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Número 873,

Economia

Análise/ Luiz Gonzaga Belluzzo

O espírito da desigualdade

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 30/10/2015 20h59, última modificação 01/11/2015 23h53
As últimas quatro décadas foram tempos de vacas magras para o emprego e vacas gordas para os lucros
Tânia Rêgo/ Agência Brasil
Henrique pereira de sousa sofre com o desemprego

Em Itaboraí, Henrique Pereira de Sousa, funcionário da Comperj, enfrenta o desemprego

Edward Wolff estuda o fenômeno do aumento da desigualdade de renda e de riqueza nos Estados Unidos desde os anos 90. Publicou artigos e livros esclarecedores a respeito do tema. Sugiro a leitura de Top Heavy, publicado em 1995. Nesse pequeno ensaio rigorosamente documentado, Wolff mostra como a ruptura do acordo social que sustentou as políticas de inspiração rooseveltiana promoveu a reversão das tendências à redução das desigualdades de renda e riqueza observada entre 1930 e meados da década de 70.

De 1973 a 2010, o rendimento de 90% das famílias norte-americanas cresceu apenas 10% em termos reais, enquanto os ganhos dos situados na faixa dos super-ricos, a turma do 1%, triplicou. Pior ainda: a cada ciclo a recuperação do emprego é mais lenta e, portanto, maior é a pressão sobre os rendimentos dos assalariados. Até meados dos anos 70, é bom relembrar, o crescimento econômico foi acompanhado do aumento dos salários reais, da redução das diferenças entre os rendimentos do capital e do trabalho e de maior igualdade na escala de salários. Em artigo publicado na revista Science & Society de julho de 2010, Wolff sustenta que a evolução miserável dos rendimentos das famílias de classe média foi determinada pelo desempenho ainda mais deplorável dos salários. Entre 1973 e 2007, os salários reais por hora de trabalho caíram 4,4%, enquanto no período de 1947 a 1973 cresceu 75%. A despeito da queda dos salários, durante algum tempo a renda familiar foi sustentada pelo ingresso das mulheres casadas na força de trabalho. Entre 1970 e 1988, elas aumentaram sua participação de 41% para 57%. Mas, a partir de 1989, o ritmo caiu vertiginosamente.

As políticas ditas neoliberais revelam as contradições cada vez mais aguçadas entre a economia fundada na lógica e no predomínio da acumulação sem fim de riqueza monetária e o atendimento das necessidades concretas dos homens e mulheres que só podem sobreviver civilizadamente em uma sociedade guiada pelo reconhecimento das incompletudes da sociabilidade forjada em um sistema de relações sociais em que a busca do dinheiro como finalidade da produção suscita a ambição por mais dinheiro. 

A economia capitalista dos últimos 40 anos foi restaurada em suas formas essenciais no momento em que a força política das classes proprietárias e dominantes submeteu o Estado e o colocou como executor dos projetos da desregulamentação financeira, fautor da flexibilização dos mercados de trabalho e garantidor dos movimentos de internacionalização da grande empresa. Entregue ao jogo entre a proteção desmedida de seus propósitos pelo Estado e as forças “naturais” que a movem na direção da concentração da riqueza e da renda, a economia capitalista falhou com grande escândalo em sua capacidade de gerar empregos, oferecer segurança aos que ainda conseguem empregar ou alentar os já empregados com perspectivas de melhores salários.

Nas últimas quatro décadas de vacas magras para o emprego e para os rendimentos, os lucros foram gordos para os especuladores financeiros e para as empresas empenhadas no outsourcing e na “deslocalização” das atividades para as regiões de salários “competitivos”.

As mudanças nos mercados financeiros nos últimos 20 anos acarretaram uma fantástica mobilidade dos capitais entre as diferentes praças, permitiram uma incrível velocidade da inovação financeira, sustentaram elevadas taxas de valorização dos ativos e, sobretudo, facilitaram e estimularam as fusões e aquisições de empresas em todos os setores.

Mobilidade do capital financeiro e, ao mesmo tempo, centralização do capital produtivo à escala mundial, essa convergência tem suscitado surtos intensos de demissões de trabalhadores, a eliminação dos melhores postos de trabalho, enfim, a maníaca obsessão com a redução de custos.

As mudanças tecnológicas, nas formas de concorrência, na organização e estratégia da grande empresa e na operação dos mercados financeiros, ocorridas nas últimas décadas parecem justificar a visão que celebra a supremacia dos mecanismos econômicos, da lógica do mercado sobre as tentativas de disciplinar e domesticar as forças simultaneamente criadoras e destrutivas do capitalismo. Depois de algum tempo encapsuladas pela sociedade e pelo Estado, as “tendências fundamentais” executam sua vingança: vigorosa economia de tempo e desvalorização do trabalho, intensificação da concorrência à escala planetária e, no mesmo processo, concentração e centralização de capitais, que se alimentam do caráter “patrimonialista” dos novos mercados financeiros e estimulam a autonomização da valorização fictícia da riqueza.