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Número 872,

Internacional

Turquia

Aqui, a ameaça da guerra civil

por Gianni Carta publicado 17/10/2015 14h22, última modificação 18/10/2015 03h00
Erdogan combate em duas frentes: com as forças da Otan contra o EI e, dentro das fronteiras do país, contra os curdos
Recep Yilmaz/ Reuters/ Latinstock
Chacina na Turquia

Chacina: deste episódio terrificante, Erdogan só falou três dias depois

senhor é um ditador?” Coletiva  à imprensa em Ancara terça-feira 13, um jornalista dispara a pergunta. Impassível, o presidente turco Recep Tayyp Erdogan rebate: “Se eu fosse um ditador o senhor não poderia me fazer essa pergunta”. Convincente? A Turquia conta com um dos maiores índices de jornalistas presos no mundo. 

Ao lado do presidente finlandês, Sauli Niinistö, Erdogan manifesta-se pela primeira vez sobre o atentado de dois homens-bomba (possivelmente um homem e uma mulher), diante da estação central de trem de Ancara. As bombas no sábado 10 deixaram 97 mortos, segundo o governo. Os alvejados, ativistas pró-curdos e esquerdistas que participavam de uma manifestação pela paz, segundo fontes da oposição os mortos seriam 128 e 500 os feridos. Tratou-se do mais sangrento ataque terrorista na história do país. Mesmo assim, passaram-se três dias antes que o presidente fosse a público para falar a respeito. Por que tanta reticência vinda de um homem nada avesso a discursos, especialmente diante de um incidente trágico com profundo impacto nacional? Ainda mais em um momento político tão crucial, em que os turcos se preparam para as eleições gerais em 1º de novembro.

Após o atentado e o longo silêncio do presidente, uma fonte graúda que prefere o anonimato voltou a falar em forças ocultas. Tema corriqueiro na Turquia. Haveria um conúbio entre a máfia, militares e o serviço secreto com a seguinte missão: aguçar o conflito entre turcos étnicos e os 20% da minoria curda, em um país de 77 milhões de habitantes. Assim, no pleito seguinte, venceria o nacionalismo, isto é, Erdogan. Mais uma teoria conspiratória? No sábado 10 e domingo 11, amigos e parentes das vítimas tentavam chegar à estação de trem. Em vão. Eram afastados pelas forças de segurança pelo emprego de gás lacrimogêneo. Motivo: cem experts investigavam o local do ataque. O povo gritava: “Erdogan assassino”. No domingo 11, caças turcos mataram 49 guerrilheiros nas montanhas do Curdistão turco.

Erdogan
Povo se manifestou com gritos de "Erdogan assassino". Créditos: Mehmet Ali Ozcan/ Anadolu Agency/ AFP

Teriam sido os radicais curdos os responsáveis pelo atentado? Erdogan, ou as supostas forças ocultas, parecem apreciar essa dúvida. E, claro, o governo descarta qualquer envolvimento no ataque. Na coletiva de terça-feira, Erdogan disse: “As bombas em Ancara têm elos com a Síria, segundo informação da inteligência recebida pelo governo”. Ou seja, o Estado Islâmico teria tramado a carnificina. Sempre de acordo com dados dos serviços secretos, o atentado de sábado teria semelhanças com aquele ocorrido em julho em Suruç, cidade na fronteira com a Síria, quando 34 pessoas, em sua maioria ativistas curdos, perderam a vida. À época, o governo turco acusou o Estado Islâmico. A oposição não acreditou na versão do governo. Assim, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) atacou as forças de segurança turcas. Por tabela, naufragaram as negociações de paz entre o governo e os curdos. Há quem diga que Erdogan buscava o diálogo para angariar maior número de votos para seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) nas legislativas de 7 de junho deste ano. Não foi o caso.

A grande surpresa, no pleito em junho, foi a marcante presença de Selahattin Demirtas, exímio orador de 42 anos a liderar uma formação secular de esquerda, pró-curda e pró-minorias, o Partido Democrático do Povo (HDP). Nunca, desde a imposição da barreira dos 10% imposta por militares golpistas há quatro décadas, uma agremiação de núcleo curdo havia adentrado o Parlamento. Com 80 cadeiras ante 258 do AKP, o HDP tornou-se a pedra no sapato de Erdogan. O AKP, legenda conservadora de inspiração islâmica, perdeu 10% de seu eleitorado no escrutínio de junho. Amealhou 40,9% dos votos. Viu-se, portanto, obrigado a formar um governo de coalizão. Não conseguiu, daí a convocação de eleições antecipadas para 1º de novembro.

Orhan Pamuk, Nobel de Literatura em 2006, disse ao diário italiano La Repubblica que, ironia das ironias, Erdogan, apesar de as negociações com os curdos terem sido frutíferas em um primeiro momento, “perdeu o voto dos curdos, decisivo nas urnas”. Na ribalta da política turca faz 13 anos, três vezes consecutivas como premier e desde agosto de 2014 como primeiro presidente da República eleito de forma direta na história do país, Erdogan, diz Pamuk, ficou “nervoso”. O motivo principal? Sem maioria absoluta no Parlamento, Erdogan não pôde mais organizar um referendo para transformar o sistema político parlamentar em presidencial. Pamuk confirma: “Não satisfeito de como vão as coisas, o governo e o Exército resolveram recomeçar a guerra contra o movimento curdo”. Esses ataques, vale exprimir, são direcionados contra os curdos na Turquia. E, juntamente com os aliados, as forças turcas não atacam somente o EI, mas também os curdos na Síria. Algo que parecia não estar nos planos dos outros aliados.

mortos no atentado de Ancara
Demirtas (no enterro das vítimas) tornou-se o principal opositor político. Créditos: Burak Kara/ Getty Images/ AFP

Enquanto isso, mais de 2 milhões de refugiados sírios estão na Turquia, para inquietação da União Europeia. Parte desse contingente quer mesmo alcançar o chamado Velho Mundo, situação no mínimo calamitosa: invasão de migrantes, Ancara em guerra na Síria e em guerra contra os curdos em seu próprio território. Isso sem contar um povo dividido, com uma parte a acreditar em um complô de forças ocultas. Erdogan já foi tido como líder-modelo de um país muçulmano. Política estável. Indicadores econômicos invejáveis. Mas os problemas tiveram início no verão (Hemisfério Norte) na Praça Taksim, quando uma espontânea manifestação para proteger um parque em Istambul transformou-se em um conflito de violência inaudita. Erdogan reagiu com autoritarismo, até então desconhecido. Conseguiu fazer aprovar leis consideradas como introito de um projeto para islamizar o país.

O governo turco não adiará as eleições gerais de 1º de novembro. Mas o que espera Erdogan? Após o atentado de sábado contra uma manifestação pacífica, marcada semanas antes, tempo suficiente para organizar a segurança do evento, é difícil imaginar uma vitória absoluta do AKP. Os curdos e esquerdistas votarão em massa no HDP. Demirtas, o líder da legenda, tornou-se o grande inimigo de Erdogan. Aceitará Erdogan uma aliança com alguma agremiação? 

Pamuk diz temer uma guerra civil.