Você está aqui: Página Inicial / Revista / Discussão errada, obras certas / Leitura equivocada
Número 874,

Economia

Análise/Opinião

Leitura equivocada

por Delfim Netto publicado 09/11/2015 04h50
Como um governo de início tão virtuoso perdeu-se num emaranhado que conduziu à confusão atual?
Manifestaçao-Contra-Juros

Centrais sindicais em protesto contra a alta nos juros / Créditos: Jaelcio Santana

tabela abaixo revela, implicitamente, o fantástico desequilíbrio fiscal estrutural que ficou visível depois que a queda do crescimento do PIB, em 2014, reduziu a receita primária do governo e não encontrou neste a disposição de enfrentar o crescimento endógeno das despesas primárias escrito na Constituição por minorias que nela garantiram a sua renda “na prosperidade e na desgraça”, à custa da maioria desatenta.

Estamos hoje diante de uma destruição do equilíbrio estrutural numa velocidade assustadora. O déficit fiscal médio no período de 2011 a 2013 foi bem-comportado, de 2,6% do PIB. Só em 2014 os efeitos do voluntarismo sobre a evolução da economia emergiram na sua plenitude, num inacreditável aumento de 16% na relação Dívida Bruta/PIB em apenas quatro anos! É claro que a taxa de juros no Brasil é um animal teratológico.

Há décadas temos a maior taxa de juros real do universo. E vamos continuar a tê-la, enquanto não nos convencermos de que a coordenação entre a política fiscal, a política monetária e a política de administração da dívida pública, tecnicamente muito boa, precisa de uma mudança radical para transformar a economia brasileira numa economia “normal”, com taxa de juro real “normal”, que reflita as condições e as expectativas de um país com sólidas instituições (as nossas estão cada vez mais fortes), com uma política econômica inteligente, adotada com cuidado e respeito às restrições físicas, históricas e geográficas.

Gráfico-PIB
O saldo negativo resultante da relação entre inflação e queda do PIB / Créditos: Baptistão

O pensamento mágico insiste em atribuir todos os nossos males ao “capitalismo”. Esse é mesmo problemático, mas tem pouco a ver com a questão do aumento da relação dívida/PIB e a tragédia do juro real. Ele será o mesmo no socialismo “ideal”, se um dia ele vier a existir, se os homens continuarem os mesmos e o governo cometer o mesmo erro de implantar um “voluntarismo” que ignora as restrições físicas da economia e o comportamento dos seus agentes.

A pergunta que não quer calar é esta: como um governo que começou tão virtuoso em 2011 perdeu-se num emaranhado de intervenções setoriais que conduziram à confusão que estamos vivendo em 2015? A minha hipótese é que a virtude de 2011 elevou a aprovação do governo Dilma a 92% no início de 2012 (65% de “ótimo-bom” mais 27% de “regular”, segundo o DataFolha), mas ela a leu muito mal. Apoiada nesses números, iniciou uma intervenção arbitrária na taxa de juros. O gráfico mostra a evolução da “aprovação” de Dilma e os movimentos da taxa Selic. É óbvio, não se trata de causalidade, mas é sugestivo sobre o comportamento da sociedade. 

Com o juro arbitrariamente no nível mais baixo e sua aprovação no máximo, ela aprofundou o voluntarismo-ativo: emitiu a Medida Provisória 579, em setembro de 2012, com o objetivo louvável de construir a “modicidade tarifária” e tornar o setor produtivo mais competitivo, o que, infelizmente, terminou no desastre antecipadamente anunciado... Daí para a frente, as intervenções voluntaristas se sucederam nos portos, nas concessões etc. Nunca, na história deste país, tanta boa intenção, com tanto apoio na sociedade, terminou tão mal... 

registrado em: , , ,