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Número 871,

Cultura

Religião

No Espírito Santo, a via de Deus

por Jobson Lemos — publicado 23/10/2015 14h11
Uma avenida em Vitória, capital capixaba, concentra 54 igrejas e templos
Jobson Lemos
Vitória-Espírito-Santo

Falta Estado, sobram seitas e pastores

A rodovia Serafim Derenzi contorna Vitória, a pequena capital do Espírito Santo. Em um extremo fica o cemitério. No outro, o quartel da Polícia Militar. Entre as pontas da avenida acotovelam-se 54 templos e igrejas de várias religiões e diversas denominações. Igual em quase tudo à pobreza nas grandes cidades do País, há ali a peculiaridade do mangue. No encontro do Rio Santa Maria com um braço do mar, os caranguejos conhecem a história do homem que busca por milagres no atacado e no dia a dia.

Há igrejas em prédios próprios e algumas com faixas no lugar de placas. E existem letreiros perdidos em meio a uma cacofonia de fachadas. Seitas competem pelas almas em poucos metros de distância. Muitas preces em busca de uma graça que o tempo e a ausência de direitos se negam a conceder. O saneamento é escasso, a presença do poder público normalmente resume-se às rondas policiais. São poucas as padarias na Serafim Derenzi. A sentença de Jesus sobre o pão, insuficiente para o homem viver, em poucos lugares faz tanto sentido como na ilha dos capixabas.

De um ponto da rodovia é possível ver o mangue e o canal de mar e rio. Até a década de 1980, a visão era de palafitas em meio a um lixão que se estendia até perder de vista. Crianças catavam as sobras de tudo o que a cidade não queria mais. Famílias encontravam partes de corpos humanos entre os restos de hospitais. Um documentário da época definia aquele absurdo como “O Lugar de Toda Pobreza”. Ainda hoje é chocante assistir na internet ao vídeo do jornalista Amylton de Almeida, dada a força das imagens de cidadãos na condição de bichos abandonados à sorte dos ratos.

Igrejas-em-Vitória
Seitas competem pelas almas em poucos metros de distância / Crédito: Jobson Lemos

E assim, de miséria em miséria, de dor em dor, de desgraça após desgraça, de desilusão em desilusão, restou a fé aos moradores. Um após outro, os templos brotaram para oferecer a salvação. Resistência, Nova Palestina, Redenção. E, após ser saneada a pobreza abaixo da linha do que se possa imaginar como a extrema miséria, depois de extintas as casas sobre o mangue e o ofício de tirar do lixo o que se pudesse comer, restaram a violência, as drogas, o pouco caso e, novamente, o futuro de perspectivas ao acaso. Sobraram os pastores e alguns padres. Na falta de tudo ao longo do tempo, só mesmo um Deus desejado e esperado pode oferecer paz. Faltam educação, saúde, emprego... Falta dignidade. Resta a esperança em um futuro menos sinuoso que as curvas da rodovia.

Na Páscoa de 2014, em plena celebração dos festejos cristãos, um homem foi assassinado na Serafim Derenzi. Seu corpo, estirado na via e coberto por uma lona ou um plástico qualquer, ficou ali por muito tempo, como se fosse um lixo atirado pela janela de um carro. O pároco da região, Kelder Brandão, interrompeu a procissão e conduziu uma missa diante do defunto. A celebração de Ramos ocorreu diante de um templo evangélico, no bairro Conquista. Reuniram-se católicos e moradores de todas as crenças ao redor do corpo baleado. Houve uma rápida comoção de toda a cidade, mas logo a vida seguiu.

Igreja
Uma das igrejas da rodovia Serafim Derenzi / Crédito: Jobson Lemos

Poucos dias atrás, o evangelista Clementino Pereira dos Santos falava de seus 12 anos na Igreja Universal do Reino de Deus e agradecia pela oportunidade de salvar “vidas”, especialmente aquelas dos jovens, da violência e das drogas. “Temos de resgatar muitas almas aqui.” A convicção de seus 77 anos, a despeito do que se possa crer em contrário, é sintoma de uma sociedade que tirou gente do lixo, mas ainda as mantém na distância inacessível de uma rodovia cujos ônibus passam quando os pontos lotam.

Há 54 templos na Serafim Derenzi. Existem ao menos 54 motivos para os moradores rogarem a um Ser Superior por salvação, clemência, ajuda ou intervenção. Desde sempre, pedem por milagres que a cidade ou o Estado nunca provêm. A avenida cruza muitos bairros, habitados por quem espera alguma salvação em meio a uma história de desrespeito e desolação. Entre curvas perigosas e ladeiras impossíveis de serem conquistadas sem motor, o povo ora. E muitos lucram com isso. Amém.