que for preciso”, disse Murilo Ferreira, presidente da Vale.

O Ministério Público de Minas Gerais instaurou um inquérito civil para apurar as causas do rompimento das barragens. “Ter licença ambiental não é salvo-conduto para o empreendimento nem significa legalidade. Uma barragem de rejeitos não se rompe por acaso”, resume o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto.

A Procuradoria-Geral da República também acompanha o caso. “A cada passo da investigação se vê que as duas empresas, a Vale e a BHP, foram totalmente displicentes na prevenção, demonstraram que não tinham qualquer plano de ação para o caso de um desastre e não tinham nenhum sistema de alarme”, afirmou a subprocuradora-geral da República Sandra Cureau, na quinta-feira 12.

As causas da tragédia seguem desconhecidas. A Samarco mencionou a ocorrência de pequenos terremotos pouco antes do desastre. De fato, o Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo registrou quatro tremores naquela região durante a tarde da quinta-feira 5. O mais forte deles, com 2,6 graus de magnitude, ocorreu a cinco quilômetros da Barragem do Fundão.

 

Isoladamente, um tremor dessa intensidade é incapaz de provocar o colapso das estruturas, avalia André Zingano, chefe-adjunto do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Abaixo de 3 graus, é quase imperceptível. Só poderia causar algum estrago se a estrutura já estivesse instável.”

Doutor em Geociências, Jair Carlos Koppe concorda com o colega. “Uma chuva forte poderia ter o mesmo efeito de um tremor dessa magnitude.” O leque de possibilidades é vasto. Pode ter havido falhas no projeto ou na construção, problemas em obras de alteamento das barragens, falta de manutenção ou mesmo imperícia na operação, sugerem os especialistas.

Samarco
Representantes da Samarco anunciam fundo de ressarcimento / Cristiane Mattos/AFP

Com a passagem da pluma de rejeitos pela cidade, a prefeitura de Governador Valadares decretou na terça-feira 10 estado de calamidade pública. O município mineiro teve de interromper a captação do Rio Doce, após testes do Serviço Autônomo de Água e Esgoto indicarem uma concentração de ferro até 10 mil vezes acima do tolerável.

Além disso, a grande quantidade de resíduos sólidos inviabiliza o tratamento da água. “É um efeito transitório, que em alguns dias deve cessar”, avalia Ricardo Motta Pinto Coelho, coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios da UFMG. “As consequências mais perenes serão a contaminação da fauna e da flora, além do inevitável assoreamento do rio, o que pode agravar os problemas de enchentes.”

Uma decisão judicial obrigou a Samarco a fornecer à prefeitura de Valadares 80 caminhões-pipa para garantir o abastecimento de hospitais e escolas. O governo do Espírito Santo também recorreu à Justiça para obrigar a mineradora a garantir o fornecimento de água potável em Baixo Guandu e Colatina, além de cobrar ações para minimizar os danos ambientais.

“A pluma de rejeitos deve chegar ao nosso estado no fim da semana, e a empresa nem sequer apresentou um plano emergencial”, queixa-se Rodrigo Júdice, secretário estadual de Meio Ambiente. 

Sete dias após a tragédia, Dilma Rousseff sobrevoou as áreas atingidas na companhia do governador Fernando Pimentel. A demora da visita presidencial e o inicial distanciamento do governo mineiro geraram desconfiança nas comunidades atingidas.

Logo depois do acidente, Pimentel concedeu uma entrevista na sede da Samarco e seu secretário de Desenvolvimento, Altamir Rôso, chegou a encampar a defesa da mineradora. “Temos de ser solidários, tanto com a empresa, que também é uma vítima, quanto com a população e os trabalhadores.”

Todas as atividades da Samarco na região acabaram, porém, embargadas pela Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais. E o Ibama, ligado ao governo federal, prometeu rigor na punição à empresa por danos ambientais. As multas podem alcançar 250 milhões de reais.