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Número 870,

Sociedade

Guia da vida contemporânea

Não sorria. Você está sendo fotografado

por Jonathan Jones — publicado 11/10/2015 05h25
Ninguém, com exceção de Mona Lisa, ria nos retratos antigos. Já nas selfies de hoje...
Mona-Lisa

Mona Lisa, o único esboço de sorriso nas fotos de antigamente

Como observaram acuradamente aqueles que fizeram essa pergunta ao Google, não vemos sorrisos nas antigas fotografias. O retrato foi uma das principais atrações da fotografia desde a sua invenção. Em 1852, por exemplo, uma menina posou para um daguerreótipo com a cabeça ligeiramente inclinada, dando à lente um olhar firme, confiante, grave. Ela está preservada para sempre como uma garota realmente muito séria. 

Essa seriedade é onipresente nas fotografias vitorianas. Charles Darwin, que, segundo todos os relatos, era uma personalidade calorosa e um pai brincalhão e amoroso, parece congelado em tristeza nas fotografias. No grande retrato feito por Julia Margaret Cameron, em 1867, do astrônomo John Frederick William Herschel, sua profunda introspecção melancólica e o cabelo revolto, beijado pela luz, lhe dão o ar de um trágico Rei Lear. 

Por que nossos ancestrais, desde os desconhecidos sentados em retratos de família até os grandes e famosos, ficam tão sem graça diante das lentes? Não é preciso olhar por muito tempo para essas antigas fotos sérias para ver quão incompleta é a resposta aparentemente óbvia – que eles estão congelando seus rostos para se manterem imóveis durante os longos tempos de exposição. 

No retrato de Alfred Tennyson, por Julia Margaret Cameron, o poeta medita e sonha, seu rosto é uma máscara de gênio sombreada. E isso não é simplesmente um truque técnico. É uma opção estética e emocional. As pessoas do passado não eram necessariamente mais tristonhas que nós. Elas não andavam por aí em um perpétuo estado de lamentação – embora pudessem ser perdoadas por fazê-lo, em um mundo com índices de mortalidade muito mais altos do que no Ocidente hoje, e uma medicina que era realmente inferior pelos nossos padrões. 

Charles-Darwin
O brincalhão Darwin

Na verdade, os vitorianos tinham senso de humor até sobre os aspectos mais sombrios de sua sociedade. O livro de Jerome K. Jerome Three Men in a Boat (Três Homens em um Barco) é uma visão reveladora do humor vitoriano – é divertido e irreverente. Quando o narrador bebe um pouco de água do Rio Tâmisa, seus amigos o censuram porque, provavelmente, pegará cólera.

É uma brincadeira assustadora de se fazer em 1889, poucas décadas depois de a cólera ter arrasado Londres. Mas Chaucer escreveu Os Contos de Canterbury, que ainda hoje conseguem causar risos, no século da peste negra. E Jane Austen encontrou muito motivo para rir na era das Guerras Napoleônicas. 

O riso e a alegria simplesmente não apenas eram comuns no passado, como eram muito mais institucionalizados que hoje, desde os carnavais medievais em que comunidades inteiras se entregavam a pantomimas cômicas às oficinas de gravura georgianas, onde as pessoas se reuniam para ver as últimas caricaturas. Longe de suprimir os festivais e a diversão, os vitorianos, que inventaram a fotografia, também criaram o Natal como a festa secular que é hoje. 

Por isso, a severidade das pessoas nas fotos do século XIX não pode ser evidência de uma tristeza e depressão generalizadas. Não era uma sociedade em permanente desespero. A verdadeira resposta tem a ver com as atitudes em relação ao próprio retrato. As pessoas que posaram para as primeiras fotografias, desde famílias simples de classe média, registrando seu status a celebridades capturadas pelas lentes, compreendiam que era um momento importante. A fotografia ainda era rara. Ter sua foto tirada não era algo que acontecia todos os dias. Para muitas pessoas podia ser uma experiência única na vida. 

Posar para a câmera, em outras palavras, não parecia tão diferente de ter seu retrato pintado. Era mais barato, mais rápido (mesmo com os longos tempos de exposição) e significava que pessoas que nunca tiveram a chance de ser pintadas podiam agora ser retratadas, mas as pessoas parecem levar isso a sério da mesma maneira que fariam com um retrato pintado. Não era um “instantâneo”. Como um retrato pintado, pretendia ser um registro atemporal de uma pessoa. 

Os retratos a óleo não são muito cheios de sorrisos, tampouco. Os de Rembrandt pareceriam muito diferentes se neles todo mundo estivesse sorrindo. Na verdade, são cheios da consciência da mortalidade e do mistério da existência – não há motivos para rir. Desde o olhar perscrutante do papa Inocêncio X, de Velázquez, até a Violante intimamente séria de Ticiano, poucos retratos pintados nos museus são rostos sorridentes. 

Pré-selfie
Jan Six, por Rembrandt

A mais famosa exceção, é claro, é a Mona Lisa – e Leonardo da Vinci trabalhou durante anos para fazer aquele sorriso “dar certo”. Seus contemporâneos ficaram surpresos ao ver um retrato sorridente. No século XVIII, os artistas pintavam pessoas sorridentes – o escultor Houdon deu até um sorriso em mármore a Voltaire – para capturar a nova e sociável atitude sorridente do Iluminismo. 

Mas, de modo geral, a melancolia e a introspecção assombram o retrato a óleo, e esse senso de seriedade da vida passa da pintura para a fotografia, no início.  

Na verdade, essa pergunta poderia ser reformulada: por que as antigas fotografias são tão mais comoventes que as modernas? Pois a grandeza existencial do retrato tradicional, a gravitas de Rembrandt, ainda sobrevive na fotografia vitoriana. Hoje tiramos tantos instantâneos sorridentes que a ideia de alguém encontrar profundidade e poesia na maioria deles é absurda.

As fotos têm a ver com sociabilidade. Queremos nos comunicar como seres sociais felizes. Por isso sorrimos, rimos e gargalhamos em selfies interminavelmente compartilhadas. Uma selfie sorridente é o oposto de um retrato sério. É apenas uma apresentação de felicidade momentânea. Ele tem profundidade zero e, portanto, valor artístico zero. Como documento humano é perturbadoramente descartável. (Na verdade, nem sequer é sólido o suficiente para se jogar fora – basta clicar delete.) 

Como são belas e assombrosas as antigas fotografias, em comparação com nossas tolas selfies. Aquelas pessoas sérias, provavelmente, se divertiam tanto quanto nós, ou mais. Mas não sentiam uma necessidade histérica de provar isso com imagens. Ao contrário, quando posavam para uma fotografia, pensavam no tempo, na morte e na memória. 

A presença dessas graves realidades nas fotografias antigas as faz valer muito mais que, nossos instantâneos ridiculamente felizes no Instagram. Talvez nós também devêssemos parar de sorrir um pouco.  

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