Você está aqui: Página Inicial / Revista / Levy contra o governo / O vovô veloz
Número 870,

Sociedade

Brasiliana

O vovô veloz

por René Ruschel — publicado 11/10/2015 05h27, última modificação 23/10/2015 05h13
Ao 75 anos, Pedro Muffato é o piloto em atividade mais velho do mundo
Sérgio Sanderson/Grelak Comunicação
Pedro-Muffato

Muffato sobreviveu a um grave acidente, um câncer e um infarto

Aos 75 anos, Pedro Muffato continua a desafiar a morte. Agora são as curvas, retas e ultrapassagens nos autódromos onde pilota, a uma velocidade que pode chegar a 240 quilômetros por hora, um caminhão na Fórmula Truck. Quem o vê pelos boxes não imagina que se trata de uma lenda viva do automobilismo brasileiro. São quase 50 anos de paixão pela disputa em correr e cruzar a linha de chegada. É difícil encontrar no planeta termos de comparação.

O monegasco Louis Chiron, aos 58 anos, é considerado o mais velho piloto de Fórmula 1 a disputar um grande prêmio. Ingo Hoffmann, aos 62, disputou este ano em dupla a prova de abertura do campeonato de Stock Car. Muffato mantém-se em atividade regular nas disputas por diversas categorias desde meados da década de 1960. Em toda a história do automobilismo mundial ninguém superou a sua façanha.

Paranaense de Irati, filho de agricultores, desde cedo viu-se obrigado a lutar pela sobrevivência. Aos 12 anos deixou a zona rural e pela primeira vez pisou em uma “cidade grande”. A saúde debilitada da mãe o obrigou a viver na casa dos avós. Depois viria a morar em Guarapuava, onde se formou técnico em contabilidade. “Nunca fui apanhar meu diploma.

Muffato-sofre-acidente
Em 1996, um acidente o deixou 15 dias em coma / Crédito: Orlei Silva/Grelak Comunicação

Desde essa época, sabia que meu negócio era ser comerciante.” Em 1964, Muffato, “com uma mão na frente e outra atrás”, chegou em Cascavel, oeste do Paraná, onde montou um pequeno armazém na própria casa que alugara para morar.  “Eu mesmo fiz os balcões e prateleiras. Cresci no comércio porque os caixeiros-viajantes da época me davam crédito. Nunca esqueci esses favores.”

O amor pelo esporte o transformou em líder local. Começou a organizar campeonatos de futebol e fazer amigos. Em 1968, foi eleito vereador e, quatro anos depois, prefeito de Cascavel, pelo então Movimento Democrático Brasileiro (MDB). A caminhada política foi curta. “Não quis continuar na vida pública. Preferi retornar ao comércio e cuidar dos meus negócios.”

Muffato-na-ESPN
Muffato tentou a carreira de comentarista na ESPN / Crédito: Arquivo/Grelak Comunicação

Nessa época, a carreira de piloto dava seus primeiros passos. A cidade sempre respirou automobilismo. Em 1965, alguns jovens organizaram uma corrida pelas avenidas empoeiradas da cidade. No ano seguinte, o namorado de sua irmã o convidou para pilotarem juntos um Simca Chambord em uma prova de seis horas de duração. “Descobri ali a minha paixão pela velocidade.” 

Como prefeito, em 1973, Muffato reinaugurou o Autódromo Internacional de Cascavel, com modernas instalações, uma pista asfaltada e padrões de segurança conforme as exigências da Federação Internacional de Automobilismo. Naquela época, sua carreira estava em plena ascensão. Havia passado pelas divisões de Turismo e Força Livre. Começou na preparação de motores de Fuscas com o cunhado, mecânico que foi seu braço direito.

Depois disputou a Fórmula Super-V. Em 1974, conquistou aquela que era, à época, a maior categoria do automobilismo brasileiro: a Divisão 4. “Corri com o modelo de carro Avalone, protótipo de uma Lola, e fui campeão brasileiro.” Na sequência disputou a Fórmula 2 e a Fórmula 3, o Campeonato Sul-Americano, onde, como no futebol, a disputa dava-se entre brasileiros e argentinos. Mais uma vez o espírito de liderança falou mais alto e Muffato tornou-se um algodão entre os cristais da discórdia.

Prefeito-Muffato
Ele foi eleito prefeito de Cascavel em 1973 / Crédito: Arquivo/Grelak Comunicação

Em 1996, sua carreira quase chegou ao fim. No autódromo de Cascavel, sofreu um acidente que o deixou três anos fora das pistas. “Foi gravíssimo. Fraturei todas as costelas e tive problemas com o pulmão. Fiquei em coma durante 15 dias no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, entre a vida e a morte.” Qualquer outro desistiria. Não Muffato.

Por um tempo, ele contentou-se em comentar a Fórmula 3 no canal ESPN Internacional. Mas o sangue falou mais alto e o piloto reencontrou as pistas em 2000, dessa vez no Campeonato de Fórmula Truck. “Foi um enorme desafio. Voltei e permaneço até hoje.”

Piquet-e-Muffato
Lembrança do amigo Piquet / Crédito: Arquivo/Grelak Comunicação

Com espírito e garra de um eterno aprendiz, o vovô do automobilismo não pensa em parar. Além do acidente, venceu um câncer de próstata e um infarto. “Enquanto eu for competitivo e sentir a emoção de pilotar, vou correr. Não faço planos para encerrar a carreira.” O filho caçula, David Muffato, que trocou a Stock Car pela Truck, integra a equipe.

A única que insiste para ele abandonar as provas é a esposa, sua companheira há 50 anos. Muffato diz que entende suas preocupações, pois na pista estão o marido e o filho. “Com ela não brigo nem discuto sobre o tema. Fico calado. Digo apenas que vou parar, mas não sei quando.” 

Pace-e-Muffato
Ao lado de Pace, na Fórmula 1 / Crédito: Arquivo/Grelak Comunicação

registrado em: ,