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Número 871,

Cultura

Turismo

Sempre Atrevida

por Nirlando Beirão publicado 17/10/2015 04h23
Um tributo ao mais belo veleiro do litoral brasileiro
Marina Coelho
Atrevida-e-Fontoura

Quando Fontoura ainda era dono de Atrevida, nos anos 40

Merecia estar em Cannes, o Atrevida, o mais charmoso de todos os veleiros do litoral brasileiro. Já esteve, sim, nas regatas Panerai do Caribe, com triunfo de fita azul em sua classe de fuoriclasse e o respeito de toda a comunidade da vela por seu garbo já quase centenário. Mas não se atreve a atravessar o Atlântico, essa imperatriz dos oceanos, hoje em remanso de aposentada ainda ativa na orla paulista da Ilhabela. Senão, apesar de suas 90 toneladas, faria bonito nessas competições do Mediterrâneo.

Ainda que tenha nascido gringa, com o tonitruante nome de Wildfire, ou Fogo Selvagem, no estaleiro dos irmãos Herreschoff de Rhode Island, em 1923, o Atrevida foi, por quatro décadas, do pós-Guerra a meados dos anos 80, um suave ícone carioca, tão carioca quanto as curvas das calçadas de Copacabana, a garota de Ipanema e o Pão de Açúcar.

A este, aliás, complementava elegantemente, projetando naquele paredão silencioso da Urca sua silhueta de velas beijadas pela brisa da enseada de Botafogo – em harmonia tão perfeita que ninguém sabia dizer qual era o verdadeiro cartão-postal do Rio, se a pedra moldada pela natureza, se o veleiro esculpido pela mão do homem, ou se os dois juntos.

Veleiro-Atrevida
O Atrevida nos anos 40 / Marina Coelho

A fina flor dos irmãos Herreshoff, destinada aos desafios da America’s Cup, chegara ao Rio em abril de 1946, aos trancos e barrancos de uma travessia improvável, 13 tripulantes a bordo, fora o capitão e o navegador, todos marujos de primeira viagem. Clássico happy end tipo sonho-que-se-torna-realidade por parte do industrial Jorge Bhering de Oliveira Mattos, então comodoro do Yacht Club do Rio de Janeiro.

Logo, logo, trocaria de dono. O nome dele era Dirceu Fontoura. Paulistano, 36 anos, homem de dinheiro, herdeiro do Laboratório Fontoura – e, portanto, do Biotônico, fortificante do Jeca Tatu e de nove entre dez crianças brasileiras. De seu signo, Libra, Dirceu trazia a vocação de charmeur e a finesse de anfitrião. Nunca mais o Atrevida seria um mero veleiro, e sim a sala de estar da elite tropical e dos visitantes brasonados. 

Sem Dirceu Fontoura, morto em 1986, o Atrevida deu adeus à Guanabara e mudou-se para o Iate Clube de Santos. Foi como se, ao deixar sua paisagem de estimação, estivesse condenando-se a um fado inglório de ferrugem e corrosão. Para piorar, um ligeiro incêndio veio comprometer a madeira e chamuscou as ferragens originais.

No fim dos anos 90, parecia a carcaça podre de uma nau submersa. Salvaram-no o mecenato de um magnata, o então senador Gilberto Miranda, e a expertise de Manoel Chaves, do estaleiro MCP de Santos. Em julho de 2005, a joia dos oceanos, octogenária com make-up de adolescente, estava orgulhosamente de volta ao seu elemento. 

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