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Número 870,

Sociedade

Esporte

Rugby, o jogo do fair-play

por Nirlando Beirão publicado 08/10/2015 02h59
Violento, ele é. Mas no esporte não cabe a deslealdade do nosso futebol
Adrian Dennis

Seis jogadores, entre os 30 em campo, saíram lesionados no massacre, perdão, no confronto entre Inglaterra e País de Gales, sábado 26, na arena de Twickenham, ao sul de Londres. Um deles, pelo menos, o galês Scott Williams, está definitivamente fora de um campeonato mundial de rugby que mal começou. Na noite que antecedeu o eclipse lunar, assistiu-se à emocionante e apertada vitória dos Dragões (Dragons é o carinhoso apelido da equipe galesa) sobre São Jorge (Saint George, ou The Rose, alcunhas do esquadrão inglês): 28 a 25, com virada nos últimos minutos.

Não é todo mundo que tem estômago para acompanhar, mesmo em ocasiões especiais, um esporte que parece ser mera pancadaria, violento, sem nenhuma fotogenia. Num Brasil monoesportivo, então, o fascínio do rugby é mais remoto ainda.

Violento, o rugby é, sim, e a enfermaria que acolheu os destroços da histórica rivalidade entre os dois vizinhos da ilha britânica, no sábado, é testemunha disso. No entanto, dá para ver certa beleza em tudo aquilo: no enredo de estratégias inteligentes, na harmonia de um jogo intrinsecamente coletivo e, sobretudo, para quem está acostumado à malemolência macunaímica do nosso futebol, na surpresa proporcionada por um esporte de corpo-a-corpo e de entrechoque musculoso, em que não se vê, no entanto, nenhuma deslealdade, malandragem zero.

É um espetáculo de fair-play, tanto que, ao apito final, os perdedores esperam para dar as mãos, civilizadamente, aos vencedores e estes, à saída do gramado, aplaudem os perdedores – por mais que seja enorme, como naquele caso Dragões vs. São Jorge, o antagonismo. Mesmo aquela dança ritual, a Haka, herança dos guerreiros maoris, que os All Blacks da Nova Zelândia executam à frente dos adversários, antes do início, não é tomada como provocação – é operística, show, musical.

Na prática do rugby jamais caberiam figuras como aquele selvagem Diego Costa, do Chelsea, ou esse doentio Dudu, do Palmeiras (a propósito, o único atleta até agora banido do Mundial por mal comportamento foi um argentino). Outra característica estranha ao futebol é que os 80 minutos de partida exigem intensidade compartilhada, envolvimento de corpo e alma de cada jogador, com total responsabilidade, sem firulas, sem fricotes.

A Copa do Mundo 2015 vai até 30 deste mês de outubro e, entre os 20 países que concorrem (entre eles os sul-americanos Argentina e Uruguai), os favoritos são aqueles que ganharam uma das suas sete edições anteriores: a Nova Zelândia, que defende o título de 2011, a Austrália e a Inglaterra, apesar do tropeço contra Gales. Os Springboks, da África do Sul, míticos vencedores de 1995 (torneio que deu no filme Invictus), começaram mal: perderam na estreia para a zebra chamada Japão (32 a 34).