Você está aqui: Página Inicial / Revista / Assim caminha o Brasil / Siga Riobaldo
Número 875,

Cultura

Brasiliana

Siga Riobaldo

por Mário Bittencourt — publicado 17/11/2015 05h08
Trilha no Parque Grande Sertão Veredas recria o universo onírico de Guimarães Rosa
Paulo Henrique Souza
Rio-Mato-Grande

Os visitantes são recebidos com uma frase do escritor: "Agora, o mundo quer ficar ser Sertão... Se um dia acontecer, o mundo se acaba"

"Diadorim, Diadorim...”, uiva em desespero Riobaldo, após a morte do amor que até então ele acreditava se chamar Reinaldo. Naquela terra seca, castigada pelo sol inclemente, onde o único objetivo possível é a sobrevivência, que significado teria a paixão?

Os fãs de Guimarães Rosa poderão verificar por eles mesmos. Batizada de Mato Grande, uma trilha no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, de 230 mil hectares de Cerrado preservado, nascentes, rios e veredas ornadas de buritis, pretende transportar os leitores para o universo literário do autor nascido em 1908 na mineira Cordisburgo.

Criado em 1989, o parque, entre o Noroeste de Minas Gerais e o Sudoeste da Bahia, é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio responsável por controlar as visitas. A trilha foi planejada em parceria com a Fundação Pró-Natureza e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, braço da Tropical Forest Conservation Act no País.

Na entrada, os visitantes são recebidos com uma frase de Guimarães Rosa: “Agora, o mundo quer ficar sem Sertão... Se um dia acontecer, o mundo se acaba”. O caminho foi inaugurado oficialmente em outubro, mas era utilizado há alguns anos, conta Luiz Sérgio Martins, diretor do parque.

Trilha-Parque-Nacional-Grande-Sertao-Veredas
A trilha, de pouco mais de 2 km, segue as margens do Rio Mato Grande / Paulo Henrique Souza

Nos seus 2,2 quilômetros, a trilha margeia o Rio do Mato Grande. Durante a caminhada, há um mirante e placas interpretativas em grotas batizadas com os nomes dos animais mais comuns da região, tamanduás, cobras, inhambus e lobos. As placas mesclam citações de Grande Sertão: Veredas com informações da biodiversidade em português e inglês. 

A trilha também é inclusiva: cadeirantes têm o acesso facilitado no mirante, um pouco antes da caminhada e ao fim, na cachoeira, onde foi construído um quiosque e banheiro seco. Quem usa cadeira de rodas pode alcançar a cachoeira sem o auxílio de terceiros.

Dá para entrar na água sem deixar o equipamento para trás. “Inauguramos a trilha com 80% da estrutura pronta. Estamos, no momento, pintando mais algumas placas, colocando lixeiras, dando melhor estrutura para os cadeirantes. É um trabalho que sempre vai ter de ser feito, o de conservação”, diz Martins.

Guimarães-Rosa
O escritor conhecia o Cerrado, mas não deixou de imaginar uma própria topografia / Paulo Henrique Souza

Do “universo rosiano”, a área do parque engloba antigas fazendas e o famoso Liso do Sussuarão. De acordo com o doutor em Educação Roberto Antônio Penedo do Amaral, no imaginário de Grande Sertão: Veredas o Liso faz parte de uma topografia ao mesmo tempo real e fictícia, “no extremo oeste de uma extensa região que compõe a margem esquerda do Rio São Francisco”. 

Em um trecho do livro, Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos e o amor reprimido por Diadorim, informa: “Razão dita, de boa-cara se aceitou, quando conforme Medeiro Vaz com as poucas palavras: que íamos cruzar o Liso do Sussuarão, e cutucar de guerrear nos fundões da Bahia!”

No clima do universo mítico de Guimarães Rosa desenvolve-se a trilha. O melhor ponto de acesso é nas proximidades de Chapada Gaúcha, cidade de 12.495 habitantes a 772 quilômetros de Belo Horizonte e a 390 quilômetros de Brasília. O Cerrado e as veredas dominam o cenário e o Mosaico Grande Sertão Veredas-Peruaçu é considerado de grande potencial para o turismo ecológico e o desenvolvimento sustentável. 

Segundo o engenheiro florestal e superintendente da Funatura, César Victor do Espírito Santo, as unidades de conservação da região possuem características diversas e precisam de planejamento, inclusive para as terras indígenas e outros grupos que se reconhecem como comunidades tradicionais quilombolas. 

Parque-Grande-Sertao-Veredas
Local é acessível a cadeirantes / Paulo Henrique Souza

“É uma riqueza enorme em termos de biodiversidade, fauna, flora, recursos hídricos que formam a Bacia do Rio São Francisco, riqueza cultural e povos tradicionais. Tudo isso transforma o Mosaico Grande Sertão Veredas-Peruaçu num território muito interessante”, afirma Espírito Santo.

Além de comunidades indígenas e quilombolas, os visitantes podem conhecer outros dois parques: o Serra das Araras e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Veredas do Acari. 

Em Chapada Gaúcha ocorre o maior festejo religioso do interior de Minas Gerais, chamado Santo Antônio de Serra das Araras, comemorado há mais de cem anos no mês de junho. A festa que mais atrai turistas é, no entanto, o Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, mais ou menos na mesma época das comemorações por Santo Antônio. Em 2016, o encontro completará 15 anos. A nova trilha é um novo atrativo.