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Número 873,

Sociedade

Gastronomia

À mesa com os ditadores

por Nirlando Beirão publicado 09/01/2016 20h57, última modificação 09/01/2016 20h57
Alguns eram requintados. Não há notícia de quem comesse fígado – de seus adversários
Hugo Jaeger/Timepix
Hitler

Hitler e Eva Braun, antes do repasto de cianeto

mesma voracidade com que os déspotas se atracam ao prazer incontido de dominar e de subjugar, a gente poderia legitimamente esperar deles no que diz respeito às suculentas exortações da mesa. Nem sempre isso é verdade. 

A vocação autoritária sugere, sim, uma pulsão sensual sem limites e costuma ser acompanhada de um fascínio exibicionista pela oralidade – discursos, balcões, redes nacionais de tevê. No entanto, à mesa há tiranos surpreendentemente inapetentes, como António Salazar, supremo mandatário de Portugal entre 1932 e 1968, ex-seminarista asceta e solteirão a quem sardinhas na brasa com feijão bastavam no dia a dia; enquanto há outros autocratas cujo desmando selvagem contradiz um sofisticado culto seu à sutileza gastronômica.

O mais notável exemplo dessa contradição vem de Kim Jong-il, que governou a Coreia do Norte com pulso de aço e palato de mel entre 1994 e 2011 (seu filho, Kim Jong-un o substitui no governo desde então).

Mao-Tse-Tung
Mao mantinha a forma com o arroz DOC dos imperadores / Crédito: Lyu Houmin/China Photo Press

De acordo com Victoria Clark e Melissa Scott, autoras de Dictator’s Dinners (subtítulo: A bad taste guide to entertaining tyrants, Editora Gilgamesh), o líder supremo dos comunistas coreanos era um gourmet infatigável, ansioso por abastecer suas refeições com itens como caviar iraniano, mangas tailandesas, salsichas de porco dinamarquesas e uns pastéis japoneses de arroz aromatizados com alecrim – acepipe que lhe custava mais de 120 dólares, cada pastelzinho. 

Sua paixão pelo sushi o fez recrutar um extraordinário chef nipônico, Jenki Fujimoto. “Gostava de peixe tão fresco que às vezes dava a impressão de levá-los à boca quando ainda se mexiam”, contou o chef.

Kim Jong-il era tão obcecado pela minúcia quanto o mais radical dos foodies. Tinha um exército na cozinha para assegurar que os grãos de arroz selecionados tivessem o mesmo tamanho. Os súditos passavam fome, enquanto ele se regalava com sua iguaria dos sonhos – sopa de barbatana de tubarão – que era lentamente cozida em fogão a lenha, com madeira procedente de uma determinada montanha próxima da fronteira com a China.  

O títere da Coreia foi, enquanto viveu, o melhor cliente do conhaque francês Hennessy. E sua adega armazenava mais de 10 mil garrafas de valiosíssimos bordeaux e bourgognes. 

As duas pesquisadoras inglesas – que tiveram a ideia do livro, bem a propósito, num restaurante, enquanto esperavam a sobremesa e discutiam política internacional – escrutinaram os cardápios de 25 dignitários não muito afeitos a detalhes como eleições livres e democracia representativa.

Acabaram por incluir figuras de reputação ambígua, como Fidel Castro, em quem descobriram, assim como em King Jong-il, um glutão sofisticado, fascinado por sopa de tartarugas e capaz de ensinar o tempo correto para o cozimento de uma lagosta (11 minutos, no forno, 6 minutos, na brasa, alinhada com manteiga, limão e alho).

Fidel-Castro
Fidel aprendeu com os pescadores o tempo ideal de preparo de uma lagosta socialista / Crédito: Prensa Latina/Reuters

O revolucionário cubano queria que Cuba produzisse uísque, e queijo francês. Com exceção do queijo brie, que ainda frequenta a mesa dos convidados do regime, o resto foi um sonho que passou.

A propósito do foie gras, o livro de receitas dos tiranos demonstra como, para alguns deles, o que vem à mesa acaba por ganhar um sabor político. Adolf Hitler e Benito Mussolini carregavam a bandeira do vegetarianismo, o que levou o fuehrer a banir da Alemanha o delicioso patê de fígado de ganso e il Duce, num país de távolas tradicionalmente suculentas, a desprezar a carne e o vinho. 

Para os nazifascistas, a austeridade ao comer vinha a ser um atributo viril. Já o coleguinha de ideologia e de barbárie, o espanhol Francisco Franco, regia no Palácio de El Pardo, com o toque da cozinheira Carmen Polo, festins espanholíssimos e francamente burgueses, com abundância de merluzas (seu peixe favorito), mexilhões e vieiras. Às quintas-feiras, dirigia-se a algum restaurante, sem avisar, para encarar uma capitosa paella. Franco achava os achaques vegetarianos uma tendência “perigosamente socialista”. 

Na verdade, Hitler era vegetariano apenas da boca para fora. Da boca para dentro, frequentemente comprazia-se com galetos recheados com pistache e pedacinhos de miúdos de boi. Certa vez confidenciou a uma chef inglesa sediada num hotel de Hamburgo que não havia nada no mundo como bolinhos fritos de fígado. Não se referia, esclarece ela, ao de seus adversários. 

A discurso natureba do nazismo fingia apiedar-se da sorte de animais ameaçados e, além de banirem o foie gras, as autoridades do Reich, no mesmo momento em que encarceravam judeus e dissidentes, discutiam a sério sobre a triste sina das lagostas aprisionadas nos aquários dos restaurantes. Hoje, sabe-se que os rigores dietéticos do regime tinham a ver, isso sim, com um prosaico probleminha: a crônica flatulência que acometia o fuehrer. 

Combatia-a com 28 diferentes drogas – sem contar as anfetaminas que o mantinham naquele clima de permanente histeria – e seu médico, Dr. Theodor Morrell, ainda recorria a elixires com base em arsênico mata-ratos e a injeções com substância destilada de fezes de camponeses da Bulgária. 

Incontrolável flatulência e severa constipação seriam, décadas depois, o pesadelo de outro déspota, Muammar Kaddafi (no poder, de 1969 a 2011). Antes de uma visita à Líbia, o então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, foi advertido pela assessoria de que em hipótese alguma deveria aceitar o leite de camela que o déspota do deserto sorvia, copo após copo. As consequências poderiam ser escatológicas. O melindroso aparelho digestivo de Kaddafi aliviava-se com pasta à italiana e cuscuz com carne de dromedário.  

Adolf-Hitler
À frente de uma plateia, o Fuehrer se fazia de vegetariano / Crédito: The Print Collector
Massa – difícil acreditar – era coisa da qual Benito Mussolini mantinha-se impenitentemente afastado, ele que mandou e desmandou entre 1922 e 1943 no país por excelência da pastasciutta. Sempre recoberto pelo glacê de um discurso ideológico, o menu das restrições alimentares do Duce obedecia a outro tipo de malaise: gastrite.

Compensava a dieta com prodigiosas tigelas de alho cru regado a azeite e limão. Paradoxalmente, uma bomba ácida. Mas dizia que era bom para o coração. Comia tanto alho que a mulher, Rachele, tinha com frequência de se refugiar, à noite, no quarto das crianças. 

De todo modo, Mussolini era um insistente propagandista da culinária italiana, que dizia ser a melhor do mundo (em contraposição, por exemplo, à badalada gastronomia francesa, que ele considerava “um lixo”).

O trigo era um dos ícones da simbologia fascista e o próprio Mussolini chegou a escrever um poema elogiando o pão (orgulho do trabalhador/poema do sacrifício). Mas não se privava, ao final dos tímidos e esquisitos repastos, da fatia de um bolo tipo da nonna – o ciambellone.

No outro extremo do arco-íris ideológico, os líderes comunistas – ainda hoje acusados, no Brasil, de serem devoradores de criancinhas – não se acanharam em cultivar caprichos de mesa bem burgueses e capitalistas.

O romeno Nicolae Ceausescu (executado em 1989 ao final de 24 anos de ditadura) costumava irritar seus convivas porque – assim como faz a Seleção Brasileira de futebol, com suas panelas de feijão e de farinha – levava nas viagens internacionais chef e ingredientes próprios. Adorava um ensopado de galinha com tudo em cima – pés, bico, crista.

Já o camarada Stalin contentava-se, mesmo nos lautos fins de semana em sua dacha de Kuntsevo, com as especialidades de sua Geórgia natal. O insensível dirigente soviético ia às lágrimas diante de um satsivi, uma espécie de gulash elaboradíssimo, com nacos de peru e servido frio com um molho de nozes.

Carnívoro feroz, comilão dos melhores, Mao Tsé-tung queixou-se certa vez da terrível prisão de ventre que lhe acometeu enquanto visitava Stalin em Moscou. Pôs a culpa na comida. Como bom chinês, Mao adorava arroz – mas um tipo DOC, de região demarcada, especial desde o tempo dos imperadores.  

A confluência do apuro culinário com a compreensiva paranoia do envenenamento reabilitou, em muitos desses modernos redutos de totalitarismo, a figura do provador de comida, que as cruéis cortes do Renascimento conheciam muito bem.

Hitler esperava uma hora para tocar na comida depois que as cobaias humanas as saboreavam preventivamente – e sobreviviam a ela. Saddam Hussein tinha um desses degustadores.

Aliás, 12, porque todo dia 12 refeições simultâneas lhe eram preparadas, já que, por razões de segurança, nunca se sabia previamente em que casa o governante do Iraque jantaria (ele petiscava azeitonas nos intervalos e dizia, ao cuspir os caroços, que iriam igualmente cuspir os israelenses do Oriente Médio).

Um dia, Uday, sanguinário filho de Saddam, matou um dos provadores ali mesmo à mesa. Desconfiou que ele trocara sorrateiramente o prato de carpa na brasa. 

As pesquisadoras do Dictator’s Dinners, por mais minuciosas que tenham sido, não encontraram evidências do mito, amplamente difundido na África negra, de déspotas-canibais, que irrigavam suas vítimas ao molho pardo, na tradição de certos ritos tribais. Idi Amin, de Uganda, e Francisco Nguema, da Guiné Equatorial, foram para o túmulo com a fama.

O exuberante Jean-Bédel Bokassa, que tiranizou a República Centro-Africana entre 1966 e 1979, a ponto de se autoproclamar imperador, teria experimentado, segundo um cozinheiro seu, filé de carne humana recheado com arroz e flambado no gim. Como o dito mestre-cuca não conseguia sequer informar o sexo da iguaria, ninguém o levou muito a sério.