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Número 872,

Economia

Opinião

O capitalismo não é uma coisa

por Antonio Delfim Netto — publicado 20/10/2015 04h55
Ele é só um instante passageiro do processo histórico, não é natural nem eterno, como defendem alguns economistas
Karl-Marx

Se Marx ressuscitasse, se surpreenderia e se entusiasmaria com a metamorfose do seu capitalismo

Para entender o mundo em que, por falta de alternativa, temos de viver, precisamos reconhecer o homem como é, um animal terrivelmente complicado. Enquanto ele priorizar a sua liberdade de escolha; enquanto for, souber e sentir que é diferente do “outro”; enquanto nem mesmo a mais longa privação da sua liberdade for capaz de incorporar no seu DNA um comportamento comunitário instintivo (a hipótese lamarckiana), continuará a sê-lo. Isso não nega sua natural empatia, e solidariedade, nem um natural altruísmo com relação ao “outro”.

É por isso que a organização social “civilizada” que ele vem tentando construir por meio de uma seleção histórica (que imita a biológica, mas tem finalidade) respeita essa característica. Como queria um velho companheiro, no rascunho original do Manifesto, “uma sociedade na qual cada um dos seus membros possa usar sua energia e suas capacidades na mais completa liberdade sem infringir os seus fundamentos”.

Trata-se de um longo processo para o qual não existe curto-circuito. Avança lentamente, impulsionado pelo uso continuado de uma invenção do homem – o sufrágio cada vez mais universal – que os trabalhadores organizados em sindicatos durante a Revolução Industrial conquistaram para escolher o poder incumbente.

Ele mitiga, com o voto na urna (onde a igualdade é cada vez mais completa), o poder econômico do capital e empodera aqueles que, para viver, têm como única alternativa vender-lhe sua força de trabalho. O que chamamos de “capitalismo” é apenas um instante passageiro desse processo histórico. Nem é natural, nem é eterno, como insistem em supor alguns economistas.

Ele acelerou o nível de desenvolvimento dos países que o adotaram e promoveu uma distribuição de seus benefícios, ainda que precária. E respondeu melhor do que os inventados por cérebros peregrinos que sempre terminaram destruindo a liberdade e negando a igualdade, numa dramática redução da eficiência produtiva. As críticas morais devastadoras de Marx ao capitalismo do século XIX e a dos socialistas fabianos (não marxistas) do século XX foram ingredientes importantes na “civilização” do capitalismo.

Toda simplificação de um problema complexo é, por definição, uma caricatura problemática! Mas não se fará uma traição muito comprometedora se supusermos que tanto os economistas que Marx chamava de clássicos quanto ele mesmo sempre duvidaram que os efeitos e benefícios da acumulação do capital e do progresso técnico acabassem, no “capitalismo”, migrando para a mão de obra na forma de aumento dos salários reais. Nunca separaram o crescimento da distribuição de seus frutos e, por isso, nunca foram muito otimistas.

Nenhum dos clássicos (nem Marx), entretanto, pôde testar suas teorias a partir de 1870, quando o crescimento da população, a incorporação de novas tecnologias, as inovações, a revolução energética, a expansão dos mercados pelo aumento da renda e pela geografia aceleraram o aumento da produtividade da mão de obra (o codinome do desenvolvimento econômico) e o crescente empoderamento do cidadão-trabalhador pelo sufrágio cada vez mais universal mudou a distribuição de seus frutos.

Se Marx ressuscitasse hoje, provavelmente se surpreenderia e se entusiasmaria com a fantástica metamorfose do seu capitalismo “inovador e revolucionário” sob a pressão organizada do cidadão-trabalhador empoderado pelo sufrágio cada vez mais universal. Talvez lamentasse o uso desastrado de suas ideias no século XX, por asseclas que não as entenderam.

E continuaria, ainda, a achar o “capitalismo do século XXI” injusto e profundamente imoral. Teria mais cuidado, entretanto, em sugerir remédios para corrigi-los, além de: 1. Propiciar ao cidadão-trabalhador mais educação para respeitar os limites físicos impostos pela realidade. 2. Continuar a insistir no seu empoderamento para eventualmente superá-los.