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Número 873,

Saúde

Câncer

Fosfoetanolamina, um composto polêmico

por Miguel Martins publicado 30/10/2015 04h29
A liberação de uma nova “droga” contra o câncer divide opiniões na comunidade científica
Daniel Marenco/ AG. O Globo

Presente no organismo humano, a fosfoetanolamina é o centro de uma polêmica que opõe pacientes de câncer em busca de uma última esperança e médicos e pesquisadores em defesa de estudos rigorosos sobre sua eficácia.

Sintetizada há mais de 20 anos por Gilberto Chierice, professor aposentado do Instituto de Química da USP em São Carlos, no interior paulista, o composto tem sido alvo de diversas pesquisas com animais que apontam seu potencial no combate a células cancerígenas.

O cancerologista Renato Meneguelo, integrante da equipe de Chierice, apresentou em 2007 um estudo com a substância em células tumorais de melanoma, um tipo de câncer de pele, injetadas em animais. Ao comparar o efeito da fosfoetanolamina com quimioterápicos, o cancerologista constatou que a regressão da doença nas cobaias foi mais eficaz com o uso do composto. Outras pesquisas semelhantes foram realizadas com relação à leucemia, cânceres de rim e de colo, todas com resultados promissores.

Diante do interesse crescente de pacientes de câncer, Chierice passou a distribuir o composto antes mesmo de dar início a um estudo clínico com seres humanos, etapa fundamental para a fosfoetanolamina passar a ser considerada medicamento pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Gilberto Chierice
Gilberto Chierice: Há 20 anos, a síntese do componente. Créditos: Reprodução

A distribuição das cápsulas perdurou até o ano passado, quando a universidade proibiu a produção do composto. Pacientes então buscaram um caminho que tem se mostrado eficaz para a obtenção de drogas não registradas na Anvisa: a Justiça. Em 6 de outubro, Edson Fachin, ministro do Supremo Tribunal Federal, concedeu liminar para um paciente de câncer em estado terminal ter acesso às cápsulas da USP.

Em seguida, o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu diversas liminares a pacientes, o que levou a uma corrida ao Instituto de Química. A liberação foi alvo de críticas da comunidade médica e de cientistas. “O desespero de familiares de um paciente terminal não deve ser falsamente mitigado por produtos que não cumpriram as etapas envolvidas”, afirma Reinaldo Guimarães, ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde.

Em 2008, Meneguelo e outros integrantes da equipe de Chierice reuniram-se com o oncologista Antonio Buzaid no Hospital Sírio-Libanês para discutir a possibilidade de estudos clínicos da fosfoetanolamina com seres humanos. Meneguelo afirma que as negociações para dar início à pesquisa com a equipe do oncologista estavam adiantadas, mas diz desconhecer os motivos de não terem prosseguido. Por sua vez, Buzaid afirma que a desistência partiu dos pesquisadores da USP e se mostrou disposto a retomar o estudo neste momento. Independentemente da falta de comunicação entre as partes, a polêmica pode reabrir o caminho para uma pesquisa séria sobre o composto. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 873 de CartaCapital, com o título "Composto polêmico"