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Número 874,

Economia

Análise/Opinião

Emancipados e órfãos da CLT

por Thomaz Wood Jr publicado 05/11/2015 05h05
Uma pesquisa científica identifica as diferentes tribos surgidas da flexibilização dos contratos de trabalho
Valdecir Galor/SMCS

Uma das mais contundentes consequências da onda de reestruturações das cadeias produtivas, iniciadas na década de 1990, foi a flexibilização dos contratos de trabalho. Até então, as relações entre as empresas e seus empregados eram regidas por contratos padronizados e sustentadas por um pressuposto implícito de continuidade e perenidade. Naturalmente, em países em desenvolvimento como o Brasil, tal condição contemplava apenas uma parte dos trabalhadores. Aos demais, restavam a informalidade e a precariedade.

As mudanças iniciadas há três décadas foram dominadas pelos enxugamentos, poeticamente chamados de reengenharia, por sucessivas ondas de terceirização e redução do emprego formal nas grandes empresas. Hoje, coexistem no mercado diferentes tipos de contratos de trabalho.  

Em artigo recentemente publicado pela Revista de Administração da USP, Marcia Carvalho de Azevedo, da Universidade Federal de São Paulo, Maria José Tonelli e André Luis Silva, ambos da FGV-Eaesp, mostram como profissionais que já tiveram vínculos regulados pela Consolidação das Leis do Trabalho se posicionam diante da nova realidade de contratos flexíveis.

Os pesquisadores entrevistaram dezenas de trabalhadores qualificados e identificaram nove perfis, denominados PJ, paraquedista, indiferente, pragmático, independente, autônomo, empresário, ressentido e CLT. Com tal tipologia, criaram um retrato revelador de como a nova realidade de trabalho é vivenciada pelos profissionais.

Os PJs (pessoas jurídicas) são os profissionais que se adequaram sem traumas ao novo contexto e gostam de trabalhar como se fossem eles próprios uma empresa. Eles e elas apreciam a autonomia e a liberdade da condição de PJ, veem criticamente as restrições e impostos e valorizam a possibilidade de gerenciar sua rotina e passar mais tempo com a família.

CLT
As consequências da flexibilização do trabalho dividem opiniões / Créditos: Marcos Santos

Os paraquedistas são aqueles que, segundo os pesquisadores, “caíram de paraquedas” nos novos contratos flexíveis. Eles e elas não tiveram opção a não ser aderir ao novo formato. Não veem vantagem ou desvantagem, nem sentem nostalgia em relação ao formato antigo, apenas seguem a onda como algo inexorável. Os indiferentes assemelham-se aos paraquedistas. Seu foco são o trabalho e a remuneração. A forma de contrato pouco importa. Eles e elas simplesmente não pensam no assunto.

Os pragmáticos partilham algumas características com os indiferentes. Os pragmáticos escolhem seus contratos de acordo com as vantagens percebidas. Como os indiferentes, têm foco na remuneração. Eles e elas não valorizam os benefícios da CLT e dos contratos formais e acreditam que podem obter maiores vantagens com contratos flexíveis.

Os independentes veem as relações de trabalho como trocas comerciais. Eles e elas consideram as organizações como entidades autocentradas e egoístas, fundadas unicamente na busca de lucros. Sua relação de trabalho com as empresas é meramente profissional, sem vínculos emocionais. O sentimento de independência leva a desconsiderar e até mesmo a desprezar as regras e os rituais do mundo corporativo.

Os autônomos levam a sua liberdade ao limite, valorizam seu trabalho e evitam sempre que possível a condição de subordinação a uma empresa. Eles e elas apreciam a possibilidade de escolher o que fazem, como fazem, quando fazem e com quem fazem.

Os empresários são profissionais ambiciosos e acreditam que a legislação trabalhista fomenta a acomodação. Eles e elas creem firmemente na meritocracia e pensam que os contratos formais inibem o crescimento econômico dos profissionais.

Os ressentidos e os CLTs contrapõem-se às tribos anteriores. Os ressentidos lamentam a assimetria em sua relação com as empresas e as veem como as grandes beneficiárias da flexibilização dos contratos de trabalho. Os CLTs criticam a precarização do trabalho e experimentam intensa nostalgia em relação aos contratos formais. Ressentidos e CLTs, se tivessem a chance, optariam pela volta ao contrato formal.

Os autores do estudo frisam, no fim do texto, a multiplicidade de impressões que recolheram. Enquanto muitos entrevistados se revelam realizados com os formatos flexíveis, outros os avaliam de forma muito negativa. Alguns órfãos em meio a vários emancipados.