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Número 873,

Economia

Governo Dilma Rousseff

"O governo está cada vez mais capturado"

por Carlos Drummond publicado 30/10/2015 21h01, última modificação 01/11/2015 23h52
Jovem surpresa do pensamento desenvolvimentista, Laura Carvalho aponta os erros do governo Dilma Rousseff
Carol Carquejeiro
Laura Carvalho

Aos 31 anos, ela vê o Brasil no debate tardio da austeridade

Aos 31 anos, Laura Carvalho é uma voz dissonante no debate nacional. Estrela em ascensão do pensamento desenvolvimentista, ela é minoria na Faculdade de Economia e Administração da USP, centro majoritariamente ortodoxo, onde leciona. A acadêmica orgulha-se, porém, de estar no lugar certo e na hora certa em dois momentos recentes. Para fazer o doutorado, desembarcou em Nova York em agosto de 2008, um mês antes da quebra do Lehman Brothers, da irradiação da crise financeira mundial e intenso debate econômico. Quatro anos mais tarde estava de volta ao Brasil, em outro instante crucial. “Passamos a viver aqui, com atraso, a mesma onda de austeridade.” Na entrevista a seguir, a jovem economista analisa as falhas do governo Dilma Rousseff. E as possíveis soluções para os impasses da economia.

CartaCapital: Quais foram os erros recentes da política econômica?

Laura Carvalho: Cada vez que o dólar sobe, gera certa comoção. E uma forte pressão, principalmente de agentes do mercado financeiro e investidores estrangeiros com ativos em real e das empresas endividadas em dólar, que perdem dinheiro. Há também os turistas em viagem ao exterior. Surge essa pressão de partes com poder na sociedade. Além disso, o governo lida com outros custos da desvalorização, entre eles, a inflação. Por causa desses fatores, o Brasil criou a tradição de usar o câmbio para segurar o aumento de preços. E isso não começou a ser feito no governo Lula. Vem de antes, desde o regime de metas de inflação, adotado em 1999. Abandonamos o câmbio fixo, ele passou a ser mais ou menos flutuante, mas não largamos o uso da taxa de juros para atrair capital estrangeiro, provocar uma valorização do real e controlar a inflação por essa via. A taxa de juros não é usada para contrair a demanda, até pelo fato de a Selic ter pouco impacto sobre os investimentos. Esses dependem do BNDES, das taxas de longo prazo. O consumo também responde pouco à elevação dos juros. A taxa é usada mesmo para controlar o câmbio.

CC: O que mais?

LC: O ajuste fiscal de 2011 não ajudou em nada, muito pelo contrário. Tornou-se mais um motivo da desaceleração do crescimento nos anos seguintes. Pouco se fala a respeito. É como se o primeiro mandato de Dilma Rousseff tivesse começado com expansão fiscal. Ao mesmo tempo, o governo tentou reduzir as taxas de juro. A queda muito brusca da Selic gerou uma desvalorização do real também muito veloz e a inflação acelerou-se. O crescimento do PIB diminuiu, pois tinha o ajuste, a crise na Europa, a estagnação do consumo por causa da elevação dos preços... Tudo desacelera ao mesmo tempo. O efeito positivo da desvalorização, de recuperar a competitividade da economia, acontece mais no longo prazo. Os pontos negativos aparecem, no entanto, rapidamente. E ocorre toda aquela pressão da qual falei. O governo entrou na ciranda de tentar salvar alguns setores, dar estímulos aos empresários de diversas maneiras na esperança de manter o nível do investimento. Mas nesse cenário ninguém vai comprar máquina e equipamento novos para produzir mais. Resultado: a economia despenca e o investimento cai junto. Foi um erro de natureza um pouco diferente do anterior. Talvez a opção correta fosse uma redução de juros mais gradual, sem o ajuste fiscal. Mesmo devagar e embora tenha aumentado um pouco as taxas no início, Lula conseguiu ao longo de seus dois mandatos reduzir substancialmente os juros.

CC: Seria um problema das medidas escolhidas ou da maneira como foram aplicadas?

LC: Usar a taxa de juros para sobrevalorizar o câmbio é um erro e ponto. A tentativa de reduzir os juros rapidamente não tem nada a ver com essa ideia de nova matriz, não é irresponsável, tem de 

reduzir os juros, não há problema nenhum. Porém, dadas as restrições políticas, as pressões, o Banco Central não sustentou depois essa redução. Dizia isso em 2011. Foi um erro de timing e de magnitude. E um pouco de estratégia também, por causa da conjuntura internacional.

CC: Como é possível evitar esse tipo de erro?

LC: Por que eles erraram? Naquele momento, apontava o debate público entre os economistas, o principal problema era o câmbio. Essa visão foi elaborada por economistas que Dilma Rousseff escuta bastante. Não digo que estavam errados, mas talvez o timing e a forma com que foram ouvidos tenham sido equivocados. Houve ainda a pressão dos empresários. Chamo-a de “agenda Fiesp”. A presidenta seguiu essa agenda: para recuperar a competitividade é preciso câmbio mais alto, redução de impostos e ajuste fiscal.

CC: Qual a sua crítica à agenda Fiesp?

LC: A desvalorização do câmbio é correta. Mas o ajuste como proposto, via corte de gastos, é um descalabro. A redução de impostos também não teria nenhum impacto, ainda mais sem contrapartida. Reclama-se que o governo não pode escolher vencedores. Um erro, pois em todos os países que se industrializaram houve uma escolha. Aqui é pior: não é o governo que escolhe os vencedores, são os vencedores que escolhem o governo. Bem, lá atrás a coisa degringolou e gerou um custo fiscal enorme. A perda de receita se acumula, as desonerações acabam por não ter efeito e as coisas se retroalimentam em uma espiral negativa, da mesma forma como antes se retroalimentavam em uma espiral positiva.

Dilma Rousseff
Dilma: menos investimento público, mais concessões. Créditos: Evaristo Sa/ AFP

CC: Por que se realimentam tão rapidamente neste momento?

LC: Se você olhar para o índice de confiança dos empresários desde o início do segundo mandato de Dilma, ele despenca. E não despenca depois da eleição, há até um aumento do indicador naquele momento. A ideia de que o atual ajuste fiscal vai produzir um aumento da confiança e levar os empresários a investir ignora a dinâmica do setor privado. Talvez o empresariado até defenda essa política, ache que está correta, mas o impacto sobre os negócios se dá da seguinte forma: cai o emprego, o salário e o consumo das famílias. Com isso recuam as vendas das empresas e elas passam a operar com capacidade ociosa. Não vão investir. O governo entrou, de certa forma, nesta ciranda, perde receita também, o que provoca mais pressão por corte de gastos. Em todas as crises de demanda acontece a mesma coisa. A única salvação seria se o resto do mundo crescesse bastante e estimulasse a venda de commodities. Mas com o comércio e o preço dos nossos produtos em queda, fica-se sem nada. O que será o motor?

CC: Tem uma ideia?

LC: O governo aposta nas concessões para estimular o setor privado. Um problema: o processo demora uma eternidade. Outro: a proporção da participação privada é muito pequena. O governo Dilma deixou de apostar desde o primeiro momento no investimento público. Prefere as desonerações e as concessões, na esperança de o setor privado assumir esse papel. Não aconteceu.

CC: Quais as falhas do segundo mandato?

LC: A primeira parte da desaceleração resulta do ajuste de 2011, dessa mudança estratégica que mencionei. O novo ajuste, este de 2015, produziu ainda mais efeitos negativos em uma economia que patina. Partiu-se do pressuposto de que seria rápido, um ajustezinho. E ele nada tinha de “inho”. Anunciaram um programa fora da realidade, sem chance de se tornar factível, dada a desaceleração da economia. Tiveram de rever e isso gera na população o sentimento de que está todo mundo em crise. Vou perder meu emprego etc. Os consumidores param de gastar e os empresários, de investir. Certamente, o impacto da quebra de confiança é muito maior do que o efeito direto do corte de gastos.

CC: Dá para salvar alguma coisa da política econômica atual?

LC: Os programas sociais foram mantidos e isso é bom. Dilma também não alterou a política de reajuste do salário mínimo, com ganho real. Até agora não houve retrocessos no Sistema Único de Saúde. O governo está, no entanto, cada vez mais capturado. Veremos o que acontece. 

*Entrevista publicada originalmente na edição 873 de CartaCapital, com o título "Crítica renovada"