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Número 873,

Internacional

Israel

Netanyahu, o romancista

por Gianni Carta publicado 23/10/2015 14h48, última modificação 24/10/2015 09h25
Enquanto a 3ª Intifada dá seus primeiros passos, Bibi inventa um enredo impossível a respeito do Holocausto
AFP
Merkel-e-Bibi

Ao lado de Bibi, Angela Merkel põe os pingos nos is

O premier israelense Benjamin Netanyahu porta-se, aparentemente, como um vencedor: reescreve a história a seu favor. No entanto, usa a retórica distorcida de um líder desesperado diante de mais um conflito nascente: a terceira Intifada, a ameaçar a própria existência de Israel. Até quarta-feira 21, dez israelenses haviam sido mortos por palestinos, a maioria deles esfaqueada.

Por sua vez, 46 palestinos foram abatidos por armas de vigilantes israelenses e de soldados das Forças da Defesa Israelense (IDF). Vinte e cinco dos palestinos tombados teriam atacado um israelense, o resto morreu em conflitos contra o Exército, segundo a versão israelense.

Nunca o comércio de armas esteve tão próspero em Israel, informa a rede de televisão France 24. Por sua vez, em entrevista telefônica a CartaCapital, o professor de Ciências Políticas Magid Shihade, da Universidade da Califórnia, diz: “Essa é a primeira Intifada espontânea, isto é, não ligada a partidos ou a movimentos políticos”. 

Mais: “Todos os palestinos estão, pela primeira vez, unidos: aqueles da Cisjordânia, de Gaza, de Jerusalém Leste e da Galileia (palestinos com passaporte israelense desde a formação de Israel, em 1948)”. Em suma, por não ser liderado por uma legenda, o protesto palestino, espontâneo, representa uma ameaça maior: os jovens não querem negociar. “Estão cansados de agressões e expansões territoriais” por parte de Israel em território palestino. As duas anteriores Intifadas aconteceram entre 1987-1993 e 2000-2005.

Na quinta-feira 22, John Kerry, o secretário de Estado americano, voava para Berlim, onde conversaria com Netanyahu sobre como “acabar com a recente onda de violência”. Mais: os EUA ofereceriam apoio “para restaurar a calma o mais rapidamente possível”. Kerry certamente bem representa os EUA e Obama, eleito com a ajuda do lobby judeu, e, antes ainda de viajar para Berlim, deu um puxão de orelhas no presidente palestino Mahmoud Abbas.

Hitler
Até apologistas do Holocausto têm dificuldade em aderir à tese de Bibi / Tobias Schwarz/AFPW

Em conversa telefônica, aconselhou Abbas a evitar o uso de “retórica inflamatória”. Só poderia incitar ainda mais violência. De fato, no dia anterior, em encontro na capital alemã com Angela Merkel, Bibi, como é conhecido Netanyahu, havia repetido: Abbas incita a violência de jovens palestinos armados com facas.

O quadro é mais complexo do que aquele pintado pelo premier israelense. A começar pela reconstrução da história do Holocausto. Dias antes do encontro com Merkel, na terça-feira 20, Netanyahu defendeu a seguinte tese no Congresso Mundial Sionista, em Jerusalém: Adolf Hitler foi convencido a respeito da “Solução Final” pelo mufti de Jerusalém, o haj Mohamad Amin al-Husseini. Hitler e Al-Husseini se encontraram, de fato, em novembro de 1941.

Conforme versão romanesca de Bibi, “Hitler não queria exterminar os judeus, queria expeli-los”. Al-Husseini teria então dito a Hitler: “Mas, se você os expelir, eles virão para a Palestina”. A vocaçãode Bibi é mesmo a ficção e seu talento imaginário alcança o clímax quando conta que o ditador nazista pergunta ao mufti: “O que devo fazer?” Al-Husseini: “Queime-os”. O defensor da raça ariana deu ouvidos ao árabe, Bibi garante, impassível .

Até apologistas do Holocausto têm dificuldade em aderir à tese de Bibi. De saída, a chamada “Solução Final” já havia começado na Lituânia, em julho de 1941. Dois meses mais tarde, 33 mil judeus foram mortos, em 48 horas, pelos nazistas. A carnificina na Ucrânia deu-se nos subúrbios de Kiev. O encontro entre Hitler e Al-Husseini não teve impacto algum no Holocausto. Sim, o mufti era antissemita e não queria perder seu território. Mas a “Solução Final” foi uma estratégia pensada e implementada por Hitler.

A ficção de Netanyahu não convenceu sequer importantes figuras de Israel. O presidente Reuven Rivlin foi categórico: “Foi Hitler quem causou um sofrimento infinito em nossa nação”. Já o líder da oposição, Isaac Herzog, escreveu na sua página do Facebook: “Esta é uma distorção histórica perigosa, e exijo de Netanyahu que a corrija imediatamente, pois minimiza o Holocausto, o nazismo, e o papel de Hitler no terrível desastre de nosso povo”.

Ademais, acrescentou, Netanyahu, filho de historiador, não pode derrapar de tal forma. Mas Herzog não explicitou os dois objetivos de Bibi. Primeiro: criar novos amigos, os alemães, aliviados, nos sonhos do premier, por não terem sido os únicos responsáveis pelo Holocausto. Segundo objetivo: fomentar a islamofobia na Europa.

Netanyahu perde sua destreza política. Em uma coletiva à imprensa ao lado de Bibi, Merkel disse em Berlim, na terça: “Somos responsáveis pelo Holocausto”. O porta-voz de Merkel havia dito antes, em outra coletiva: “Falo em nome do governo alemão, e posso dizer que todos nós, alemães, conhecemos precisamente a história do fanatismo racista e assassino dos nacional-socialistas, que levou à ruptura com a civilização e à Shoah”.

Seria o caso de especular se os israelenses não estariam em busca de uma narrativa islamofóbica, como aquela antijudaica na Segunda Guerra Mundial. Faria sentido após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Reuven-Rivlin
O próprio presidente de Israel diz: o vilão monstruoso é mesmo Hitler / Michal Cizek/AFP

A guerra entre Israel e a Palestina desenrola-se também nas redes sociais. O ministério israelense do Exterior postou um vídeo de 24 segundos intitulado: “O que o Terror Palestino e o Estado Islâmico têm em comum?” No vídeo, exibem-se somente as atrocidades cometidas pelos palestinos.

Magid Shihade retruca: “A propaganda israelense quer enquadrar a questão palestina em um conflito religioso, e não como o resultado de um regime baseado em um colonialismo político que não permite a coexistência igualitária entre árabes e israelenses”. 

Em uma coluna do diário israelense Haaretz, Amira Hass concorda com Shihade. A mídia e as redes sociais criaram, em Israel, um inimigo: o “terrorista árabe”. Todos terroristas. A repórter da France 24 diz: “Israelenses não confiam em árabes, e vice-versa”.

Vigilantes israelenses armados com armas de fogo contra palestinos com facas. Os palestinos precisam ser “neutralizados”. Mas quais são as provas de que o palestino morto era um terrorista? E como comparar um “terrorista palestino” a um
jihadista do Estado Islâmico?

O professor Shihade explica: “Na verdade, quem apoia o EI é Israel”. O motivo? Entre outros, o EI luta contra o Hezbollah, o movimento libanês xiita a apoiar o presidente sírio Bashar el-Assad (com o apoio do Irã).

Sem contar outros movimentos radicais perigosos para Tel-Aviv. Viva a hipocrisia, diz Shihade: “O título do vídeo do ministério israelence deveria ser: ‘O que o EI e Israel têm em comum?” Shihade conclui: “A terceira Intifada já começou”.