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Número 872,

Política

Operação Lava Jato

Presidente da Sabesp assinou contrato investigado na Lava Jato

por Henrique Beirangê publicado 27/10/2015 04h25
Jerson Kelman foi diretor da Light, empresa do grupo Cemig, durante o governo tucano em Minas Gerais
Tasso Marcelo

Dentro da infinidade de contratos e personagens na mira da Operação Lava Jato, muitos nomes deixaram de ser divulgados e até mesmo investigados. Vários deles por deslizes involuntários da operação ou por conta do volumoso número de envolvidos. Um personagem que parecia sair ileso é o atual presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Jerson Kelman. Escolhido pelo governador Geraldo Alckmin para substituir Dilma Pena à frente da companhia em janeiro deste ano, Kelman tem um desafio hercúleo: dar cabo da crise hídrica. Mas para além da missão inglória, o executivo em breve poderá ser chamado pelos investigadores de Curitiba para falar de sua passagem pela companhia Light entre 2010 e 2012.  

Kelman foi diretor-presidente da empresa energética do Rio de Janeiro e seu nome aparece em uma assinatura na folha de número 28 do inquérito que investiga uma operação envolvendo o doleiro Alberto Youssef e o ex-ministro do atual senador Fernando Collor, Pedro Paulo Leoni Ramos, o PP. Kelman assinou um instrumento particular de cessão onerosa pela Light que pagou à empresa Investminas, de Leoni Ramos, 25 milhões de reais por 51% da participação nos direitos de outorga de quatro pequenas centrais hidrelétricas em Minas Gerais, pertencentes à Guanhães Energia. O que chama a atenção dos investigadores são os detalhes da operação.   

A quantia desembolsada pela Light, que tem entre seus controladores a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), demonstra pouca preocupação com o dinheiro público. O termo foi assinado em 2012 e estava previsto que as centrais começassem a funcionar em 2013. Até hoje, nenhum quilowatt foi produzido.

Mas a investigação quer saber mesmo é se houve pagamento de vantagens ilícitas no contrato com o grupo da estatal mineira, na época sob o governo do hoje senador tucano Antonio Anastasia. As ligações dos envolvidos não são nada auspiciosas. PP, ex-ministro de Collor e beneficiário da venda das outorgas para a estatal mineira, foi acusado, com Collor, no Supremo Tribunal Federal (STF) por fraudes em contratos da BR Distribuidora.   

Leoni tem ligações com doleiros e também é investigado por supostas fraudes no ramo previdenciário. Essas apurações ainda estão em andamento em Curitiba e podem ensejar novas ações penais.  

Contrato
O contrato rendeu 4,3 milhões de reais a uma empresa de fachada de Alberto Youssef / Estadão Conteúdo

Mas a trama em torno das centrais energéticas envolve mesmo é um contrato simulado. Por meio de uma de suas empresas de fachada, a MO Consultoria, Youssef recebeu 4,3 milhões de reais da Investminas. Segundo o ex-ministro de Collor, tudo legal. A empresa informou aos investigadores que Youssef teria sido remunerado por ter feito a intermediação da venda de 51% das cotas de participação da Guanhães Energia à Light. Mentira, segundo o doleiro. Youssef afirmou em depoimento que não prestou nenhum serviço na realização do negócio e que o contrato foi simulado para que Leoni Ramos mandasse dinheiro para uma contabilidade paralela que o doleiro mantinha para ele.  

O juiz Sergio Moro, que já se manifestou em despachos contrário ao desmembramento das investigações que não tenham relação direta com a Petrobras, nesse caso parece não ter enxergado conexão quando a apuração envolve os negócios tucanos em Minas Gerais. Em um dos trechos do inquérito, afirma Moro: “Aparentemente, trata-se de negócio que, embora suspeito, não estaria relacionado aos desvios na Petrobras”.

Alertado por CartaCapital, um dos investigadores reconheceu que não sabia que Kelman ocupava atualmente posto em uma estatal. “Essa nova informação deverá ter um tratamento no andamento do inquérito. Todos precisam ser ouvidos.”  O inquérito ainda precisa de mais detalhes para ser concluído e a expectativa é de que com o surgimento de um nome de peso nas investigações outras pessoas interessadas em dar informações sobre o caso possam aparecer.

Kelman-e-Alckmin
Geraldo Alckmin cumprimenta Jerson Kelman, presidente da Sabesp / Divulgação

Youssef afirmou que a tramoia da operação serviu para disponibilizar dinheiro em espécie para Leoni Ramos e que as entregas foram feitas pessoalmente por meio de seus funcionários Rafael Ângulo Lopez, o mesmo que afirmou ter entregado dinheiro pessoalmente a Collor, e Adarico Negromonte, irmão do ex-ministro das Cidades Mário Negromonte. O doleiro foi questionado pelos investigadores e disse que não tem conhecimento se foram pagas vantagens indevidas para funcionários da estatal mineira para que o negócio fosse fechado.  

Se os promotores mineiros tiverem interesse, poderão encontrar informações capazes de esclarecer como o dinheiro público costuma ir para o ralo ou para pessoas com espírito não republicano.  

A decisão da aquisição das pequenas centrais hidrelétricas passou pelo Conselho de Administração da Light, sob pressão da Cemig,  Segundo pessoas próximas a Kelman, ele teria ficado irritado com o surgimento de seu nome nas investigações e teria muitas informações de que uma empresa de consultoria teria até mesmo alertado ao conselho que o negócio era inviável. 

Em nota, Kelman disse que a compra foi decidida por iniciativa do conselho. “Como presidente da Light, eu não fazia parte do conselho e a ele me subordinava. Como me opunha à compra por duvidar que seria possível vender a energia a preço que tornasse a usina rentável, a Cemig comprometeu-se a comprar toda a futura produção, o que viabilizou economicamente o negócio para a Light.”

Com a expectativa de que Kelman seja chamado  em Curitiba, o que é dado como certo, o executivo teria de entregar quem pressionou para que o acordo fosse firmado. Ou assumir sozinho a responsabilidade. Tucanos mineiros que se cuidem.  

*Reportagem publicada originalmente na edição 872 de CartaCapital, com o título "Negócio suspeito na Light"