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Número 875,

Internacional

Vaticano

Os inimigos do papa

por Claudio Bernabucci, de Roma — publicado 13/11/2015 04h59
Uma trama complexa reúne cardeais conservadores contra a renovação da Igreja Católica desejada por Francisco
Tony Gentile/ Reuters/ Latinstock
Papa Francisco

O pontífice não hesita em usar a linha dura contra quem conspira

A festividade de Todos os Santos de 2015 será lembrada na história da Igreja Católica: na noite anterior a 1º de novembro, foi presa Francesca Chaouqui, primeira mulher a passar pelo cárcere do Vaticano, juntamente com seu padrinho eclesiástico, Monsenhor Lucio Angel Vallejo Balda. Dirigentes médios na Santa Sé, ambos foram acusados de vazamento de informações reservadas.

A senhora Chaouqui, 32 anos, italiana com pai franco-marroquino, lobista e ex-integrante de uma importante comissão vaticana, foi logo solta por ter colaborado ativamente com as investigações. Glamourosa e extrovertida, mais em sintonia com os ambientes  mundanos das socialites romanas do que com a sobriedade do entourage de Francisco, já nas primeiras declarações após a infausta primazia, ela descarregou a maior responsabilidade sobre o companheiro de aventura e de prisão.

Monsenhor Vallejo Balda, espanhol de 54 anos, filiado ao Opus Dei, já foi secretário da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé, importante órgão, criado por Francisco, para vigilância do patrimônio e do setor econômico-financeiro da Igreja. Sobre sua cabeça cai principalmente a acusação de ter divulgado documentos reservados e gravações do papa, que constituem a parte mais substanciosa de dois livros a serem publicados em breve: Avarizia (Avareza), do jornalista Emiliano Fittipaldi, vaticanista da revista italiana l’Espresso, e Via Crucis, escrito por Gianluigi Luzzi, autor de outro best seller de 2012, Sua Santidade, que divulgava as cartas de Bento XVI furtadas por seu mordomo. O escândalo dos documentos roubados ao papa, então denominado VatiLeaks, representou o episódio final de um desgaste prolongado que induziu Ratzinger à histórica demissão. Tudo indica que a atual tentativa de desestabilização do papado é provavelmente inspirada por intenções semelhantes.

Em duro comunicado, o departamento de imprensa do Vaticano denunciou: “Publicações desse tipo não ajudam a estabelecer a verdade, mas a gerar confusão, interpretações parciais e tendenciosas. É preciso evitar o equívoco de pensar que esse seja um modo de ajudar a missão do papa”. Como, aliás, os dois autores dos livros insinuaram.  O porta-voz do papa sublinhou também que os livros anunciados, “como já aconteceu no passado, são frutos de uma grave traição da confiança concedida pelo papa”, com evidente referência às gargantas profundas do Vaticano que vazaram informações sigilosas.

Fato é que a antecipação desses dois livros oferece informações de absoluta gravidade, até agora não desmentidas. Nestas horas, parece que o Vaticano está voltando à atmosfera de conspiração que sofreu na véspera da demissão do papa alemão e que as intrigas venenosas continuam proliferando. Em outros termos, parece que a operação de reforma, ou limpeza, realizada na Cúria até agora por Francisco é insuficiente.

As indiscrições sobre os livros falam da riqueza da Igreja, da dificuldade do papa de impor uma troca virtuosa na administração do dinheiro e da falta absoluta de transparência em relação ao uso das doações. Não tem muito a ver com o vazamento de documentos reservados, mas por certo o escândalo fermenta com a notícia, divulgada pela Reuters, de uma investigação em curso entre as magistraturas vaticana, italiana e suíça sobre operações fraudulentas e reciclagem de dinheiro por parte da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (Apsa). Aliás, os dois livros descrevem os hábitos e as residências luxuosas de muitos cardeais, in primis de George Pell, o australiano que Bergoglio nomeou em 2013 como chefe da Secretaria de Economia, espécie de superministério.

Já durante o Sínodo sobre a Família, foi evidenciada a contradição: Pell, um dos principais colaboradores do papa, alinhava-se a seus adversários conservadores. Agora, com a demonstração de que quem cuida das finanças vaticanas, cultiva sofisticados hábitos (que comportariam gastos mensais de 70 mil euros, entre roupas sob medida e outras mordomias), a posição do poderosíssimo cardeal torna-se insustentável.

Na narração das “contradições” que se perpetuam na Cúria, não podia faltar o escândalo dos escândalos: o suntuoso apartamento do cardeal Tarcisio Bertone, 350 metros quadrados com terraço, ao lado da cúpula de Michelangelo, refinadamente reestruturado no mesmo período em que Francisco estabelecia sua residência em modestos 70 metros quadrados na Hospedagem de Peregrinos Santa Marta.

A ostentação do luxo própria de Bertone (mas não só dele), por um lado, e a simplicidade do papa, por outro, têm provocado nesses dois anos embaraçosa incredulidade nos fiéis (e também nos infiéis). Mas agora, depois que foi divulgado que parte dos gastos de tal reestruturação milionária foi financiada com dinheiro do hospital pediátrico Bambino Gesù, a continuidade do ex-secretário de Estado no principesco apartamento parece um insulto aos Evangelhos.

Bertone
Bertone: gosta de luxo e poder excuso. Créditos: Alessandro Bianchi/ Reuters/ Latinstock

Completam a litania das indiscrições algumas gravações da voz do papa, que fala aos interlocutores de “custos fora de controle”. Avisa: “Tem armadilhas...” Em outra circunstância: “Se não somos capazes de guardar o dinheiro, que se vê, como cuidaremos das almas dos fiéis, que não se veem?” Constrangedoras, pelo fato de serem reveladas traiçoeiramente, essas frases roubadas ao papa parecem absolutamente verossímeis, porque deixam transpirar toda a sua postura simples e sincera.

Claro que Francisco sai dessa turbulência como a figura positiva cuja ação reformista é prejudicada pelas forças conservadoras, mas o fato é que esse VatiLeaks nº 2 é o primeiro escândalo da sua época e de alguma forma o fere e talvez o desgaste. De fato, os cargos dos dois inquiridos na Cúria não são uma herança do passado, remontam a suas nomeações de 2013, bem como a do cardeal Pell. Provavelmente, Francisco paga agora pela inevitável inexperiência dos primeiros meses, após a chegada a Roma, quando teve de confiar na opinião de outros prelados para definir importantes cargos de confiança. Além disso, a confirmação estrondosa de tantos problemas internos abala inevitavelmente a imagem de maior líder espiritual e estadista contemporâneo, que não é forte o suficiente para alinhar todos à sua justa causa.

De qualquer forma, ao contrário dos meses passados, o posicionamento dos vários protagonistas da disputa vaticana agora está manifesto, graças à habilidade de Francisco de trazer à tona seus adversários ocultos. Igualmente, a interpretação dos acontecimentos recentes resulta clara o bastante para deixar antever um cenário futuro e arriscar previsões.

Em primeiro lugar, vale evidenciar que, diferente de Bento XVI, Francisco foi de grande firmeza e severidade. Comentários não desmentidos relatam que, em lugar da prisão, os vértices vaticanos propuseram a solução mais diplomática do afastamento na Espanha para monsenhor Vallejo Balda, mas Bergoglio optou pelo rigor. Ao contrário de Francesca Chaouqui, o prelado do Opus Dei continua atrás das grades. A motivação de seus delitos parece muito mesquinha – ressentimento contra o papa pela falta de promoção como número 2 de Pell –, mas muito provavelmente ele é peça de uma conspiração de nível muito mais alto.

É evidente que um conflito aspérrimo está em pleno desenvolvimento, tanto quanto na luta de poder, sobretudo econômico-financeiro. O modelo de Igreja que Francisco quer pôr em prática, uma Igreja pobre, misericordiosa, “hospital de campo”, como ele a definiu, é antípoda da estrutura de poder dogmática e conservadora que foi construída nos séculos passados. Com Francisco no trono de São Pedro, não há possibilidade de mediação entre os dois modelos, daí a reação raivosa dos adversários, numerosos e poderosos, que ainda ocupam posições inalteradas em seus dois anos de pontificado.

Durante o Sínodo sobre a Família, o ataque foi também violento, não só com intransigentes especulações doutrinárias, mas também com as armas infames da calúnia e da conspiração. A notícia do tumor no cérebro de Francisco, lançada com clamor nos últimos dias do Sínodo e aparentemente sem fundamento, era nada menos que a tentativa de insinuar que o papa não tinha pleno controle de suas capacidades intelectuais. E a iniciativa anterior da carta reservada, e depois revelada, de 13 cardeais que escreveram ao papa insinuando um resultado preestabelecido da discussão sinodal, representou a outra cara da mesma moeda: macular o prestígio de Francisco, lançando a suspeita de que ele urdia mesquinhas manipulações para forçar os resultados da reforma que desejava.

Os fatos encarregaram-se de demonstrar que a realidade era outra e que a vitória de Francisco sobre os conservadores foi sofrida e resultado de um compromisso. Seus adversários visavam demonstrar que a maioria que o elegeu no Conclave de 2013 tinha evaporado, mas o voto sobre a redação final do Sínodo, elaborada após ásperos antagonismos, mostrou o contrário. Francisco conseguiu, por dois votos, o consenso de dois terços dos padres sinodais, ou seja, uma ampla maioria está disposta a segui-lo no caminho da reforma profunda da Igreja.

A proposta-chave que abriu a mediação final foi formulada pelo episcopado alemão, por sua vez dividido entre uma minoria conservadora chefiada pelo cardeal Müller e uma maioria progressista com o cardeal Marx na cabeça. Graças também ao parecer conciliador de Ratzinger, o papa emérito, os alemães sugeriram a fórmula de descentralizar os poderes em nível episcopal para dirimir questões como a comunhão aos divorciados. Daqui para a frente, serão os bispos dos vários países, com sensibilidades e culturas diferenciadas e inspirados pelo “discernimento” sugerido por São Tomás de Aquino, que aplicarão em cada contexto as medidas mais apropriadas.