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Número 872,

Sociedade

Brasiliana

Agito na Zona Norte

por Rodrigo Casarin — publicado 28/10/2015 04h27
Amilton Ferreira luta por mais cultura no “outro lado” do Tietê
Wanezza Soares
Casarão-Vila-Guilherme

Amilton Ferreira e artistas ocupam casarão na Vila Guilherme para transformá-lo em centro cultural

Há dez anos o casarão construído na década de 1920 na praça Oscar Silva, Vila Guilherme, zona norte de São Paulo, ex-escola e ex-repartição pública, estava abandonado. A vontade de muitos na região era restaurar o imóvel, tombado pelo Departamento do Patrimônio Histórico, e transformá-lo em uma casa de cultura. Escoravam-se inclusive em uma promessa da prefeitura. Em vão.

Cansados da lentidão da burocracia e surpreendidos pelo anúncio de um edital de uma parceria público-privada para o uso do imóvel, em meados de 2014 um grupo de aproximadamente 50 artistas decidiu ocupar o casarão. Não aceitavam outra opção a não ser a criação de um centro cultural, totalmente público, sem interferência de interesses privados. Os ocupantes se revezavam na proteção do local e em reuniões sobre os destinos do espaço. A inciativa, ao menos, barrou a ideia da PPP. Por enquanto.

O porta-voz dos artistas é o ator Amilton Ferreira, de 55 anos. Ele resume a certeza do grupo: “Se não fica em cima, nunca sai”. Ou seja, sem a pressão sobre o poder público, o destino do casarão já estaria definido. E provavelmente não seria um centro cultural. Ferreira tem experiência na luta em defesa da arte e da cultura do “lado de lá do rio”, a zona norte, separada do resto da capital pelo fétido e lento Tietê. 

Amilton-Ferreira
"Somos conhecidos pelas escolas de samba, mas o povo quer opções o ano inteiro", diz Ferreira / Wanezza Soares
Agitador cultural, o ator se envolve o quanto pode com os problemas da região. Coordena, entre outras atividades, um mapeamento dos técnicos e artistas espalhados pelos bairros da ZN, do Parque Novo Mundo aos limites de Perus, além de identificar os espaços culturais das imediações. O levantamento busca, antes de tudo, conectar os moradores, divulgar os espetáculos e revelar a quantidade de espaços abandonados, públicos e privados, que poderiam ter outra utilidade além de acumular mato, lixo e poeira. 

Não só. Ferreira foi um dos criadores do Agito Cultural Zona Norte, que em um fim de semana de 2014 promoveu mais de 200 atrações pela região. Neste ano, o artista saiu da organização do evento, mas não desistiu da batalha pela cultura. Enquanto planeja outra iniciativa semelhante ao Agito, coordena a frente de cultura da Rede Social Zona Norte, vinculada ao Senac e espaço virtual para mais de 300 interessados em elaborar e implementar projetos na região.

“Tudo o que acontece na ZN cai na minha mão”, garante, sem falsa modéstia. Ele não se conforma em ver tanta gente a transitar pela região por causa do trabalho, especialmente nos centros de exposições como o Anhembi e o Expo Center Norte, mas que se diverte em outras partes.  “Somos conhecidos pela escolas de samba, mas o povo quer opções o ano inteiro.”

Nascido em Lages, Santa Catarina, Ferreira mudou-se  para São Paulo aos 12 anos. Apesar de ter morado por pouco mais de uma década no centro da capital paulista, sempre esteve conectado à zona norte (seus pais escolheram a Vila Maria para morar). Desde 1977, quando estreou no teatro com a peça O Último Carro, sustenta-se como ator, embora também produza programas de televisão.

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Sem a pressão sobre o poder público, o casarão jamais seria um centro cultural / Wanezza Soares

Permanece na carreira, diz, por gostar muito do que faz. “O que me move é o vício, é tentar fazer com que as coisas mudem, mas a gente leva cada rasteira”, lamenta, para depois elencar uma série de dissabores. Além do teatro, seu último espetáculo foi A Farsa da Boa Preguiça e o Rico Avarento, e da televisão, uma importante fonte de renda é a Turminha do Trololó, grupo de animação que realiza apresentações artísticas em festas e eventos. 

As agruras financeiras de outros artistas o aflige tanto quanto as suas. Ferreira mostra-se preocupado com os grupos que não conseguem captar patrocínio por meio de leis de incentivo, o que acaba por enfraquecê-los, e queixa-se da maneira como o poder público encara os artistas.

Casarão
A vontade de muitos era restaurar o casarão / Wanezza Soares
“O pessoal acha a gestão do Haddad bem ruinzinha, apesar de ele liberar algumas coisas agora que o mandato está perto do fim. Para tudo que convidam a gente, querem de graça. Eles devem achar que artistas não comem, não bebem.”

Sobram queixas contra os moradores da zona norte. Estes, a seu ver, poderiam se preocupar mais com a oferta de cultura da região.  “O pessoal da zona leste vai em peso às reuniões. Aqui, quando é preciso discutir algo, eu e mais meia dúzia aparecem.

Talvez neste pedaço se achem de classe média. Não sei.” A bronca dura pouco. Logo o artista elogia o modo de vida da vizinhança. “Aqui as pessoas ainda se falam, se conhecem. Ainda tem amizade.”