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Número 871,

Saúde

Tratamentos

Os olhos da cara

por Riad Younes publicado 16/10/2015 03h56
As pesquisas médicas se aprimoram, mas o custo da cura tem ficado inviável
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Medicamentos

Apesar do aumento de medicamentos eficazes, o custo do tratamento ainda é alto

Tratamentos e curas que custam muito mais do que ouro. Talvez até mais do que os próprios olhos da cara. Uma avalanche de medicamentos de eficiência cada vez maior contra doenças graves, crônicas e geralmente fatais está sendo distribuída nas prateleiras das farmácias e dos centros médicos ao redor do mundo. Remédios com conceito moderno, dirigidos a alvos específicos nos tecidos doentes, e altamente eficazes em bloquear mecanismos fundamentais no desenvolvimento e na manutenção das doenças.

Particularmente dentre esses a classe de drogas cujos nomes científicos acabam com o sufixo “mab”. Essas três letras basicamente referem-se ao modelo utilizado no ataque, ou seja, são derivados de anticorpos monoclonais, extremamente específicos contra um determinado alvo. Aumento da eficiência contra tecidos e órgãos doentes, e redução de efeitos contralaterais em tecidos normais. 

Há uma semana, um estudo muito badalado, publicado na prestigiosa revista cientifica The New England Journal of Medicine, confirmou a melhor e mais prolongada sobrevida de pacientes com câncer de rim que receberam uma droga nova, nivolumab (atenção às últimas três letras). Os resultados foram impressionantes e a melhora, significativa.

O doutor Fabio Schutz, oncologista clinico do Hospital São José, e um dos cientistas autores da pesquisa, confirmou a importância desses estudos no manejo dos pacientes. Observou que “o nivolumab modificou de forma tão impressionante a evolução dos pacientes que se tornara, nos Estados Unidos por enquanto, o tratamento-padrão nesses casos específicos de câncer de rim”. No Brasil, esse tratamento ainda não foi liberado pela Anvisa para uso rotineiro.

Os custos dos tratamentos, por outro lado, são astronômicos. Estima-se que cada paciente recebendo nivolumab nos EUA deverá sair para o sistema de saúde entre 12 mil e 15 mil dólares por mês. E assim como esse, vários “mabs” foram introduzidos recentemente para tratamento de outros tumores e doenças. Inclusive o alirocumab e o evolocumab, drogas dirigidas para o tratamento de colesterol elevado no sangue, cuja eficiência também foi alardeada nos meios científicos nos últimos 30 dias. Custo desse controle de colesterol: ao redor de 14,6 mil dólares por ano por paciente. No câmbio de hoje, isso custaria algo como 58 mil reais anualmente aos bolsos de cada paciente brasileiro candidato ao tratamento.

A preocupação com esses números não é confinada aos médicos brasileiros. Em editorial publicado na revista NEJM, o dr. Kevin Schulman, da Universidade de Duke, em Durham (EUA), confirma que “dados os preços exorbitantes dos remédios de especialidades, de 84 mil dólares para terapia de hepatite C, a mais de 100 mil dólares para algumas terapias de câncer, e a 300 mil dólares para tratamento de fibrose cística, por doente por ano, o mercado de saúde parece ter poucas armas para restringir o poder de precificação das indústrias”.

O risco de sobrecarga insuportável em cima dos sistemas de saúde é enorme, vai até a quebra generalizada e a incapacidade da sociedade de arcar com esses custos. Schulman completa sua preocupação “não somente com a inviabilização do pagamento dos medicamentos atuais, mas também a perspectiva de restrição de verbas para as industrias inovarem e criarem novos e mais eficazes tratamentos”. Reitera a necessidade de discussão ampla e honesta para um equilíbrio minimamente viável, antes do colapso total. 

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