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Número 873,

Cultura

Exposição

Vigiar e punir

por Rosane Pavam publicado 30/10/2015 19h25
Xerox, pinturas e heliografias narram o combate de León Ferrari
Adenor Gondim
Releitura-da-Biblia

Página do álbum Releitura da Bíblia, de 1987

Em duas salas do Museu de Arte de São Paulo estão expostas, de 23 de outubro de 2015 a 21 de fevereiro de 2016, as 80 obras do argentino León Ferrari (1920-2013) que desde a sua doação pelo artista, em 1990, dormiram na biblioteca da instituição sob o signo da incógnita. Não se sabia, até que agora o confirmassem as netas Paloma e Ana, se se tratava de obras propriamente ou reflexões e esboços do artista destinados a projetos específicos. No entanto, especialmente desde que aportou no Brasil em 1976, fugido da ditadura argentina, o artista dedicou-se a movimentar suportes diversos, o que tornaria natural compreender esses experimentos como projetos em si.

De volta à apreciação do público brasileiro está o artista bem-humorado que, incansável ao denunciar a ação dos poderes, usou sua verve contra a opressão religiosa, como nos grupos Releitura da Bíblia e Parahereges, onde mostrou a Igreja do período plenamente apoiadora da militarização, da opressão sexual e da exclusão social.

Ou o artista inconformado com o controle ideológico exercido pelo Estado, como na série de heliografias em que recorreu ao desenho técnico e arquitetônico para ilustrar a opressão cotidiana sobre os cidadãos. Sem que aparentemente tivesse lido a obra do pensador francês Michel Foucault, ele usa a letraset para mapear os espaços públicos em que os seres são controlados a partir de cima, uniformizados, vigiados e punidos.

São de Ferrari as arquiteturas distópicas que, presentes em xerox na exposição e catalogadas pela primeira vez, igualmente remetem aos objetos deslocados pelo cineasta Luis Buñuel no filme O Fantasma da Liberdade, de 1974. E torna-se especial sua sala de aula arquitetônica segundo a qual, vistos a partir de cima, os alunos se põem subordinados à autoridade do professor. Por meio da linha clara, a partir da simples exibição da planta de um cômodo, o artista contesta o adestramento social promovido pelas escolas, faz a crítica de sua normalização social e denuncia a homogeneização da vida.