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Número 876,

Sociedade

Brasiliana

Do concreto ao abstrato

por Bernardo Medeiros — publicado 23/11/2015 04h25
O pedreiro Ivanildo Ferreira, desenhista autodidata, testa o mundinho das artes
Bernardo Medeiros
Ivanildo-Ferreira

Os desenhos a lápis chamaram a atenção de artistas plásticos de Campinas

De tijolo em tijolo, entre uma martelada e outra, Ivanildo Pereira dos Santos, o Negão, trabalha na construção de mais um condomínio de casas em Campinas, no interior de São Paulo. O concreto garante o sustento do pedreiro nascido no norte de Minas Gerais.

O abstrato alimenta a sua alma. Nas horas vagas, Negão troca a pá por tocos de lápis e algumas folhas de papel. Em vez de paredes, ergue desenhos de inspiração modernista.

Sua veia artística começou a se desenvolver quando, ainda criança em Santo Antônio do Jacinto, na divisa de Minas com a Bahia, brincava de fazer esculturas com argila. Mas a “descoberta” de seu talento pelo engenheiro da obra se deu recentemente, durante uma tarde em que o servente levou para o trabalho uma pasta com os desenhos que rabisca à noite, após uma exaustiva jornada e a longa viagem de quase 30 quilômetros até a sua casa.

“Eu desenho um seguido do outro. Se deixar, fico até de madrugada desenhando. Vem a ideia na minha cabeça e eu vou fazendo enquanto tem lápis e papel.”

Os desenhos foram fotografados em agosto deste ano pela esposa do empreiteiro e compartilhados pela internet com artistas locais. Esses impressionaram-se com o talento de Negão. A partir daí, a artista plástica Valéria Scornaienchi tornou-se uma espécie de mecenas do pedreiro autodidata.

Obras
As obras de Ferreira serão expostas / Bernardo Medeiros

A primeira providência foi conseguir uma bolsa de estudos em uma escola de artes da cidade. “Eu quero ajudar. Estou organizando, com o apoio de outros colegas, uma exposição”, afirma Valéria.

Negão, obviamente, confia em sua mecenas e torce pela aprovação do público. Mas após a experiência de vender dois quadros em uma feira de artesanato de Campinas, está aberto a adaptações:  “Espero que gostem. Mas se não gostarem, posso mudar alguma coisa no jeito de fazer meus desenhos”.

Empenhado em transformar o talento em profissão, há alguns meses ele colocou na tela dois de seus desenhos e os vendeu em um único dia na tal feira. O empreendimento só não foi adiante por falta de recursos para o transporte adequado da produção.

“Uma moça gostou muito da pintura. Comprou uma, foi embora, e depois voltou para pegar o outro. Ganhei 400 reais naquele dia. Mas depois não consegui mais ir e pensei: ‘acho que isso não é pra mim mesmo’”, lembra Negão, que em seu trabalho como servente recebe diárias de no máximo 80 reais. 

Outra dificuldade é estabelecer um preço para algo que flui de forma natural. Ao ver pela primeira vez uma reprodução do quadro Les Femmes d’Alger (versão O), de Pablo Picasso, arrisca, desajeitado, o valor. “Bonito demais. Vale o quê, esse? Um milhão?” Ele nem faz ideia: a obra foi arrematada em um leilão no início do ano por 179,3 milhões... de dólares. 

Ivanildo
"Gosto assim, bagunçado", diz o servente de obras / Bernardo Medeiros
Até os leigos veem nos desenhos de Negão traços de Picasso, bem como de outros modernistas como Tarsila do Amaral. Para Geraldo Porto Filho, professor aposentado do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas e colecionador, a resposta está nas raízes do pedreiro: “A região de onde ele vem é muito rica artisticamente, tem um artesanato poderosíssimo, com heranças indígenas.

Além disso, ele tem uma influência grande, não diretamente dos artistas modernistas, mas do mundo moderno, de espaços fragmentados, trens, carros, múltiplas possibilidades, o mundo da superinformação”.

Negão lembra-se da infância com os pais, um lavrador e uma dona de casa, em Minas Gerais, antes da mudança com a família para Campinas em busca de oportunidades de emprego.

Lembra-se também do artesanato da terra natal, mas como o ato de desenhar é instintivo, o pedreiro tem dificuldade em explicar o processo criativo e as lembranças que levam suas mãos àquelas figuras abstratas, de formas pitorescas de tamanhos desproporcionais.

“Fecho o olho e vem a imagem na minha cabeça. Aos poucos eu sinto o que ficaria bonito, passo para o papel e sai assim. Tem muita gente que fala que eu devia desenhar as coisas mais do jeitinho real que elas são. Já desenhei muitos rostos copiados de fotos de revistas que eu ganhava. Mas eu gosto mesmo do desenho mais assim, bagunçado.”

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