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Número 872,

Política

Operação Lava Jato

Lava Jato: a operação abafa vai pelo ralo

por Marcelo Auler — publicado 17/10/2015 04h23
Os grampos na cela de Youssef estavam ativos, confirma uma perícia
grampos encontrados na cela de Youssef

O equipamento encontrado pelo doleiro captou mais de cem horas de conversas.

Nem tudo anda bem na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, sede das investigações da Lava Jato. Circula uma lista de policiais federais, alguns de outras regiões do País, considerados “dissidentes” pelos integrantes da força-tarefa. Até o atual deputado federal Fernando Francischini, delegado de carreira e ex-superintendente no estado, foi incluído.

Em uma folha de papel, conforme denunciou o delegado Mario Renato Castanheira Fanton na 12ª Vara Federal de Curitiba e na CPI da Petrobras, na Câmara dos Deputados, o chefe da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado do Paraná, Igor Romário de Paula, relacionou mais de 15 “suspeitos”, entre delegados, agentes federais e um desembargador do Tribunal Regional Federal afastado das funções pelo Conselho Nacional de Justiça, a ser investigados. 

Com base em informações da doleira Nelma Kodama, de jornalistas ou por meio de denúncias anônimas, Igor de Paula conclui que o tal grupo pretendia vender dossiês para os advogados dos acusados no escândalo da Petrobras. Objetivo? Melar a Lava Jato. 

A suspeita foi o combustível que alimentou ainda mais o clima de discórdia entre os policiais federais que atuam não apenas em Curitiba, mas também no interior paranaense, Foz do Iguaçu e Paranaguá incluídos, ou que já não cumprem suas funções no estado.

Entre os “dissidentes” encontram-se aqueles que, no início da operação, em março de 2014, criticaram internamente certos métodos adotados pela força-tarefa, a começar pelo grampo encontrado na cela do doleiro Alberto Youssef e descoberto pelo preso em abril do ano passado. Não à toa, no centro do organograma desenhado por Igor de Paula aparecem os delegados José Alberto Freitas Iegas, Paulo Renato Herrera e Rivaldo Venâncio.

A cúpula da superintendência continua a negar com veemência que o aparelho de escuta encontrado estivesse ativado. Uma sindicância feita sem maiores apuros (sequer foi pedida a perícia do equipamento) concluiu tratar-se de um transmissor de áudio instalado à época em que o traficante Fernandinho Beira-Mar esteve preso em Curitiba para responder a um processo. Os federais suspeitavam de um atentado contra o juiz Sergio Moro planejado por Beira-Mar.

Os três delegados “dissidentes” colocaram em dúvida essa versão. Herrera, hoje licenciado por problemas psicológicos, foi o primeiro a levantar suspeitas sobre os métodos da força-tarefa e levou suas preocupações aos superiores em Brasília. Inclusive ao Ministério da Justiça, segundo consta. Iegas, ex-superintendente e ex-diretor de Inteligência em Brasília, confirmou à CPI da Petrobras que o grampo não era o mesmo usado na época de Beira-Mar. O aparelho encontrado na cela de Youssef chegou ao Paraná meses depois de o traficante ser transferido.

Venâncio, ex-chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, teve uma discussão com Igor de Paula que culminou em seu pedido de afastamento do cargo de substituto do colega na delegacia de combate ao crime organizado. Para bisbilhotar possíveis conversas de Venâncio, a delegada Daniele Gossenheimer Rodrigues, chefe do Núcleo de Inteligência Policial e mulher de Igor de Paula, mandou instalar uma escuta clandestina no fumódromo da superintendência. Tudo isso foi abafado para não comprometer a credibilidade da operação.

organograma do delegado igor de Paula
O organograma do delegado Igor de Paula: delírio inquisitorial?

Em maio, a versão da sindicância começou a desabar. O agente Dalmey Fernando Werlang confessou a Fanton ter instalado o grampo na cela e no fumódromo. O primeiro, que visava o doleiro, disse, foi determinado por Igor de Paula e respaldado pelo superintendente Rosalvo Ferreira Franco e pelo delegado Márcio Anselmo Adriano, chefe das investigações da Lava Jato. Após a confissão, Werlang passou a ser alijado do grupo, assim como Fanton.

Na terça-feira 6, o deputado Aluísio Guimarães Mendes Filho, agente federal licenciado e integrante da CPI da Petrobras, obteve, de forma extraoficial, a confirmação de que a perícia em Brasília recuperou cerca de cem horas de áudios captados pelo equipamento instalado na cela do doleiro. Ou seja, a se confirmarem as informações repassadas ao deputado, os delegados da Lava Jato mentiram. Em tese, se as regras forem levadas a ferro e fogo, poderiam responder por perjúrio. Diante de Moro, eles negaram a instalação do grampo. A CPI tentou ouvi-los, mas um habeas corpus garantiu a ausência dos investigadores na comissão.

Em Curitiba, o advogado de Youssef, Antônio Augusto Lopes Figueiredo Bastos, que tomou conhecimento do fato pelo blog marceloauler.com.br, disse estar em compasso de espera.

“Preciso ter acesso a este material para poder me posicionar com tranquilidade. Evidentemente, sob o ponto de vista da investigação, isso é uma coisa muito séria. Extremamente complicado se isto estiver ativo e foi colocado para tentar envolver. Mas nós temos que estudar qual seria o efeito para a investigação e quais seriam os danos a serem causados. Ainda não fiz esta prospecção. Agora, evidentemente, se confirmado, vai causar, no mínimo, um sério dano à investigação.” 

Segundo um dos “dissidentes”, houve uma tentativa de intimidar quem levantou suspeitas sobre certos aspectos da investigação, por serem de legalidade duvidosa. A versão da venda de dossiês teria sido criada para colocá-los sob suspeição. Como Fanton declarou em juízo, o Inquérito 737 foi aberto com informações fornecidas pelo delegado Igor de Paula, baseadas em fontes pouco confiáveis ou mesmo desconhecidas. Rapidamente foram, no entanto, vazadas a jornalistas para desclassificar os críticos. Os tais dossiês, até agora, não apareceram.