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Número 875,

Economia

Globalização

O poder real

por Davi Nardy Antunes e Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado 13/11/2015 04h59
Em Wall Street e na City londrina, 737 megabancos e fundos controlam 80% das 43 mil transnacionais
Andrew Burton/ Getty Images/ AFP

Desde os anos 1970 do século XX, a reestruturação do capitalismo envolveu mudanças profundas na operação das empresas, na integração dos mercados e na soberania do Estado. Em primeiro lugar, a empresa oligopolista, “conglomerada” e “verticalizada”, desmontou a velha estrutura e concentrou-se na “atividade principal”. A nova empresa assumiu a função “integradora” no comando de uma rede de fornecedores. Em segundo lugar, as decisões empresariais estratégicas foram submetidas ao “comando sistêmico” de poucas instituições financeiras. Em terceiro lugar, sob os auspícios do capital financeiro, ocorreu a centralização do capital à escala mundial, o que envolveu a vitória do “valor do acionista” sobre as “ultrapassadas” estratégias de crescimento da firma apoiada no investimento produtivo via lucros retidos. Neste texto, vamos detalhar tais transformações e discutir suas implicações.

A “desconglomeração” e a centralização da estrutura produtiva ocorreram em conjunto com profunda reorganização empresarial, levando a uma redução drástica do número de empresas. Toda a economia mundial passou a ser dominada por pouquíssimas empresas, em geral, de países desenvolvidos. O setor de equipamentos de telefonia móvel, por exemplo, é dominado por cinco empresas, o farmacêutico por dez e o de aviões comerciais de grande porte por apenas duas. Em termos do gasto com pesquisa & desenvolvimento, o fenômeno é semelhante: apenas cem grandes empresas concentram 60% do gasto em P&D, sendo dois terços dos gastos realizados em apenas três setores (informática, farmacêutico e automotivo).

concentração crescente

Concentrando seus recursos no core business (marca, marketing, design e P&D), as grandes empresas ganharam dimensão global por meio de fusões e aquisições e tornaram-se integradoras de cadeias globais de produção terceirizadas. A empresa integradora desverticalizou-se, vendendo ativos e terceirizando atividades, e forçou seus fornecedores a também ganharem escala mundial e a se fundirem, num grande efeito cascata. Um exemplo eloquente é a Boeing. O 787 Dreamliner foi projetado integralmente em computadores, mas sua produção foi largamente terceirizada: 70% dos 2,3 milhões de componentes foram produzidos por 50 empresas em diversos países. Isso não significa que houve perda de controle sobre a produção, já que a Boeing, gerenciava em tempo real os fornecedores, os fornecedores dos próprios fornecedores, sincronizava pagamentos, estoques, prazos etc. Ou seja, mantinha estrito controle sobre as terceirizadas.

Em seu impulso para a “desterritorialização”, as empresas deslocaram a produção para as regiões onde prevalecem baixos salários, câmbio desvalorizado, baixa tributação. Nos 40 anos de globalização, as companhias dos países centrais cuidaram de separar os componentes de sua atividade globalizada: a) Wall Street e a City londrina abrigam as 20 maiores instituições financeiras que “administram” os ativos globais; b) na China e adjacências predomina a formação de nova capacidade produtiva; c) nos paraísos fiscais, a captura dos resultados.

O sistema financeiro também passou por transformações de monta, graças à globalização e à desregulamentação. Nas últimas décadas, as ondas de fusões e aquisições elevaram o grau de centralização: os 25 maiores bancos do mundo tinham 28% dos ativos dos mil maiores bancos em 1997; em 2009, mais de 45%. Dos 4 trilhões de dólares de transações diárias com moedas, 52% são realizadas pelos cinco maiores bancos. No que tange aos bancos de investimento, os dez maiores concentram 53% das receitas. Baseados, principalmente, nos 10% mais ricos, que geram 80% de suas receitas, os bancos conglomeraram-se e tornaram-se verdadeiros supermercados financeiros, capazes de oferecer todo tipo de serviço a pessoas físicas e jurídicas. O setor financeiro também se destaca no que se refere ao gasto em P&D. O investimento em TI (internet, caixas eletrônicos, servidores) alcançou 380 bilhões de dólares, em 2006.