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Número 873,

Política

Síria

Putin limpa a área, o EI avança

por The Guardian — publicado 10/11/2015 04h34
Os ataques russos na Síria favorecem os extremistas islâmicos
Yasmin Al Tellawy/Demotix/Reuters
Militantes-do-EI

Militantes do EI retomam terreno na região de Alepo após bombardeios russos

Militantes do Estado Islâmico (EI) efetuaram seus avanços mais importantes na província de Alepo, o mais perto que chegaram da antiga capital comercial da Síria em dois anos, enquanto fica cada vez mais claro que eles têm sido beneficiados pelos ataques aéreos da Rússia contra o restante da oposição para marchar em território novo.

Enquanto os aviões russos continuam a bombardear as forças rebeldes no oeste de Alepo e em outras linhas de frente no país, muitos combatentes de oposição que expulsaram o EI da província com grande custo, no ano passado, viram-se encurralados e incapazes de conter o avanço quase livre do grupo terrorista em direção à cidade no sábado 17.

“Os aviões russos têm atacado o Exército Livre Sírio e estabelecido os alicerces para o controle pelo Estado Islâmico de áreas estratégicas de Alepo”, disse uma fonte do Tajammu al-Izzah, grupo moderado de oposição apoiado por países ocidentais e do Golfo Pérsico, que foi atingido por ataques aéreos russos. “A Rússia, na verdade, está apoiando o EI.”

A Rússia visou repetidamente grupos de oposição que lutaram contra o Estado Islâmico e o regime do presidente Bashar el-Assad desde que lançou sua intervenção militar na Síria, há mais de duas semanas. Rebeldes afirmam que a escalada dos ataques contra a oposição, que minimizaram a campanha de Moscou contra o EI, destina-se a desmembrar os rebeldes a tal ponto que a principal opção no conflito seja entre apoiar o regime Assad ou os extremistas islâmicos. 

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Ações militares da Rússia facilitam a progressão dos radicais / Crédito: Firas Khaife/Anadolu Agency/AFP

Aviões de guerra russos atingiram posições rebeldes na província de Hama, onde a oposição nos últimos meses obteve vitórias significativas, aproximando-se dos bastiões do regime Assad no oeste do país. A campanha aérea abriu caminho para uma ofensiva em terra do regime, embora esta tenha falhado até agora em conquistar territórios significativos, com os rebeldes utilizando mísseis antitanques TOW fabricados nos Estados Unidos para conter o avanço.

Além disso, a Rússia atingiu repetidamente posições rebeldes no oeste de Alepo, incluídas várias em posse da oposição moderada, como Liwa Suqour al-Jabal, facção vetada pelo Ocidente, atingindo depósitos de armas e prédios de comunicações.

De maneira mais significativa, os ataques no oeste de Alepo visaram os poucos grupos rebeldes que se mostraram capazes de combater o Estado Islâmico. “De um ponto de vista moral, o bombardeio pela Rússia das áreas controladas pelo Exército Livre Sírio e as facções islâmicas significa que os russos não estão tentando combater o EI, e sim reforçar o regime Assad”, disse um ativista bem conectado em Alepo.

Muitos grupos rebeldes na área uniram-se em uma grande batalha no início de 2014 que conseguiu expulsar o Estado Islâmico da maior parte da província de Alepo, assim como da província vizinha de Idlib, e a oposição perdeu mais de 1,5 mil homens no combate. Três meses atrás, o Estado Islâmico revidou, lançando tropas em direção à cidade de Azaz, no oeste, parte de uma linha de abastecimento crucial para os rebeldes perto da fronteira turca, mas encontraram dura resistência destes.

Putin
Putin está mais interessado em proteger Bashar al-Assad / Crédito: Alexey Druzhinin/Kremlin Pool/AFP
Na sexta-feira 16, aproveitando-se dos bombardeios russos no oeste de Alepo, que obrigaram os rebeldes a reforçar suas linhas defensivas no local, o Estado Islâmico voltou-se para o sul e em poucas horas tomou o controle de uma série de cidades e aldeias ao norte de Alepo, o mais perto que chegou desde que foi derrotado pela oposição.

“A Rússia entrou com a desculpa de combater o EI e quase não o bombardeou”, disse um oficial religioso que serve com o Jaysh al-Fateh, coalizão de rebeldes que combatem o governo Assad e cujos integrantes foram visados pelos ataques aéreos russos. “A Rússia não veio para lutar contra o EI. Por que ela e a coalizão norte-americana não os impediram de avançar no norte de Alepo quando enviaram veículos blindados pelo deserto à vista de todos?”, questiona.

“Está claro que tanto a Rússia quanto o regime estão depositando os alicerces para o EI”, acrescentou al-Fateh. “Temos uma piada aqui de que eles têm a mesma sala de operações.”

O avanço do grupo terrorista ocorreu no mesmo dia em que se soube que os EUA deveriam encerrar um programa de 500 milhões de dólares para treinar e equipar rebeldes moderados dispostos a lutar contra o Estado Islâmico, o que salienta a falta de uma estratégia ocidental para o conflito na Síria, agora em seu quinto ano e que já deixou mais de 250 mil mortos.

O projeto havia desmoronado nos últimos meses, com apenas 50 a 60 combatentes formados pelo programa a entrar na Síria. O chefe da unidade treinada pelos Estados Unidos foi rapidamente sequestrado pelo Jabhat al-Nusra, a filial da Al-Qaeda na Síria, e os combatentes foram diversas vezes alvo de emboscadas e ataques de militantes. Chegaram ao ponto de entregar suas armas em troca da passagem do grupo em segurança.

No último depoimento sobre o programa, autoridades norte-americanas admitiram que somente alguns combatentes continuavam no país. Muitos tinham se recusado participar do projeto porque viam o regime de Assad como seu principal inimigo.